Notícia

Esteta

Nova formiga é descoberta na Unesp de Rio Claro

Publicado em 01 setembro 2014

Por Edneia Silva

Uma descoberta feita por um pesquisador da Unesp, Câmpus Rio Claro, ganhou grande destaque no cenário científico internacional. O Prof. Dr. Maurício Bacci Júnior, do Centro de Estudos de Insetos Sociais (Ceis) do Instituto de Biociências (IB) descobriu uma nova espécie de formiga parasita jamais observada em outro lugar no mundo. A formiga, batizada de Mycocepurus Castrator, aponta novos caminhos para o surgimento das espécies, além da teoria clássica de que o processo evolutivo acontece por meio do distanciamento geográfico de um grupo.

A nova descoberta foi publicada na revista Current Biology, na edição do dia 21 de agosto. De acordo com o pesquisador, a grande novidade trazida pelo estudo foi a comprovação de que a Mycocepurus Castrator surgiu por meio de especiação simpátrica, ou seja, através de indivíduos de uma mesma colônia sem que houvesse isolamento geográfico entre o grupo. O nome foi escolhido porque a nova formiga inibe a procriação da hospedeira impedindo a formação de ninhos reprodutivos.

Especialista em evolução, Bacci conta que a castrator foi vista pela primeira vez em 2004 quando começou o estudo. A parasita foi localizada durante a escavação de um formigueiro de Mycocepurus Goeldii, próximo ao prédio do CEIS no campus da universidade. O fato chamou a atenção do pesquisador pois havia duas formigas diferentes numa mesma colônia. Uma amostra então foi enviada para e especialista em taxonomia, Christian Rabeling, que na época trabalhava na Universidade do Texas, em Austin, nos Estados Unidos. Ele comprovou que a formiga era mesmo diferente e a partir daí Bacci e Rabeling iniciaram os estudos para comprovar se realmente se tratava de uma parasita ou de um erro originário de mistura durante a coleta.

Em 2010, Rabeling e Bacci publicaram um artigo descrevendo a nova espécie Mycocepurus Castrator como sendo parasita. De acordo com Bacci, a origem da parasita foi confirmada por meio de procedimento de datação com base em biologia molecular, relacionando o número de mutações a referências geológicas. O teste estatístico determinou que a formiga M. Goeldii surgiu há cerca de dois milhões de anos enquanto a M. Castrator apareceu há 27 mil anos. “A origem mais recente que a espécie hospedeira ajudou a comprovar que a castrator surgiu a partir da espécie hospedeira”, destaca.

Essa é a tese defendida no artigo “A Social Parasite EvolvedReproductiveIsolationfrom Its Fungus-GrowingAnt Host In Sympatry”, publicado no periódico Current Biology. Nele, os autores demonstram que a castrator surgiu através de especiação simpátrica e que o surgimento de uma nova espécie pode decorrer de um parasitismo. “É como se a gente desse origem ao nosso próprio parasita”, comenta. Ele acredita que com o estudo as pessoas começarão a olhar para o parasitismo de forma diferente, procurando evidências de especiação simpátrica.

O pesquisador afirma que a descoberta reforça a teoria da evolução que propõe que as coisas não são estáticas, que as espécies surgem e desaparecem constantemente. Esse processo ocorre através de vários mecanismos, sendo a especiação simpátrica um deles. Por ser mais raro, quando é descrito um novo caso desperta curiosidade. O cientista explica que o próximo passo da pesquisa é procurar outros casos de formigas parasitas para verificar se elas também representam casos de especiação simpátrica. Segundo Bacci, existem ainda muitas perguntas sem respostas. Qual a frequência do parasita? O parasitismo representa uma ameaça ao ninho? Há evidências de que às vezes as hospedeiras conseguem matar as parasitas, mas não se sabe se elas conseguem se curar do parasitismo.

O estudo foi realizado em parceria com Ted R. Schultz, do Museu de História Natural da Smithsonian Institution; Christian Rabeling, da Universidade de Rochester; e Naomi E. Pierce do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de Harvard. A pesquisa foi financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Portal Unesp