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Nova ferramenta contra a tuberculose

Publicado em 04 junho 2008

Pesquisadores do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Pernambuco, desenvolveram e validaram um teste molecular para o diagnóstico da tuberculose de alta complexidade, em especial a tuberculose infantil e a tuberculose extrapulmonar.

O teste funciona com a identificação do IS6110, um elemento genético da bactéria causadora da doença, o Mycobacterium tuberculosis. O objetivo é detectar, de maneira precoce, os casos de tuberculose em que a presença do bacilo no organismo é muito baixa, gerando um tipo da doença que pode ocorrer nos gânglios linfáticos, ossos, articulações, fígado, pele e sistema nervoso central.

Ao ser validado em amostras de sangue de 117 crianças de ambos os sexos, com idades entre seis meses e 14 anos, atendidas no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Hospital Barão de Lucena e no Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (Imip) – todos no Recife –, o novo método apresentou especificidade de 100%, ou seja, capacidade de descartar a presença do M. tuberculosis em indivíduos saudáveis. Apresenta também 92,6% de sensibilidade, ou a capacidade de confirmar a presença do bacilo.

A eficácia do teste molecular foi comprovada por meio do método conhecido como Nested-PCR, que amplifica, em crianças com suspeita de tuberculose, um trecho específico do DNA da bactéria em milhares de vezes. De acordo com a coordenadora do trabalho e chefe do Laboratório de Imunoepidemiologia do CPqAM, Haiana Schindler, o método molecular que acaba de ser validado é capaz de detectar uma quantidade de DNA menor que a existente em uma célula bacteriana.

“Com o teste, a presença de apenas um bacilo pode ser suficiente para indicar, em cerca de 24 horas, se o paciente está infectado”, disse ela à Agência FAPESP. “A tuberculose é particularmente difícil de ser diagnosticada em crianças. O quadro clínico clássico geralmente é ausente, sendo mais comum a presença de sintomas não específicos.”

Por conta disso, atualmente o diagnóstico laboratorial da tuberculose infantil apresenta diversas dificuldades: as imagens radiológicas pulmonares nem sempre são conclusivas e o teste conhecido como Mantoux pode ser de difícil interpretação devido, sobretudo, à vacinação prévia das crianças com a vacina BCG. Além disso, a cultura de sangue tem baixa sensibilidade e requer muito tempo para obtenção do resultado, uma vez que o bacilo Mycobacterium tuberculosis necessita de oito a dez semanas para se multiplicar.

Segundo Haiana, que também é professora do Departamento Materno Infantil da UFPE, hoje o procedimento mais comum, devido à dificuldade das crianças menores em expectorar, é a cultura de lavado gástrico nos suspeitos de tuberculose pulmonar, que detecta a presença do bacilo em cerca de 40% dos casos.

“Já pelo teste molecular, a detecção do M. tuberculosis pode ser obtida com sensibilidade de uma cópia de DNA alvo em uma única célula bacteriana, extraída de amostras clínicas de naturezas variadas. Esse novo método detecta a presença do material genético específico da microbactéria presente na tuberculose-doença, com sintomas, e também na tuberculose-infecção, ainda sem os sintomas”, explicou.

Amplificação de seqüências de DNA

A técnica da Fiocruz para o diagnóstico rápido da tuberculose é baseada na reação em cadeia da polimerase (PCR). A amplificação específica de seqüências de ácidos nucléicos por meio da PCR, que permite a síntese enzimática in vitro de seqüências de DNA, também tem sido empregada no diagnóstico de várias doenças infecciosas.

“Para o controle da tuberculose é importante o diagnóstico precoce e, como existem falhas nos métodos rotineiros utilizados atualmente, a necessidade de um teste rápido, sensível e prático levou ao desenvolvimento desse novo teste diagnóstico molecular”, explicou Haiana.

Se entre as vantagens do novo teste estão a alta sensibilidade, especificidade e rapidez na obtenção do resultado, a pesquisadora aponta que uma das desvantagens pode ser o custo mais elevado, apesar de os pesquisadores da Fiocruz ainda não terem realizado estudos de custos.

“A vantagem é que, quando comparada com os gastos da saúde com outros exames laboratoriais, dias de internação, medicamentos e outras seqüelas ocasionadas por falta de diagnóstico precoce, os benefícios desse novo teste poderão compensar a sua implantação nos principais serviços de referência do Brasil”, afirmou.

Atualmente, o teste molecular só está sendo utilizado em contexto de pesquisa. “Estamos trabalhando no desenvolvimento e validação de um kit de diagnóstico para ser implantado nos principais centros e instituições de referência da tuberculose no Brasil em casos de difícil elucidação. Para isso, a relação custo-benefício do método já está sendo avaliada”, disse a pesquisadora do Departamento de Imunologia do CPqAM.

A intenção é fazer com que a utilização do teste molecular, associada aos métodos tradicionais, contribua para um diagnóstico mais preciso em qualquer fase da doença, permitindo o tratamento precoce e o controle da sua transmissão. A tuberculose infantil é um problema de saúde pública que atinge 1,3 milhão de crianças por ano no Brasil.

Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas estejam infectadas pela Mycobacterium tuberculosis no Brasil, o que resulta na 16ª posição entre os 22 países com mais alta carga de tuberculose do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os casos notificados no país, 10% acometem menores de 15 anos.

Fonte: Agência FAPESP