Notícia

Jornal da USP

Nova coleção da Edusp apresenta a história das migrações

Publicado em 26 maio 2011

Leila Kiyomura, do Jornal da USP

Um desafio que extrapola os saberes do mundo acadêmico, alargando fronteiras, respeitando a diversidade e a integração no mundo globalizado. Com essa proposta, a Editora da USP (Edusp) lança, com o apoio da Fapesp, a coleção História das Migrações. Os coordenadores são os historiadores Maria Luiza Tucci Carneiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Federico Croci, da Universidade de Gênova, na Itália. A meta é abrir espaço para a divulgação de estudos que têm o fenômeno das migrações como objeto de análise sob uma perspectiva multidisciplinar nos mais diferentes campos do conhecimento.

"O tema do deslocamento populacional é uma das vertentes possíveis para compreendermos a história do Brasil dos tempos coloniais até a atualidade", observa a professora Maria Luiza. "Das migrações transoceânicas às internas, vislumbramos um mundo complexo marcado pela diversidade de culturas, povos e nações. No entanto, apesar da identidade nacional brasileira ter sido construída sobre a ideia de uma sociedade multiétnica, não se observa a ausência de conflitos. Ao contrário, a diversidade tem se apresentado como motivo para a proliferação do racismo e da xenofobia."

A historiadora esclarece que em distintos momentos o migrante foi motivo de estranhamento e de preconceitos de classe, étnicos e de raça. "A fábula das três raças, segundo a qual os três elementos sociais - branco, negro e indígena - se fundiram para dar vida à identidade brasileira, faz parte do imaginário coletivo e ainda precisa de muito investimento para ser erradicada."

O papel representado pelas migrações internacionais no contexto da globalização é uma realidade que está entre os questionamentos contemporâneos. E o Brasil, segundo a historiadora, é um observatório privilegiado das migrações passadas e presentes. "Devemos, portanto, nos manter em estado de alerta e preocupados com o respeito aos direitos humanos dos migrantes e com a adoção de políticas multilaterais frente a essa questão."

A coleção História das Migrações, da Edusp, apresenta as pesquisas realizadas pelo Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), sediado no Departamento de História da FFLCH. "História do Trabalho e Histórias da Imigração", organizado por Maria Luiza Tucci Carneiro, Federico Croci e Emilio Franzina, "In Difesa della Razza: Os Judeus Italianos Refugiados do Fascismo" e o "Antissemitismo do Governo Vargas", de Anna Rosa Campagnano, e "Laços de Sangue: Privilégios e Intolerância à Imigração Portuguesa no Brasil", de José Sacchetta Ramos Mendes, são os novos títulos da série que já estão nas livrarias.

Sindicalismo

Os mais recentes estudos sobre a participação dos trabalhadores imigrantes italianos na história dos movimentos operário e sindical brasileiros estão reunidos no livro "História do Trabalho e Histórias da Imigração". Os artigos são assinados por 11 pesquisadores, de diferentes instituições. Com múltiplos pontos de vista e recortes metodológicos, reconstitui os caminhos trilhados pela imigração italiana que marcaram a história política, social e cultural do Brasil.

"Quem não sabe que nos confins do estado de São Paulo vivem cerca de 1 milhão de filhos da Itália?", questiona a historiadora Maria Luiza. "Basta proferir esse número para que até quem não conheça nem um pouco de nossa história colonial logo perceba a enorme importância de tal multidão no meio de uma população que não ultrapassa os 3 milhões e meio de habitantes."

Maria Luiza, professora da FFLCH, explica que os textos reunidos no livro foram originalmente produzidos para um evento ocorrido em 2006, quando se comemoraram os cem anos do nascimento da Confederazione Generale Italiana del Lavoro. "Na USP, foi organizado um seminário internacional com o objetivo de reunir os mais recentes estudos e fazer um balanço da produção historiográfica no Brasil relativo à participação dos trabalhadores imigrantes italianos na história dos movimentos operário e sindical brasileiros."

Os historiadores procuraram expressar a riqueza das relações entre a história do trabalho e as inúmeras histórias da imigração. O movimento operário, a imigração pós-Segunda Guerra Mundial, o sindicalismo revolucionário no Brasil e a vida cotidiana dos imigrantes estão registrados por historiadores das principais universidades italianas e brasileiras. "Talvez mais do que qualquer outra, a imigração italiana foi objeto de uma construção caricata por meio da literatura, do cinema, da televisão e, certamente, também pelo imaginário acadêmico", observa o historiador Claudio Batalha, que assina a orelha do livro.

Fuga para o Brasil

"Mussolini - In Difesa della Razza", de Anna Rosa Campagnano, é uma reconstrução da história dos judeus que emigraram da Itália para o Brasil, escapando da perseguição antissemita introduzida na Itália por Mussolini em 1938. Para desenvolver a pesquisa, a autora buscou, com muito critério, documentos e registros em arquivos italianos e brasileiros. "Este é um livro pendular que transita entre as histórias contemporâneas da Itália e do Brasil, identificando vestígios e decifrando enigmas que dizem respeito ao colaboracionismo durante a Segunda Guerra Mundial, assunto tabu que sempre gera mal-estar", observa a historiadora Maria Luiza. "Aliás, uma herança que não interessa ser discutida por aqueles que atuaram nas esferas do poder. Tanto assim que é recente a historiografia italiana dedicada a refletir seriamente sobre as origens e à trajetória do racismo italiano, principalmente no que diz respeito a perseguição fascista dos judeus".

Maria Luiza lembra que o fascismo italiano, apesar da sua política intolerante, conseguiu ficar no poder durante muitos anos, de 1922 a 1945, o mesmo acontecendo com Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, com o seu governo marcado pelo autoritarismo e racismo. "Questões como essas nos permitem avaliar a força mobilizadora da propaganda política que, acionada pelo Estado e pela Igreja Católica, contribuiu para legitimar o regime. Apoiados pelas elites intelectuais e pelo povo, a maioria de formação católica, os governos de Mussolini e Vargas adotaram políticas de exclusão contra as minorias étnicas e investiram na domesticação de massas."

Anna Rosa Campagnano conta que o seu estudo tem como objeto a imigração dos refugiados judeus italianos, em particular para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. "A hipótese de trabalho é a de que as leis raciais instituídas pelo governo fascista na Itália em 1938 alteraram o cotidiano dos judeus, forçando milhares deles a emigrar", esclarece. "Consideramos tal fato como um marco na história da imigração italiana, um ponto de ruptura."

Portugueses

O livro "Laços de Sangue: Privilégios e Intolerância à Imigração Portuguesa no Brasil", de José Sacchetta Ramos Mendes, foi apresentado originalmente como tese de doutorado no Departamento de História. A pesquisa também foi reconhecida em 2007 com o Prêmio Fernão Mendes Pinto, da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), pela contribuição ao avanço do conhecimento sobre a imigração para o Brasil e as relações luso-brasileiras.

A historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva, professora da USP e coordenadora do Centro de Estudo das Migrações e das Relações Institucionais da Universidade de Lisboa, observa, no prefácio, que o livro de Ramos Mendes vem preencher uma visível lacuna, chamando a atenção para o paradoxo que marca a imigração portuguesa no Brasil. "Atraídos pela visibilidade dos ataques e das hostilidades vivenciados pelos imigrantes portugueses em vários períodos e em distintas regiões, os historiadores ainda não se tinham apercebido de uma constante: como a legislação e as diretrizes políticas ao longo do período imperial, republicano e estadonovista favoreceram sempre os portugueses em relação aos demais imigrantes", observa.

O autor esclarece que o seu estudo assinala a atribuição desses privilégios políticos e jurídicos à imigração portuguesa no Brasil independente. "Favorecimento e intolerância singularizaram paradoxalmente a história dos lusos no País. O objetivo é demonstrar essa afirmação e sublinhar elementos de sua problemática, sugerir momentos de ruptura, continuísmo ou descontinuidade, constatar e delimitar posições nos sentidos histórico e jurídico." A pesquisa foi realizada de forma interdisciplinar entre as áreas de direito e história, Ramos Mendes reuniu uma documentação ampla, observando arquivos e bibliotecas do Brasil, Portugal e Estados Unidos.

Serviço

"História do Trabalho e Histórias da Imigração", de Maria Luiza Tucci Carneiro, Federico Croci e Emilio Franzina (organizadores), Edusp, 328 páginas, R$ 55,00.

"In Difesa della Razza: Os Judeus Italianos Refugiados do Fascismo e o Antissemitismo do Governo Vargas", de Anna Rosa Campagnano, Edusp, 352 páginas, R$ 67,00.

"Laços de Sangue: Privilégios e Intolerância à Imigração Portuguesa no Brasil", de José Sacchetta Ramos Mendes, Edusp, 384 páginas, R$ 64,00.

Mais informações: (11) 3091-4156, site www.edusp.com.br