Notícia

Jundiaí Agora

Notícias nada ANIMADORAS sobre a biodiversidade

Publicado em 02 abril 2018

Medellín, na Colômbia, foi a sede de uma importante reunião realizada em março último que tratou da biodiversidade no mundo: a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Sistêmicos (IPBES). Se você ainda não ouviu falar nessa sigla, fique esperto: ela reúne nada mais, nada menos que 550 experts de cerca de 100 países, inclusive do Brasil, como o professor Carlos A. Joly (BIOTA-Fapesp), todos debruçados há longo tempo nessa questão. Produziram e aprovaram, nesse evento, o Diagnóstico Regional das Américas sobre Biodiversidade e Serviços Sistêmicos e mais quatro diagnósticos regionais com foco na África, Europa e Ásia Central, Ásia e Pacífico. As notícias não são animadoras: a biodiversidade continua sendo perdida em todos os continentes.

Parece a muitos que ela nada tem a ver com nosso cotidiano, que se trata de algo “da Amazônia”, ou daquele oceano, ou de rinocerontes brancos sob caça intensa lá na África. Mas, conforme alerta sir Robert Watson, presidente do IPBES, “nada poderia estar mais longe da verdade: ela é a base de nossa alimentação, água limpa e energia, estando portanto no centro da sobrevivência, cultura, identidade, prazeres de todos.” E completa: “a forma como manejamos a biodiversidade e os ecossistemas é uma questão moral, social, ambiental e de desenvolvimento: as pessoas mais vulneráveis são as pobres, maioria dos países em desenvolvimento.”

Apenas para darmos alguns números brasileiros: dentre as nações que abrigam 70% da biodiversidade do planeta, o Brasil é a que tem maior biodiversidade e possui a maior parcela contínua de floresta tropical; somente as áreas campestres do bioma Pampa possuem, em menos de 2% do território nacional, cerca de 2.200 espécies de plantas; mais de 88% da área original de Mata Atlântica foi convertida em agricultura, urbanização ou simplesmente degradada; níveis alarmantes de pobreza são encontrados na região Amazônica (40% da população), onde cerca de 20% da floresta foi convertida em área agrícola com predominância da pecuária e uma parcela maior encontra-se degradada pela ação do fogo ou extração ilegal de madeira. Ainda nessa região, a velocidade de devastação e retirada da floresta é tão grande que não se consegue obter números precisos de quantas espécies estão sendo dizimadas, simplesmente porque muitas não foram ainda nem identificadas: portanto, é certo que estamos em situações-limite de ameaças não só à biodiversidade, mas até mesmo de nossa soberania nacional.

Vamos a um caso concreto que ocorreu há cerca de 15 anos: o açaí é o fruto da palmeira conhecida como açaizeiro (foto principal), ou Euterpe oleracea, espécie nativa das várzeas da região Amazônica, especificamente da Venezuela, Colômbia, Equador, Guianas e Brasil (estados do Amazonas, Amapá, Pará, Maranhão e Acre). Ora, não é que desde 2003 foi registrado no Japão como propriedade da empresa K.K. Eyela Corporation? Apenas em 2007, após trâmites jurídicos internacionais intensos, o açaí voltou para o seu berço natal. Ah, mas pensam que a empresa sossegou? Capaz! Foi atrás de outro fruto, o cupuaçu (Theobroma grandiflorum), para o qual foi necessária uma representação do governo brasileiro na Organização Mundial de Comércio (OMC) para garantir ao País o direito de uso do nome, cupuaçu, mais um brasileiríssimo.

Para coibir esse tipo de investida de empresas estrangeiras, o governou formulou lista com mais de 3 mil nomes científicos de plantas brasileiras, distribuindo para escritórios de marcas do mundo inteiro e a renovando, periodicamente. No entanto, conforme vimos a velocidade da devastação dos biomas, muito maior que os recursos para a catalogação de novas espécies, animais e vegetais, esse é um flanco extremamente vulnerável, de nossa biodiversidade e de nossa soberania.

Hoje o açaí sofre outra ameaça, em competitividade. Por quê? A produção dos açaizeiros dispersos na floresta é 25% maior daqueles que estão plantados em monocultivo. A razão é que são plantas altamente dependentes da polinização de insetos, abundante nas florestas, com imensa variedade de floração para garantir a diversidade de recursos ao longo do ano, fato que não ocorre nos monocultivos, pobres de abelhas, seus polinizadores tradicionais. Em outras palavras, as abelhas prestam os chamados “serviços sistêmicos”, aqueles não são contabilizados na planilha que faz o preço do açaí, mas integra a cadeia para produzi-lo, de forma muito mais ampla do que se imaginava, e decisiva.

O tema é vasto, mas fica a reflexão para imaginarmos os impactos que tem a biodiversidade, em situações próximas de nós. Por exemplo a nossa necessidade de água, e o cuidado com nossos córregos, riachos e rios, estes, que cruzamos às vezes diariamente no nosso caminho do trabalho, escola ou de casa. Quais as condições em que eles se encontram para nos proporcionar esse bem vital para nossa sobrevivência?

Para saber mais:

http://agencia.fapesp.br/perda_de_biodiversidade_ameaca_bemestar_das_geracoes_atuais_e_futuras/27421/

http://www.biota.org.br/

https://www.bpbes.net.br/

ELIANA CORRÊA AGUIRRE DE MATTOS

Engenheira agrônoma e advogada, com mestrado e doutorado na área de análise ambiental e dinâmica territorial (IG – UNICAMP). Atuou na coordenação de curso superior de Gestão Ambiental, consultoria e certificação em Sistemas de Gestão da qualidade, ambiental e em normas de produção orgânica agrícola.