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Diarioweb (São José do Rio Preto)

Nossos bosques (ainda) têm mais vida

Publicado em 09 junho 2013

Por Allan de Abreu

São 1,8 mil espécies de plantas e animais catalogados pela ciência na região. Seis deles exclusivos do Noroeste paulista. Onze na lista dos ameaçados de extinção. Os números são a prova maior de que, por aqui, a natureza resiste à ação devastadora do bicho homem. Sim, nossos bosques têm mais vida.

E nem tudo o que há nele é conhecido. Pesquisadores do campus da Unesp em Rio Preto estudam dois peixes ainda não descritos pela literatura científica, um tipo de cascudinho e outro de canivetinho, encontrados no rio Preto, além de uma nova espécie de vespa. Uma biodiversidade surpreendente para a região mais desmatada do Estado, com apenas 9% de mata nativa preservada.

“Apesar do desmatamento e do avanço da monocultura canavieira, ainda temos uma boa diversidade de bichos,” diz o zoólogo do Ibilce Dino Vizoto. Apenas na Represa Municipal, em Rio Preto, ele catalogou 111 espécies de animais. No campus da Unesp, outras 34.

O programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp), foi um marco no estudo da fauna e flora regionais. Durante cinco anos, entre 2005 e 2010, pesquisadores esquadrinharam 18 áreas de mata no Noroeste paulista. O resultado, publicado em livro ano passado, é alentador.

Na diversidade da flora e fauna regional, há de tudo um pouco. Da exuberante jaguatirica ao feioso mãe-da-lua, do ligeiro lobo-guará à temida sucuri - Vizoto se lembra de ter capturado uma de quase sete metros no rio Tietê. Tem até bicho típico da região amazônica, como formigas do gênero Paraponera clavata, que andam em bando e caçam outros insetos.

Quanto às plantas, podemos nos orgulhar de espécies exclusivas, só encontradas por aqui: o embiruçu, que embeleza a cachoeira do Talhadão com suas flores brancas, e a Phyllostylon rhamnoide, encontrada somente no município de Magda e que nem nome popular tem. Também temos espécies ameaçadas, como os imponentes cedros em frente ao Débora Cristina, condomínio na zona sul de Rio Preto. “São belezas que ficam escondidas na paisagem urbana,” afirma Andréia Alves Rezende, bióloga especialista em botânica da Unesp.

Mas são raros os locais em que o habitat dessas espécies está integralmente preservado. Além da devastação, o clima quente e seco da região também é um inimigo natural da biodiversidade. Para os anfíbios, que preferem clima mais chuvoso, a região é ainda mais inóspita. “Temos 37 espécies de anfíbio em toda a região, sendo que só Botucatu tem 38”, compara a bióloga Denise de Cerqueira Rossa-Feres, especialista nesses animais.

Mas ainda assim, a natureza cuida de se adaptar. Um exemplo é o sapo-bolinha,que na verdade é uma rã. Durante sete meses no ano, ele se enterra 70 centímetros no solo, onde forma uma câmara com uma membrana no seu entorno, para não perder líquido. Só nas primeiras chuvas do ano é que ele vem à superfície, justamente no período de revoada dos cupins, seu alimento predileto. Depois de comer muito cupim, eles se reproduzem e voltam a se enterrar, à espera de mais chuva e alimento abundante.

Cana-de-açúcar faz andorinha abandonar Rio Preto

As andorinhas não voltaram. Diferentemente do primeiro verso da conhecida canção do Trio Parada Dura, as aves abandonaram de vez o Noroeste paulista. Ficou no passado a imagem das revoadas de milhares de andorinhas-azuis na praça Dom José Marcondes, que enchia os olhos do rio-pretense e enriquecia ainda mais a biodiversidade regional.

A grande culpada, na opinião do zoólogo Dino Vizoto, é a cana-de-açúcar. O avanço dos canaviais acabou com a policultura na região, que atraía os insetos, fonte de alimentos das aves - um único exemplar chegava a comer 700 insetos em um só dia.

Vizoto fala com conhecimento de causa. Ele começou a estudar essas aves em 1971. Chamou a atenção do pesquisador a longa migração do bicho - para fugir do inverno no hemisfério norte, a andorinha-azul viaja 10 mil quilômetros até o Brasil. Aqui, durante décadas escolheu o interior paulista como casa provisória. Chegava na primeira quinzena de novembro, e ficava até fevereiro. Quem não gostava muito eram os comerciantes, já que os dejetos da ave emporcalhavam carros e calçadas.

“Tinha gente que soltava rojão para que elas fossem embora”, lembra Vizoto. Mas no início dos anos 2000, as andorinhas trocaram a região por outras paragens. Por algum tempo, algumas poucas aves ainda vieram para Mirassol, mas depois sumiram de vez.

Ameaças à biodiversidade

O desmatamento acelerado e a poluição do solo e dos rios são uma ameaça constante à biodiversidade regional. O Noroeste paulista conta com apenas duas grandes áreas públicas de mata original. Uma fica dentro do antigo Instituto Penal Agrícola (IPA), em Rio Preto, com 168 hectares. Dentro, há uma pequena cachoeira com quatro metros de queda e um espelho d’água com 10 hectares. O Instituto Florestal planeja transformar a área em um campo de pesquisas de mata ciliar, o maior do Estado. A outra é a estação de Paulo de Faria, criada em 1981, com 435,7 hectares.

O restante de mata nativa se limita a alguns pontos em áreas privadas, cercadas de pastos ou canaviais. “A cana é ainda pior do que a pastagem, porque nessa ainda existem árvores esparsas. Quando entra a cana-de-açúcar, a queima da palha destrói todas as árvores e arbustos,” diz a bióloga Andréia Alves Rezende.

Outra ameaça é o vazamento de esgoto na Represa Municipal, em Rio Preto, e a falta de tratamento dos dejetos lançados diretamente no rio São Domingos, em Catanduva, afluente do rio Turvo. Segundo a bióloga Roselene Ferreira, o esgoto aumenta muito a quantidade de matéria orgânica na água, o que reduz o oxigênio para os peixes.

Além da poluição, a destruição da mata ciliar na região agrava o assoreamento das margens dos rios e espanta os peixes. “É como se fosse criado um sistema de desertificação, que reduz significativamente a biodiversidade ao longo do tempo,” diz Roselene.