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Cruzeiro do Sul online

Nosso Cheque Visado

Publicado em 13 junho 2003

Por Joelmir Beting
Um quilo de petróleo vale, agora, nesta média diária de junho, na Bolsa de Londres, exatos US$ 0,17. Um quilo de ouro, na bolsa ao lado, em Londres, está cotado a US$ 10.122. Um quilo de cocaína genuína, segundo consta em Nova York, não sai ou não entra em qualquer mercado por menos de US$ 140 mil. Pois um quilo de hormônio do crescimento humano, sintetizado pela moderna engenharia genética, já está acima de US$ 20 milhões. Essa comparação esdrúxula (eta, palavrinha esdrúxula) tem tudo a ver com a crescente relevância científica, econômica e estratégica dos arroubos da chamada bioeconomia, na garupa chipada da infoeconomia. Promessas de exploração monitorada e sustentável do patrimônio coletivo da biodiversidade universa. Ocorre que o Brasil, gigante ainda deitado, é o titular soberano do maior repositório de biodiversidade do planeta, tal como a gente aprende na escola primária e declina no Hino Nacional. A novidade está nos primeiros ensaios de valoração econômica da biodiversidade verde-amarela. Bem, há que se dar um desconto à chutometria que embasa simulações do gênero. A primeira delas é a suposição de que temos no território nacional, com sobras para a plataforma continental, uma fauna e flora de aproveitamento econômico a futuro da ordem de US$ 2,4 trilhões. Uau! Esse número transitou em relatórios e manifestos encaixados na vasta agenda da Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10, ano passado, na África do Sul. Longe ou perto da verdade, a ser considerada por volta de 2040, se tanto, o certo é que a biodiversidade brasileira, para além da Amazônia, equivale a um cheque visado, para saque futuro, emitido pela natureza em nome do Brasil. Ou como costumo dizer lá em casa: "Ah! Como eu gostaria de ser neto de mim mesmo!' Do afluente mercado global do crédito de carbono, a partir do Brasil, aos recentes gols de placa da genômica brasileira, o importante é que, malgrado ainda deitados, já estamos acordados em nosso berço esplêndido. Esforço e talento são as moedas de ouro dos nossos pesquisadores. As moedas de chumbo ainda são o suporte institucional poroso e o capital de risco escasso. Caso, por exemplo, do domínio do genoma do zebu brasileiro, boi de capim. Projeto da Fapesp estatal, orçado em US$ 1 milhão e bancado pela parceria privada Central Bela Vista Genética Bovina, é uma corrida contra o relógio do genoma bovino americano, boi de ração. O projeto deles acaba de ser amarrado no Texas por um contracheque privado de US$ 50 milhões. Pêlo nelore Nosso primeiro genoma bovino privilegia o zebu nelore, raça de maior extensão em nosso rebanho de 167 milhões de cabeças. A ordem é identificar genes de maior potencial para desenvolver e democratizar a reputação do nelore em sanidade, rusticidade, produtividade e qualidade da carne. Rede Onsa Chamado Genoma Funcional do Boi, o projeto mexe com os 20 laboratórios da Rede Onsa, instituto virtual de genômica criado em 1997. A Fapesp espera concluir o seqüenciamento genético e a análise funcional até o final de 2003. Em parceria O modelo de genômica brasileiro apóia-se na parceria da atividade acadêmica com a iniciativa privada. Caso do Forest, projeto de genoma do eucalipto, em parceria com Ripasa, Suzano, Duratex e Votorantim (VCP). Ela também atua como incubadora de empresas de biotecnologia de origem acadêmica, tais como Alellyx, Scyla e Cana Vialis.