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Boletim Behaviorista

Nossa linguagem pode afetar o quanto comemos?

Publicado em 19 julho 2018

Quando pensamos em psicologia como ciência do comportamento, percebemos que ela tem muito a contribuir com uma diversidade de questões que permeiam o dia a dia das pessoas. Uma dessas questões é o comportamento alimentar e distúrbios associados, por exemplo o Transtorno de Compulsão Alimentar, com o qual indivíduos sofrem episódios recorrentes de perda de controle ao se alimentar, e ingerem quantidades excessivas de comida. A abordagem da psicologia que vem mostrando os mais fortes resultados no tratamento da compulsão alimentar é a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), ainda que uma grande parcela dos clientes tratados com essa abordagem continue a comer compulsivamente e continue apresentando dificuldades em modificar esse padrão comportamental após o tratamento.

A dificuldade em alterar comportamentos e a reincidência de comportamentos que são alvos de mudança em terapias é bastante comum, infelizmente. Mas por que isso ocorre? Em parte, porque, no que diz respeito à compulsão alimentar, as mudanças comportamentais provavelmente provocam um desconforto emocional a princípio. Esse desconforto pode ser entendido como pensamentos e sentimentos que, como estímulos encobertos, podem evocar os comportamentos alimentares indesejados. Ao tentar modificar o comportamento de ingerir alimentos compulsivamente, o cliente passa a não poder descontar sentimentos (como tristeza, culpa ou raiva) na alimentação, por exemplo. Dessa forma, ensinar os clientes a lidarem com emoções pode melhorar o empenho dos mesmos em se comprometerem com as modificações comportamentais propostas, aumentando a eficácia dos tratamentos existentes.

Este tipo de intervenção tem sido muito abordado em terapias de terceira onda (para saber mais veja Hayes, 2004) nas últimas décadas. Segundo a base científica que fundamenta algumas destas terapias, pensamentos/sentimentos consistem de respostas relacionais arbitrariamente aplicadas (RRAA), estabelecidas indiretamente e que podem evocar ou eliciar diversas funções diferentes. Assim, é importante que estes pensamentos/sentimentos também sofram algum tipo de intervenção para que o tratamento da compulsão seja mais eficaz. Uma das intervenções que tem maior sucesso em modificar este controle verbal é a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), cujo objetivo principal é promover a flexibilidade psicológica do cliente, que significa a habilidade de ter contato com o momento presente e os comportamentos encobertos acontecendo, e, a depender do contexto, persistir ou mudar em busca de objetivos ou valores pessoais. Na prática, ser flexível psicologicamente, é diminuir o controle verbal que estes pensamentos e sentimentos exercem pela alteração do controle contextual. Ou seja, quando as respostas relacionais (RRAA) ocorrem atuam como estímulos que eliciam ou evocam funções. Modificando o contexto em que elas ocorrem, estas funções se perdem – isto é, os pensamentos não irão mais produzir estimulação que controle o comportamento. Alguns processos são utilizados para alcançar essa flexibilidade psicológica, entre eles a aceitação, que é assumir uma postura de consciência não crítica e abraçar as experiências físicas e emocionais como elas ocorrem; e a ação comprometida, que envolve a definição de objetivos e o desenvolvimento de padrões de comportamento consistentes com os valores do indivíduo.

Pensando nisso, um grupo de pesquisadores da Universidade de Drexel, na Filadélfia – EUA, resolveu tentar integrar elementos comportamentais da TCC com princípios e estratégias de terapias de terceira onda, no intuito de aprimorar o tratamento do Transtorno de Compulsão Alimentar. O tratamento desenvolvido pelo grupo liderado por Adrienne Jurascio é denominado Terapia Comportamental Baseada em Aceitação (ABBT, do inglês Acceptance-Based Behavioral Therapy). O objetivo principal foi avaliar a eficácia desse tratamento em reduzir a frequência de episódios de compulsão alimentar e produzir melhora do transtorno alimentar, dos sintomas depressivos apresentados pelos clientes e da sua qualidade de vida. Os pesquisadores também visavam observar se a intervenção utilizando componentes de terapias de terceira onda para a compulsão alimentar realmente funcionaria pelo mecanismo de ação hipotetizado por eles, ou seja, se de fato haveria relação entre a flexibilidade psicológica e o comer compulsivo.

No estudo, foram realizadas dez sessões semanais em grupos de 5 a 7 participantes acompanhados por duas terapeutas. Nas sessões, diversas estratégias foram empregadas, entre elas estratégias de aceitação e mudança, defusão cognitiva, tolerância ao stress, ação direcionada a valores, consciência emocional e, além disso, os clientes aprendiam conceitos da ABBT. Exercícios comportamentais, como pesagens semanais e auto monitoramento diário de alimentos consumidos e emoções sentidas, também foram realizados ao longo do tratamento. No total, 19 mulheres entre 18 e 65 anos foram atendidas, todas elas com pelo menos 12 episódios de compulsão alimentar nos 3 meses anteriores ao tratamento, o que é consistente com critérios do Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais para o Transtorno de Compulsão Alimentar. Ao longo do tratamento, as participantes responderam alguns instrumentos de entrevistas e questionários que avaliavam, entre outras coisas, a existência de transtornos alimentares (EDE: Entrevista de Exame de Transtornos Alimentares), sintomas depressivos (BDI-II: Inventário de Depressão de Beck), a qualidade de vida (QOLI: Inventário de Qualidade de Vida) e a flexibilidade psicológica (AAQ-II: Questionário de Aceitação e Ação e FAAQ: Questionário de Aceitação e Ação de Desejo por Alimentos).

Os resultados obtidos pelos pesquisadores foram a melhora dos sintomas de compulsão alimentar, sintomas depressivos e qualidade de vida das clientes ao longo do tempo. Segundo os escores obtidos na EDE, mais de 50% das clientes não comia mais compulsivamente desde a 5ª sessão em grupo até o teste de follow-up, realizado 3 meses após o término do tratamento. Diminuições nos escores globais da EDE foram correlacionadas a melhoras na subescala de Aceitação do FAAQ e nos escores do AAQ-II. Ou seja, com essa comparação os pesquisadores puderam mostrar que melhorias na flexibilidade psicológica das participantes estavam relacionadas a melhorias dos sintomas de compulsão alimentar.

Esses resultados mostram uma preliminar eficácia da ABBT para o Transtorno de Compulsão Alimentar. Apesar de o estudo não comparar a ABBT com uma abordagem existente de tratamento, a magnitude das melhoras observadas são similares às da Terapia Cognitivo Comportamental. Podemos inferir que a promoção da flexibilidade psicológica potencialmente foi um elemento importante na intervenção realizada. De acordo com os proponentes do modelo da ACT, nós seres humanos, quando verbais, somos grandemente afetados por qualquer tipo de controle verbal (seguimento de instruções, pensamentos recorrentes, lembranças desagradáveis, etc.) e esses estímulos verbais concorrem fortemente pelo controle comportamental. A investigação neste artigo não foi direcionada para avaliar um protocolo único baseado em flexibilidade psicológica. No geral, o tratamento integrando técnicas da TCC e de terapias de terceira onda demonstrou resultados bastante promissores que deverão ser melhor investigados em estudos futuros.

Quer ler a pesquisa na íntegra?

Acesse o artigo:

Juarascio,A. S., Manasse, S. M., Espel, H. M., Schumacher, L. M., Kerrigan, S. & Forman, E. M. (2017). A pilot study of an acceptance-based behavioral treatment for binge eating disorder. Journal of Contextual Behavioral Science, 6, 1-7.

Fonte da figura: http://lightchef.com.br/blog/compulsao-alimentar-como-controlar

Outras referências:

Hayes, S. C. & Strosahl, K. D. (2004). A pratical guide to Acceptance and Commitment Therapy. Editora Springer.

Hayes, S. C., Strosahl, K. D. & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and Commitment Therapy: an experiential approach to behavior change. The Guilford Press.

Hayes, S. C. (2004). Acceptance and Commitment Therapy, Relational Frame Theory, and the third wave of behavior therapy. Behavior Therapy, 35, 639-665.

American Psychiatric Associaton (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5ª edição. DSM-5. Editora Artmed.

Heloísa Ribeiro Zapparoli, graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar

João Henrique de Almeida, doutor em Psicologia, professor voluntário no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Bolsista de pós-doutorado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo no LECH- Laboratório de Estudos do Comportamento Humano-UFSCar