Notícia

A Cidade On (Araraquara, SP)

Nossa agricultura e o impacto das mudanças climáticas

Publicado em 17 dezembro 2006

Os sinais de alerta que chegam do meio ambiente e atuam sobre o cotidiano da população são cada vez mais freqüentes e assustadores. Na semana passada, a Tribuna publicou reportagem sobre os perigos da longa exposição aos raios ultravioleta em uma cidade marcada por altas temperaturas e sol forte como Araraquara. Na sexta-feira, a ONU divulgou um estudo mostrando os efeitos das transformações do clima na agricultura e, no que diz respeito ao Brasil, chamava atenção para os problemas causados em certas regiões pelo prolongamento das chuvas, de um lado, e pelo impacto da seca, de outro. Isto faz prever um início de 2007 especialmente preocupante.
Os dez anos mais quentes da história estão concentrados no período pós-1994. O recorde de temperaturas altas no planeta ocorreu em 1998, o segundo ano mais quente foi 2005, enquanto 2006 vai fechar como o sexto mais quente de todos os tempos. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), uma brigada científica multinacional que produz documentos periódicos sobe a evolução do aquecimento global e outras questões climáticas, estimava cinco anos atrás que as temperaturas da Terra subiriam entre 1º, 2 º e 5º até o fim deste século, dependendo da região. Hoje, essa previsão já mudou para algo entre 2º e 6º a mais. O derretimento gradativo das geleiras e a expansão térmica das águas vai levar a uma elevação dos oceanos em 50 centímetros, nas previsões mais otimistas, mas pode chegar a até 1,4 metro.
Não é de hoje que as discussões sobre as transformações do clima entraram de vez na vida do cidadão comum. Além dos aspectos políticos (papel do Governo na conservação do meio ambiente, elaboração de políticas públicas para o setor, necessidade de às vezes contrariar os mais diversos interesses) e econômicos (reparação de prejuízos e custos de programas de prevenção), há o peso das questões de saúde. Em um país como o Brasil, existem áreas de umidade e oscilações térmicas extremas, que facilitam a disseminação de doenças como dengue e malária, e outras de secas prolongadas, que facilitam o surgimento de doenças respiratórias. Em Araraquara, convivemos com os dois casos ao longo do ano.
A revista Pesquisa Fapesp deste mês publica justamente um estudo sobre o impacto das mudanças climáticas na saúde e na produção de alimentos no Brasil, denominado 'Do debate à ação'. A reportagem destaca os levantamentos regionais realizados pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) e pela Embrapa, bem mais precisos que as projeções de modelos globais realizadas por institutos internacionais. De acordo com esses documentos, o País perderá nos próximos anos cerca de 25% da área potencial de plantio de café em Minas Gerais, São Paulo e Goiás, empurrando essa cultura para o Sul, mais frio. Em compensação, os Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, verão as culturas de milho e trigo migrarem para o Norte, em função do prolongamento das oscilações ddo clima.
Com primaveras mais quentes e verões mais chuvosos, outros cenários agrícolas estão ameaçados, com expectativa de perdas de até 30% da cultura de arroz e 21% das plantações de feijão em São Paulo. O prazo para mudanças no panorama agrícola é curtíssimo, segundo os pesquisadores: 15 anos, se tanto. Com esse levantamento, a intenção do Cptec e da Embrapa, bem como de outras entidades científicas, é fornecer uma base sólida para a adoção de políticas públicas em todas as esferas. Como diz o pesquisador Carlos Nobre, do Inpe, sobre a dependência que o Brasil tem dos recursos naturais e, portanto, da água e do clima: "Somos o lado perdedor das mudanças climáticas".