Notícia

O Popular (Goiânia, GO)

NOMES QUE VALEM OURO

Publicado em 26 abril 2000

Por Tacilda Aquino
A febre por negócios digitais é tão grande que, muitas vezes, um simples nome pode valer milhares de dólares. Em tempos de nova economia, quando as palavras-chave são e-commerce e e-business, as empresas precisam ter uma boa localização virtual - um endereço que marque seu nome na internet. O problema é que os endereços pontocom são recursos finitos, o que os coloca numa espécie de corrida maluca. Empresas estão competindo com indivíduos que registram bons nomes, na esperança de depois revendê-los. Baseado em uma atividade cada vez mais valorizada, o comércio de domínios virtuais movimenta milhares de dólares nos Estados Unidos, onde existem centenas de sites especializados em leiloar domínios. Em um recente negócio realizado naquele país, o domínio business.com foi vendido para uma empresa californiana, a Ecompanies, por US$ 7,5 milhões. Em entrevista ao The Wall Street Journal, Jack Winebaum, diretor da empresa, disse estar satisfeito com a transação e pretende lançar com o domínio um megaportal de negócios. "Um bom endereço na internet tem forte demanda hoje nos Estados Unidos. Para fazer uma analogia com o mundo real, uma boa localização na Web equivale á um endereço na Madison Avenue em Nova York, ou na Rodeo Drive, em Beverly Hills, Los Angeles", disse. O domínio drugs.com (equivalente a remédios.com.br) foi comprado por Tony Hsieh, co-fundador da empresa LinkExchange. Hsieh pretende usar o nome para um portal farmacêutico. "US$ 823 mil é realmente muito dinheiro, mas nós acreditamos que, com uma boa equipe e um bom plano de negócios, o site drugs.com possa valer muito mais do que isso." ONDE COMPRAR O site de venda de domínios mais conhecido nos Estados Unidos é o www.igol drush.com. A página tem cerca de 500 nomes à venda, com preços que podem atingir a casa dos US$ 2 milhões. Entre os domínios disponíveis, estão o mobile-phone (US$ 3 mil), o pizza.net (US$ 50 mil) e o Netbusiness.com (US$ 1,2 milhão). A página de compra e venda de domínios mais curiosa, entretanto, é a www.domainforsale.com. Isso porque o proprietário do site está disposto a vendê-lo, desde que alguém concorde em pagar US$ 2 milhões pelo endereço virtual. SITE LEILOA ENDEREÇOS NACIONAIS No Brasil, o comércio de domínios ainda está engatinhando, mas nasceu com a pretensão de ser um negócio milionário. Segundo Adriano César Machado, diretor do pioneiro site nacional de leilões de domínios na internet, o Marca Virtual (marcavirtual.com.br), já há endereços virtuais, como o prokura.com.br, valendo R$ 18 milhões. No site, criado por um grupo de professores e alunos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a lista de oferta registra domínios como webanking.com.br, à venda por R$ 2 milhões, e ouro.com.br, por R$ 15 mil. No entanto, ainda há poucos candidatos dispostos a pagar esses altos valores pelos endereços. Um deles foi o empresário paulista Luís Fernando Mendes Marques Novo. No final de março, com um ágio de 100%, Marques Novo, sócio-diretor da Delta Tech, adquiriu o domínio inter soluction.com.br, no que ficou registrado como o primeiro negócio realizado no Brasil envolvendo endereços eletrônicos através de leilão virtual. O empresário, que não quis revelar o valor do negócio, disse, em entrevista a O POPULAR por e-mail, que "infelizmente os bons domínios no Brasil já estão acabando, e o leilão é uma boa opção para adquiri-lo". O intersoluction.com.br será destinado, segundo Luiz Fernando, a agências de propaganda e mesmo a outros sites. Ontem, o marcavirtual.com.br registrava 482 leilões em aberto e 753 usuários. Os preços são os mais variados possíveis. Adriano Machado acredita que parcela considerável dos proprietários de endereços eletrônicos ainda sonha em ficar milionário da noite para o dia com a venda de um domínio. Para evitar a visualização de preços exorbitantes pelos potenciais compradores, o sue criou o Valor Reservado, espaço no qual o proprietário do endereço eletrônico fornece o preço mínimo para negociar o domínio. No site, há ainda uma seção de sugestão de valores de domínio, feita pelo Marca Virtual com base no mercado. Caso o interessado queira saber o valor inicial, terá de acessar o site, onde obterá informações de quanto já foi oferecido peio domínio. Ao ser concluído o negócio, o Marca Virtual avisa o comprador e o vendedor via e-mail, para que concretizem a venda. www.olimpiada2000.com.br é um dos sites nacionais que está à venda. Basta acessar o endereço para saber mais detalhes - inclusive a ampla possibilidade de negócios que tal nome pode proporcionar em ano de Olimpíadas. Na home page da Imobiliária da Web (www.imboliariawe.com.br), estão disponíveis domínios como caldeiraodohulck.com.br - referência ao programa que Luciano Hulk estreou recentemente na Rede Globo. Outro nome ligado à TV é o musikaos.com.br, programa apresentado na TV Cultura pelo ex-VJ Gastão. Os preços dos domínios, no entanto, não estão informados no endereço. HOME PAGES TAMBÉM ESTÃO À VENDA Sobreviver na internet brasileira não é tarefa fácil. As estatísticas da Fapesp revelam que há 214.940 domínios cadastrados no Brasil, 92% dos quais com a terminação pontocom, o que indica que são sites de empresas ou com finalidades comerciais. Esses números ilustram o quanto a rede é competitiva e nela, segundo os especialistas, só deverão sobreviver quem tiver forte apoio financeiro. Foi pensando nisso que o economista paulista Ayrton Fontes criou o Vendosite (www.vendosite.com.br), destinado às pessoas que quiserem vender os seus pontos virtuais ou ainda para aqueles que buscam parcerias ou novos investidores. O Vendosite funciona como um catálogo de endereços e é dividido por segmentos como comércio eletrônico, entretenimento, emprego, informática e leilões. Atualmente, há 2,3 mil sites cadastrados no Vendosite, mas, segundo Ayrton Fontes, somente mil deles estão no ar. Isso porque o economista faz uma análise dos endereços colocados à venda para barrar conteúdos pornográficos e racistas. O Vendosite oferece anúncios gratuitos aos donos de sites, mas cobra pela assinatura de uma newsletter quinzenal com análise do potencial de serviço em vários segmentos. Entre os anunciantes do Vendosite está o Catho (www.catho.com.br), um dos maiores serviços de emprego on-line. PONTOCOM VERSIS PONTOCOM.BR Nos Estados Unidos, as restrições ao registro de domínios pontocom são menores do que as exigências para obter os direitos sobre um endereço eletrônico pontocom.br. O publicitário baiano Mareei Leal Oliveira, por exemplo, registrou 15 domínios pontocom no país, entre eles marcas notórias como jornalnacional.com e globoesporte.com, que estão sendo contestados pela Rede Globo. Lá, a única exigência para o procedimento é o fornecimento do número do cartão de crédito. Até recentemente, quem desejava registrar um domínio nos EUA tinha de pagar 119 dólares à empresa Network Solutions por dois anos. Para democratizar o processo, o governo americano autorizou a empresa International Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), uma organização sem finalidades lucrativas, a certificar novos registradores de domínios. No mundo, já existem 76 empresas com tais licenças para operar. O representante da Comunidade Educacional e Cultural do Comitê Gestor de Internet no Brasil, Demi Getschko, explica que a entidade responsável pelo registro de domínios no Brasil, a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), tenta coibir o cadastramento indiscriminado de domínios, ao contrário do que ocorre nos EUA. A Fapesp restringe o número de registro a dez por cada CGC e, além disso, pede contatos administrativos, jurídicos e financeiros. Segundo ele, se o novo site não estiver violando uma marca registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), não há razão para impedir seu funcionamento. De acordo com os últimos números divulgados pela Fapesp, já há mais de 200 mil domínios registrados (.br) no País contra 24 milhões nos Estados Unidos (.com). Contudo, o volume mensal de pedidos de registros no Brasil vem crescendo e já atingiu a casa dos 14 mil. Os cyberquatters - denominação para uma espécie de invasor do espaço virtual que está sendo utilizada nos EUA para identificar as pessoas que registram domínios apenas para comercializá-los posteriormente - não são, porém, os únicos responsáveis pela explosão da demanda. Diante da necessidade de obter uma identificação na web que seja fácil de ser assimilada e guardada pelos internautas, muitas empresas não poupam esforços financeiros para garantir um domínio com essas características. GRANDES PERDAS Casos de empresas que perderam domínios de grande valor são cada vez mais comuns e atingem companhias de todos os setores da economia. Entre os exemplos de maior repercussão no mercado, está o da Intelig, operadora de telefonia que não pôde registrar o endereço www.intelig.com.br - que pertence a uma empresa de informática - e teve de se contentar com a extensão .net.br. O mesmo ocorreu com a gigante americana America Online (AOL), que perdeu o direito ao aol.com.br no Brasil para uma empresa de Curitiba e se viu obrigada a adotar o domínio americaonline.com.br, um nome mais extenso e que dificulta a memorização por parte de eventuais clientes. DOMÍNIOS ENTRAM EM CONFLITO COM MARCAS Nomes de domínio foram originalmente concebidos para atender a funções técnicas de conectividade de computadores na internet. No entanto, em função da facilidade em memorizá-los, eles passaram a se constituir como identificadores de negócios, empresas, instituições ou empreendimentos. Com o crescimento da internet, eles começaram a entrar em conflito com marcas registradas. A ocorrência desses embates surgiu a partir da falta de conexão entre os sistemas de registro de marcas e os de nomes de domínio. O sistema de registro de marcas é administrado por autoridades públicas de forma regional, de acordo com a legislação de determinado território. O sistema de registro de nomes de domínio é, em geral, gerenciado por organizações não-governamentais sem limitações funcionais. Nomes de domínio são concedidos com base na ordem do pedido de registro e oferecem uma presença única e global na internet. O potencial inerente para ocorrência de conflitos entre esses dois sistemas diferentes de registro tem sido explorado por indivíduos (ciberposseiros), que registram nomes de outras pessoas ou instituições em seu próprio nome. Conflitos entre marcas e nomes de domínio apresentam aspectos que extrapolam a capacidade dos sistemas judiciários. Esses sistemas são regionais e não podem oferecer soluções para conflitos de grandeza mundial. Além do mais, processos litigiosos podem ser lentos e caros. Esses fatores produzem uma situação de fato em que os detentores de uma marca registrada acabam buscando acordos para compra do uso dos direitos de seu nome de domínio diretamente com o ciberposseiro, em vez de procurar os trâmites legais. No final de março, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Wipo / Ompi) deu entrada a um processo internacional para o desenvolvimento de recomendações sobre questões associadas à propriedade intelectual e a conflitos com nomes de domínio. As recomendações do Processo de Nomes de Domínio Internet da Wipo / Ompi foram encaminhadas à nova organização Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), formada para gerenciar os aspectos políticos e técnicos do Sistema de Nomes de Domínio Internet, sucedendo à Internet Assigned Names and Addresses (IAN Organização).