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Carta Fundamental

No país das amazonas

Publicado em 01 outubro 2011

POR ADRIANE COSTA DA SILVA, mestre pela FE-USP e professora de magistério indígena

O mito das amazonas foi reinventado ao longo dos séculos e suas diferentes versões evocam outras imagens sobre a América e as regiões exóticas do Oriente e da África. Entre as diferentes narrativas, um elemento comum prevalece: a aventura de guerreiros e viajantes em terras exóticas. Trata-se de lugares imaginários, cuja localização nem sempre corresponde às coordenadas geográficas factuais.

A própria etmologia do nome amazonas evidencia características comuns às diferentes versões do mito. Na língua grega: a + mazos significa mulheres sem seio; na língua persa ou iraniana, hamazan ou hamazakaran pode ser traduzido como fazer a guerra, guerreiras; nas línguas indígenas sul-americanas, as amazonas são chamadas por outros nomes (iamaricumã, icamiabas ou coniupuiaras) e tais nomes são comumente traduzidos como mulheres sem marido.

Nas cosmografias modernas, o país em questão está localizado nas proximidades do grande Rio Amazonas, que nasce no sopé dos Andes e deságua na costa atlântica, e é personificado por figuras de mulheres guerreiras que se confundem muitas vezes com as personificações da América. No relato de Gaspar de Carvajal (1504-1584), frade dominicano que descreveu a expedição de Francisco de Orellana e Gonzalo Pizarro em busca do país da canela, a paisagem da região contrasta com as imagens veiculadas na literatura de viagem, do século XIX até hoje: "Perguntou o Capitão como se chamava o senhor dessa terra, e o índio respondeu que se chamava Couynco, e que era grande senhor, estendendo-se o seu senhorio até onde estávamos. Perguntou-lhe o Capitão que mulheres eram aquelas que tinham vindo ajudá-los e fazer-nos guerra. Disse o índio que eram umas mulheres que residiam no interior, a umas sete jornadas da costa (...) Disse o índio que as aldeias eram de pedra e com portas, e que de uma aldeia a outra iam caminhos cercados de um e outro lado e de distância em distância com guardas, para que não possa entrar ninguém sem pagar direitos".

O povo do interlocutor indígena, Couynco, cuja descrição do reino das amazonas é reproduzida no relato de Carvajal, tinha com as amazonas uma relação de encomendeiros, isto é, eram servos e vassalos de um grupo de guerreiras lideradas por Conhorí. Tal relação implica a circulação de bens, pessoas e saberes. Lendo esses trechos do seu relato podemos identificar várias características da organização social, dos padrões de assentamento e cultura material, visões de mundo que parecem, aos olhos e ouvidos do escrivão, serem características comuns, observadas tanto nas sociedades andinas quanto dentre os povos da floresta.

"Disse que a capital e principal cidade, onde reside a senhora, há cinco casas muito grandes, que são oratórios e casas dedicadas ao sol, as quais são por elas chamadas caranaí, e que estas casas são assoalhadas no solo e até meia altura e que os tetos são forrados de pinturas de diversas cores, que nestas casas têm elas ídolos de ouro e prata em figura de mulheres, e muitos objetos de ouro e prata para o serviço do sol. Andam vestidas de finíssima roupa de lã, porque há nessa terra muitas ovelhas das do Peru. Seu trajar é formado por umas mantas apertadas dos peitos para baixo, o busto descoberto, e um como manto, atado adiante por uns cordões. Trazem os cabelos soltos até ao chão e postas na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos."

"Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um grande pranchão de dez pés em quadro, pintado e esculpido em relevo, figurando uma cidade murada, com a sua cerca e uma porta. Nessa porta havia duas altíssimas torres com as suas janelas, as torres com portas que se defrontavam, cada porta com duas colunas. Toda esta obra era sustentada sobre dois ferocíssimos leões que olhavam para trás, como acautelados um do outro, e a sustinham nos braços e nas garras. Havia no meio desta praça um buraco por onde deitavam, como oferenda ao sol, a chicha, que é o vinho que eles bebem, sendo o sol que eles adoram e têm como seu Deus."

"Era esse edifício coisa digna de ser vista, admirando-se o Capitão (Francisco de Orellana) e nós todos de tão admirável coisa. Perguntou o Capitão a um índio o que era aquilo e o que significava naquela praça, e o índio respondeu que eles são súditos e tributários das amazonas, e que não as forneciam senão de penas de papagaios e guacamaios para forrarem os tetos dos seus oratórios. Que as povoações que eles tinham eram daquela maneira, conservando-o ali como lembrança e o adoravam."

Nos trechos do relato, os povos da floresta não são grupos reduzidos e isolados. A crônica do dominicano descreve cidades monumentais, cujos padrões de assentamento, densidade populacional e organização social complexos condizem com descobertas arqueológicas recentes, reveladas por imagens de satélite e trabalho de campo, em sítios escavados em Mato Grosso, Pará, Rondônia, Acre e Amazonas. Paradoxalmente, o desmatamento predatório na Amazônia possibilitou achar a civilização amazônica dos romances de mundos perdidos.

SAIBA MAIS

Livros

CARVAJAL, Frei Gaspar de. Relatório do Novo Descobrimento do Famoso Rio Grande Descoberto pelo Capitão Francisco de Orellana (1542). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941.

HAAG, CO sonho do Eldorado Amazônico: A arqueologia brasileira e a eterna busca por civilizações ocultas na Floresta Amazônica. Pesquisa Fapesp, 160, junho 2009, págs. 78-83.

JÚNIOR, G. Amazônia Perdida e Achada: Cientistas descobrem que primeiros habitantes formavam civilizações organizadas e complexas. Pesquisa Fapesp, 152, outubro 2008, págs. 90-93.

Filme

Ngune Élü - O dia em que a lua menstruou (

Cineastas Indígenas: kuikuro/Coletivo de Cinema Kuikuro e Vídeo nas Aldeias) Assista em: www.vldeo nasaldeias.org br