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CEERT - Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades

‘No nosso território, tem um grande mistério não resolvido’

Publicado em 05 agosto 2019

Por Nexo Jornal

A geóloga Adriana Alves procura pistas sobre o passado da vida na Terra em rochas vulcânicas de milhões de anos, enquanto abre portas nunca antes abertas no Brasil por mulheres negras como ela

Quando nosso continente separou-se da África, há 135 milhões de anos, o manto da Terra se rompeu: veio uma inundação de lava e a atmosfera foi tomada de gases asfixiantes. Era, sem tirar nem pôr, a receita para uma grande extinção da vida por aqui. No entanto, contra todas as probabilidades, a extinção não ocorreu. Sabe-se lá por quê.

Quem resolveu solucionar o mistério foi a geóloga Adriana Alves, 38 anos, professora da Universidade de São Paulo, ela é também uma sobrevivente das probabilidades. “Negra retinta”, como diz, ela descende de escravizados vindos também da África. Crescida na favela, filha de uma empregada doméstica e de um motorista de ônibus ausente, Adriana foi a primeira da família a entrar em universidade pública e uma das únicas negras em todo lugar por onde passou desde o ensino médio.

Mérito não lhe falta, mas “eu odeio a meritocracia”, diz. Adriana não quer ser a exceção usada para negar a regra que lhe é evidente: o racismo, que impede mais negros de chegarem aonde ela chegou. Fala disso com a leveza de quem há tempos ultrapassou as expectativas – “o objetivo, que era sair daquela vida, já foi cumprido”.

Cientistas do Brasil

Quem: Adriana Alves, 38 anos

O quê: geóloga, pesquisa rochas vulcânicas

Onde: no Instituto de Geociências da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo

Como: examinando rochas formadas em erupções vulcânicas, em busca de peças que montem o quebra-cabeças espatifado centenas de milhões de anos atrás

Esta conversa sobre granitos, vulcões, extinções, fordismo científico, slow science e “Game of Thrones” é a terceira da série do Nexo “Cientistas do Brasil que você precisa conhecer, ontem e hoje”. O projeto tem duas frentes: uma delas traz 12 vídeos com a minibiografia de pesquisadores que marcaram a história. A outra traz 12 entrevistas em texto na seção “Profissões” – conversas conduzidas pelo jornalista e colunista do Nexo, Denis Burgierman, com cientistas brasileiros em atuação hoje no mundo. São pesquisadores de áreas como ciências da vida, geociências, física, química, ciência da computação e matemática, que vêm tendo o reconhecimento de seus pares e trabalham em linhas de atuação promissoras. O projeto tem o apoio do Instituto Serrapilheira.

As entrevistas começam sempre com a mesma pergunta:

Nexo Jornal: O que é que você está querendo descobrir?

Adriana Alves: Na livre-docência, trabalhei com granitos. Você já andou na Linha Azul do metrô [de São Paulo]? Aquele granito que usaram para fazer o piso da estação é uma rocha clara, cheia de umas grandes estruturas pretas. Essas estruturas são chamadas de enclaves. Granitos têm origem vulcânica. A literatura inteira falava que esses enclaves surgiam quando o magma, a lava, sobe contra a parede do vulcão, resfria rápido, e aí os pedaços dessa margem resfriada são incorporados de novo ao fluxo de lava quente. Só que eu via no campo várias coisas que não casavam com essa ideia. Então fui fundo na pesquisa. Acabei descobrindo que as manchas são bolhas de magma, como naquelas lâmpadas coloridas [curiosamente chamadas lava lamps]. Foi o primeiro grande avanço científico que atingi.

E aí, ano passado, você mergulhou num mistério maior?

Sim, esse projeto surgiu de um edital do Instituto Serrapilheira, que propunha algo desafiador: pensar as grandes questões em aberto da sua área. Na geologia do nosso território, tem um grande mistério não resolvido. Temos aqui uma gigantesca província magmática [território dominado por rochas vulcânicas, o que indica que ele foi alagado por lava], uma das maiores do mundo, chamada Paraná-Etendeka. Ela se estende por um pedaço grande da América do Sul [do Uruguai até Goiás] e continua na África [na Namíbia e em Angola]. Essa província formou-se há 135, 134 milhões de anos, quando a América do Sul se separou da África. Acontece que, das cinco maiores províncias magmáticas do mundo, quatro estão vinculadas a quatro das maiores extinções da história, que exterminaram boa parte da vida na Terra, e a nossa, não: não houve uma grande extinção quando esse magma foi liberado. E ninguém sabe por quê. Elucubra-se várias hipóteses, mas ninguém de fato olhou para a província e encontrou provas. Meu projeto se propôs a responder isso.

O que causa essas grandes extinções?

Hoje se pensa que são os gases exalados pelas províncias. Primeiro o enxofre, que, quando vai para a atmosfera, forma partículas que refletem a luz solar, causando mini-invernos. Aí esse enxofre se combina com o hidrogênio na atmosfera, precipitando chuva ácida. Isso incrementa a erosão do solo e mata as plantas. Depois vem o efeito de longo prazo, que é o CO2, que causa aquecimento global por milênios. Além disso, cloro e flúor causam um buraco na camada de ozônio, intensificando o aquecimento. Como nossa província, que é uma das maiores, não matou, dizia-se que ela não devia ter tido esses gases. No primeiro ano do projeto, já provamos que pelo menos para o enxofre isso não é verdade. As rochas que estudamos também têm muito cloro e flúor. O ponto é: todo mundo na literatura científica está olhando para as províncias que mataram. Mas a resposta para o mistério das extinções em massa pode estar justamente num evento em que não houve extinção em massa – as diferenças que encontrarmos podem ser a explicação.

E você tem um palpite? Tem uma resposta aí para esse mistério?

Foi um ano de projeto apenas, e na geologia as coisas andam tão devagar quanto o tempo geológico [risos]. Mas acho que já está claro que a gente precisa descobrir algum gatilho adicional – só as províncias não explicam as extinções. Algumas pessoas já aventam que a configuração dos continentes da época da extrusão das lavas tem influência, outros acreditam que o tipo de rochas que essas lavas invadem é o fator essencial.

Para você fazer essa pesquisa, você estudou amostras de rochas que já tinham sido coletadas?

Exato. Existe um conhecimento vasto sobre a província, graças a um grande projeto temático da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo]. Então tínhamos as amostras. Só que as rochas não têm mais o conteúdo de gases original – elas desgaseificaram, como Coca-cola, quando você deixa aberta. Então, precisei buscar rochas onde os gases ficaram presos em minerais. Quando crescem, esses minerais englobam pequenas gotas de magma, que não desgaseificam. São bolhas minúsculas, coisa de micra, 10-9 metros. Começamos separando os minerais, fatiando rochas, aí levamos para o microscópio para examinar estas lâminas [e mostra as lâminas, com finíssimas fatias de rocha], um processo muito trabalhoso. Foi quando pensamos numa maneira indireta de chegar ao resultado, que é usar um acelerador de partículas para medir a concentração dos gases. Foi muito legal, porque fomos para o Síncrotron, lá com o Douglas Galante [síncrotron é uma técnica de emissão de fótons a partir da aceleração de elétrons, que gera imagens de altíssima resolução. A entrevista com Galante, publicada nesta mesma série, ajuda a entender]. Lá descobrimos que as nossas lavas estavam oxidadas, e lava oxidada é capaz de carregar muito mais enxofre, dez vezes mais que em outras províncias. Ou seja, houve, sim, a liberação de quantidades enormes de enxofre e isso nunca tinha sido mostrado.

Você conseguiu trabalhar com amostras da África também?

Não. A gente focou na América Latina. Na divisão dos continentes, a África deu sorte: ficou com os trechos mais profundos da província. Eles têm raíz de vulcão, aqui a gente pena para explicar de onde veio a lava, porque está tudo encoberto. Se a gente seguir essa linha, em algum momento a pesquisa vai ter que ir para lá, ou me associar a um pesquisador de lá.

E você tem ideia de onde estão as suas raízes familiares na África?

Não. Sei que sou muito alta, o que não é típico aqui no Brasil. Todo mundo acha que sou americana quando viajo. Mas não faço ideia de onde meus ancestrais vieram. O Brasil foi o país onde mais se perdeu essa memória, eram muitos portos de onde os escravos vinham.

Como você virou geóloga?

As coisas na minha vida foram acontecendo. Eu sabia que eu queria uma vida melhor, e sabia que a educação era um modo de conseguir. Então, quando terminei o ensino básico, em Diadema, e fui para o médio, decidi fazer o que estava na crista da onda, que era computação. Eu nunca tinha ligado um computador, mas fui fazer processamento de dados no colégio técnico. Gosto de programar até hoje, mas não tenho talento, essa é a verdade. Um professor de física chamou minha atenção para isso. Ele me disse que eu era esperta, mas que ele achava que minha vocação era matemática, física, química. Ele me convidou para as aulas de um cursinho gratuito de aulas de reforço aos sábados que ele estava montando. Ele cobria física, química e matemática, que são os grandes gargalos. Eu ia bem em matemática e física, mas precisava de ajuda em química.

Isso foi em Diadema?

Não, no ensino médio eu estudava em São Bernardo, na ETI [Escola Técnica Industrial] Lauro Gomes. Eu tinha passado num vestibulinho.

Você vinha da periferia, né?

Da periferia da periferia [risos].

Da favela?

Até os 12 anos, a gente morava num bairro relativamente bom, mas aí a gente teve que mudar para uma favela, uma comunidade. E aí a gente sentiu o racismo dos professores. Essa foi a primeira grande lição de mundo real que a gente teve na vida, e daí até hoje foi uma atrás da outra. A segunda foi a razão pela qual fui fazer ETI. Existe em Diadema um colégio particular muito bom chamado Stagium. A diretora da minha escola [pública], que era ótima, conseguiu que esse colégio desse bolsas integrais para os dez melhores alunos da oitava série [hoje nono ano]. Eu e minha irmã Luciana fomos as duas melhores da escola durante cinco anos seguidos, apostando que íamos ganhar bolsa quando terminássemos. E não ganhamos, não fomos escolhidas. Quando perguntamos por que, ela disse: “Adriana, vocês seriam engolidas como bolsistas numa escola de elite”. A gente começou a peregrinar pelas boas escolas da região pedindo bolsa, e não conseguimos. Em algumas nem passávamos da porta. As pessoas me dizem “ah, que trajetória sofrida”. Mas, como disse o Bran Stark [de “Game of Thrones”] “tudo que eu passei me trouxe até aqui” [risos].

E como foi na ETI, no ensino médio?

Para mim essas lembranças estão envoltas numa névoa, porque eu trabalhava durante o dia e estudava à noite, então eu lembro de mim esgotada, dormindo 14 horas no sábado, no domingo. Eu era recepcionista, servia café, e detestava. No terceiro ano do colégio técnico, quando eu estava decidida de que não era aquilo que ia fazer, pedi demissão, peguei um estágio de meio período no INSS de Santo André para digitalizar fichas em papel, e prestei o vestibulinho para fazer curso técnico em química, que era minha deficiência. Então eu trabalhava no INSS de manhã, fazia técnico em química à tarde e o técnico em processamento de dados à noite. Não fiz o quarto ano do técnico: fui prestar vestibular. Como não tinha dinheiro para pagar cursinho, usei o técnico em química para suprir minhas deficiências, deu supercerto, química foi minha melhor nota no vestibular.

Saber química acabou sendo essencial para o que você faz hoje?

Exato. O que eu não gostava da química era decorar as regras, mas passei a gostar no técnico, usando muito o laboratório. A ETI tem laboratórios fantásticos.

Isso está sendo uma constante nesta série de entrevistas: boa parte das pessoas que se destacam em ciência tiveram acesso a bons laboratórios cedo...

No dia em que nossos governantes entenderem isso e fizerem bons laboratórios nas escolas, a gente vai ter um boom de cientistas. Aula de química no quadro não dá. Um professor me falou que a definição de aprendizado é mudar a sinapse do cérebro. Quadro negro na sala de aula não muda sinapse, precisa prática.

Quando terminou o ensino médio, você já sabia que queria ser geóloga?

Não [risos]. Eu sabia que queria fazer faculdade, e que USP e Fatec [Faculdade de Tecnologia de São Paulo, também pública e gratuita] eram as minhas alternativas. Mas queria ser engenheira. Fui comparar as notas de corte com os meus simulados, estava difícil, e comecei a aventar outras hipóteses. Foi quando lembrei de um jogo de computador no qual havia uma personagem geóloga, com a qual eu me identificava. Fui ver o mercado para geólogo, o piso salarial, a nota de corte. Tudo isso junto me levou para a geologia, com o plano de depois me transferir para a engenharia.

Seu plano não era resolver problemas científicos…

Não. Era sair da miséria.

E, a cada degrau desses que você foi subindo, você via menos negros ao seu lado?

Já na escola técnica eu era a única. O vestibulinho era o primeiro gargalo, ainda que fosse um curso público, gratuito, noturno.

Aí você resolveu ficar na geologia.

Eu me apaixonei por uma disciplina chamada cristalografia, cujo professor, Valdecir Janasi, acabou sendo meu orientador pela vida. Fui bem, a monitora sugeriu que eu falasse com o professor sobre uma iniciação científica. Acabei fazendo quatro iniciações.

E depois o mestrado?

Não fiz mestrado, fui para o doutorado direto. Eu já sabia que queria ser cientista a essa altura, e gostava demais de ensinar, porque a maneira que encontrei de sobreviver aqui nos primeiros anos foi dar aula particular das matérias que eu estava aprendendo. Foi um meio de me esforçar para entender e manter as notas altas, e também de fazer dinheiro, ajudando os meus colegas de turma. Eu cobrava R$ 5 a hora, nunca vou esquecer.

E com R$ 5 a hora você conseguia sobreviver?

Conseguia. Eu morei com os meus pais no começo, depois consegui habitação estudantil e bolsa para o restaurante. Lembro que fui com o mesmo par de All Star florido do primeiro ao quarto ano. E era ok. Hoje em dia, penso nisso, parece loucura. Mas não quero que minha história soe com um tom meritocrático: eu detesto a meritocracia. Acredito em mérito – se não acreditasse, não estaria aqui –, mas defendo políticas que reduzam desigualdades. Se você conta minha história com um viés meritocrático, eu viro essa exceção que confirma a regra. Vão usá-la para dizer para os outros negros “você não está lá porque não estudou”, e isso vira argumento para que não se precise dar oportunidade.

E agora? Você vai fazer o pós-doutorado?

Estou louca para fazer. Mas minhas filhas ainda são pequenas. A ideia é começar em 2021 ou 2022 e passar um ano fora. Comecei já os contatos com o ETH (sigla alemã de Instituto Federal de Tecnologia), de Zurique, e o IPGP (sigla francesa de Instituto de Física do Globo de Paris), para fazer experimento. Quero colocar magma dentro de uma cápsula, botar em alta pressão e simular os eventos que eu estudo.

Não é fácil conciliar a carreira científica com a maternidade, né?

Nossa… Não. Mas eu também estou em paz com isso. O problema está posto, então no futuro acho que vai mudar. A verdade é que eu não publico nada desde que minha primeira filha nasceu, há três anos – não dá. Só agora mandei dois artigos novos. Para meus orientandos não serem prejudicados, dependo da empatia dos pareceristas, que têm que compreender que o currículo será afetado pela maternidade.

Como sua formação está presente no trabalho que faz hoje?

Eu sou uma pessoa que gosta demais de fazer modelos numéricos para entender o que pode ter acontecido. Saber programar, que eu aprendi no ensino médio, fez toda a diferença para isso.

É uma habilidade rara na academia?

Raríssima. E não deveria, porque facilita demais a vida. Vou colocar minhas filhas na escola de código logo depois da alfabetização, com 7, 8 anos. São tantas as tarefas em que a gente perde tempo e que podem ser automatizadas com poucas linhas de código.

E o que mudou entre sua expectativa quando entrou na geologia e a realidade?

Minha expectativa e a realidade… [ela para para pensar]. Tudo que eu faço agora é para me divertir, porque o objetivo primeiro, que era sair daquela vida, foi cumprido. Aprendi a ver o sucesso pelos meus olhos, não pelos dos outros. Então estou pouco me lixando se o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] quer que eu publique três vezes por ano. Se eu não tenho uma história para contar, não vou publicar. Existe hoje o fordismo científico – o pesquisador define o método e só muda a amostra, não sai daquilo, responde sempre ao mesmo problema. Se é para fazer isso, vou ser caixa de supermercado, pi, pi, pi, pi [risos]. Esse movimento de “slow science”, de poder mergulhar num problema, conversar com um monte de gente sobre ele, descobrir caminhos inesperados, é fundamental. Se você tem a espada de ter que publicar muito, você vai para o trivial. Não tem como fazer ciência de impacto três vezes por ano.

Dá um conselho para quem quer seguir seu caminho?

Aprenda a aprender, por si só: não se limite ao que o professor ensina. A gente não está formando cientista na escola porque só se ensina a decorar. A escola não propõe um problema para eles resolverem. Se você se interessa por um tema, vá atrás até o final.

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