Notícia

Gazeta Mercantil

No liminar do código da vida

Publicado em 27 junho 2000

Por Laura Knapp e agências - de São Paulo
A Celera Genomics e o Human Genome Project anunciaram untem, ao mesmo tempo, o término do seqüenciamento do código genético humano, uma conquista que permitirá, no futuro, que se saiba a origem de cada doença e que se desenvolvam medicamentos específicos para cada pessoa. A publicação simultânea dos resultados marca uma trégua na disputa que a empresa privada e o consórcio público vinham travando, tanto no campo da pesquisa quanto no ético, e que por vezes pareceu mais importante que as conquistas científicas. "Estamos aprendendo a linguagem com a qual Deus criou a vida", celebrou o presidente americano. Bill Clinton, ao fazer o anúncio, via satélite junto com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, o diretor do consórcio público. Francis Collins, e o presidente da privada Celera. Craig Venter. O feito foi comparado à chegada do homem à Lua, mas é apenas a primeira etapa para se desvendar o código da vida humana. A segunda é a análise das proteínas. Nesse território, o Brasil desponta entre os desbravadores. A Amersham Pharmacia Biotech incluiu o Brasil na seleta lista de locais onde lançará um equipamento desenvolvido especialmente para esta etapa, chamada de proteoma. OS PRÓXIMOS PASSOS DO PROJETO GENOMA Laura Knapp e agências internacionais - de São Paulo Tanto a Celera Genomics quanto o consórcio público Human Genome Project anunciaram ontem a conclusão do seqüenciamento do genoma humano. Celebrando o anúncio, o presidente dos EUA, Bill Clinton, revelou que a cooperação entre os esforços públicos e privados deve continuar nas próximas etapas da elucidação do código. A Clinton se reuniram, por conexão via satélite, o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, e os coordenadores dos projetos público e privado - Francis Collins, diretor do U.S. National Human Genome Research Institute, e J. Craig Venter, diretor do Celera Genomics Group. Até agora, Venter e Collins travavam uma batalha para ver quem chegaria antes ao final desta corrida. Isto por que o mapeamento de todo o genoma humano é visto como um dos maiores marcos históricos científicos, o equivalente biológico à chegada do homem à Lua. E, lógico, envolve quantias astronômicas, não só a já destinada à pesquisa, mas a que virá do desenvolvimento de novos medicamentos. "Trata-se de um patrimônio da humanidade, não pode ter este nível de vaidade", diz Andrew Simpson, coordenador do Projeto Humano do Câncer, a investida brasileira no assunto. Além disso, lembra, é fruto do trabalho de milhares de pessoas. "Hoje, estamos aprendendo a linguagem com a qual Deus criou a vida", observou Clinton. "Isso aumenta ainda mais a nossa admiração diante da complexidade, da beleza e do prodígio do mais divino e sagrado presente de Deus". Segundo ele, ontem foi "um dia importante para várias gerações", comparável às descobertas celestiais feitas por Galileo e o mapeamento da América selvagem pelos exploradores Lewis e Clark. Ele enfatizou a necessidade de se levar em consideração as implicações éticas, legais e sociais da decodificação do genoma humano, pedindo a cooperação internacional neste aspecto. Para Blair, a descoberta abre caminho para avanços enormes no tratamento do câncer e de doenças hereditárias. "As questões morais e éticas levantadas por este avanço extraordinário são profundas", acrescentou. "E nós precisamos garantir que a propriedade comum do genoma humano seja usada livremente, para o bem comum de unia a raça humana", lembrou o primeiro ministro britânico. "Que não haja dúvidas sobre o que estamos testemunhando hoje", disse Blair. "Uma revolução na ciência médica, cujas implicações em muito ultrapassam até mesmo a descoberta dos antibióticos, o primeiro grande triunfo tecnológico do século XX". Para mapear o código genético humano, o Projeto Genoma Humano, financiado pelo governo, e o esforço privado da Celera, em paralelo, precisaram decifrar cerca de 3,1 bilhões de subunidades do DNA, as letras químicas que codificam as funções biológicas humanas. As estatísticas sobre o número de genes contidos no genoma humano variam de 30 mil a 120 mil. São os genes que determinam o que a pessoa herda dos pais e o bom funcionamento das células durante toda a vida do indivíduo, através da codificação das proteínas. Segundo Collins, é agora que começa o trabalho de verdade. "Estivemos remando contra a maré. tentando realizar a seqüência. Agora, por fim. desaguamos no oceano," onde as possibilidades de pesquisas e os efeitos na medicina são quase ilimitados. Agora os pesquisadores devem se concentrar na descoberta dos genes causadores das doenças e no desenvolvimento de terapias que cuidem dos problemas em seu âmago, a nível molecular. No comunicado à imprensa divulgado ontem, a Celera acrescentou que começará imediatamente a fase de análise e anotações da pesquisa. A empresa ressaltou que o projeto de mapeamento é um avanço científico e histórico, de impacto incalculável sobre a ciência e a medicina. Com o desenvolvimento contínuo e a expansão da base de dados, as vendas de assinaturas para usuários dos setores comercial e acadêmico serão uma prioridade na Celera. A empresa também se concentrará no aumento de dados seqüenciais para os avanços médicos e biológicos, tanto diretamente como através de parcerias com outras empresas. "Os assinantes da Celera agora poderão comparar os dados genéticos das moscas de fruta e dos ratos aos dos seres humanos, chegando a conclusões que podem levar a tratamentos mais avançados e até à cura de doenças", comemorou a Celera. As ações das empresas de biotecnologia registraram queda depois do anúncio. As ações destas companhias acumularam alta durante o ano todo, diante da expectativa de conclusão do mapeamento. A Celera teve baixa de US$ 17,50, ou 14%, caindo para US$ 109,50, depois de ser negociada por até US$ 108. A Protein Design Labs Inc. registrou queda de US$ 14,14, ou 8,2%, para US$ 158,48, chegando a ser negociada por US$ 149,75. A Affymetrix Inc. recuou US$ 4,19, ou 2,4%, para US$ 171,50, chegando a ser negociada por US$ 155. A Human Genome Sciences Inc. teve queda de 9,69, ou 6,7%, para US$ 135,69, chegando a ser negociada por até US$ 126. A Sequenom Inc. registrou baixa de US$ 7,13, ou 15%, para US$ 40,75, depois de ser negociada por US$ 38,56. A Visible Genetics Inc. recuou US$ 6.63, ou 15%, para US$ 38,88, tendo sido negociada por até US$ 35,50. A Celgene Corp. despencou US$ 7,13, ou 11%, para US$ 55,63, sendo negociada por até US$ 53,94. BRASIL PARTICIPA DA ANÁLISE DAS PROTEÍNAS No território do seqüenciamento do genoma, a bandeira verde e amarela está definitivamente fincada. Prova disso é que o Brasil foi incluído entre os quatro países - Alemanha, França. EUA e Japão - onde a inglesa Amersham Pharmacia Biotech decidiu lançar o Ettan Maldi-ToF, equipamento dedicado à análise da estrutura de proteínas, a segunda fase do mapeamento genético. "O Brasil foi escolhido por causa da visibilidade que conseguiu com seus projetos em genoma", diz Gisela Bellinello, presidente da Amersham Pharmacia para a América Latina. A grande inovação do Ettan Maldi-Tof em relação aos outros equipamentos de espectometria de massa é a tecnologia zeta square, exclusiva. Para serem analisadas, as moléculas de proteína fazem um vôo através do tubo dos equipamentos. É pelo tempo desse vôo (time of flight, o ToF do nome do aparelho) que se determina a massa das moléculas. Como o tubo do Maldi-ToF faz uma curva, as moléculas, que estavam voando juntas, são obrigadas a se alinhar, aumentando sua resolução. "É o pulo do gato do equipamento", diz Carlos Eduardo Moreira, gerente de negócios para desenvolvimento de medicamentos para a América Latina. Como outros equipamentos de densitometria de massa existentes no mercado, este analisa as moléculas com precisão de quatro a cinco casas decimais, mas é o único desenvolvido especificamente para a análise de proteínas. "Uma maior resolução é muito importante para a identificação das moléculas", afirma Marcelo Valle de Sousa, coordenador do Centro Brasileiro de Serviços de Pesquisa em Proteínas, da Universidade de Brasília. "Pelas informações que temos, o equipamento aumenta muito a velocidade de análise das amostras". A Amersham Pharmacia já investiu mais de LSS 30 milhões no desenvolvimento do sistema, de acordo com Moreira. Teve como parceiros a sueca Proteometrics LLC, perita em tecnologia de espectometria de massa, e a inglesa Scientific Analysis Instruments Ltd, expert em softwares. Até o final de 2001, a Amersham Pharmacia acredita que terá comercializado cerca de 120 equipamentos ao redor do mundo. Mesmo antes de seu lançamento, já vendeu um para a Coréia, e está fechando negócio com a China. No Brasil, a previsão de Gisela é de que sejam vendidos entre quatro e seis aparelhos até o final do ano, e cerca de dez unidades até o final de 2001. "Já há duas ou três universidades interessadas", informa a presidente. O Centro de Pesquisas em Proteínas da UnB é uma delas. Além de um seqüenciador de proteínas e dois analisadores de aminoácidos, o laboratório já tem um espectrômetro de massa, que trabalha com um spray elétrico, ao passo que o Maldi-ToF faz a ionização por raio laser. "Ele complementaria nosso trabalho", diz Sousa. O centro da UnB foi palco da primeira tese de pós-doutora do - sobre a aranha marrom - que incluiu análise de proteomas no Brasil, afirma o coordenador. "Se tivéssemos um equipamento mais moderno, poderíamos ter avançado mais", afirma.