Notícia

Jornal da Unicamp

No embrião da pesquisa

Publicado em 20 outubro 2014

Por Isabel Gardenal

A Unicamp responde por 15% da pesquisa acadêmica do Brasil. Uma parte dela é desenvolvida durante a iniciação científica. O resultado é a contribuição que a Universidade dá para a sociedade. São tecnologias; metodologias; novos medicamentos, materiais e produtos; otimização de processos; inovações; e várias descobertas em todas as áreas do conhecimento. É para tornar públicas essas pesquisas que a Unicamp promoverá no próximo dia 22 o seu XXII Congresso Interno de Iniciação Científica. O evento, que já é tradicional no calendário institucional, acontece no Centro de Convenções até o dia 24 deste mês, com organização da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP). A abertura está prevista para as 13h30.

Além de ser um dos congressos da Unicamp que reúne maior número de trabalhos, também é um dos que mais gera investigações de qualidade. Por reconhecer o mérito das suas pesquisas, a Universidade já estuda a possibilidade de tornar o evento internacional. É o que planejam a professora Gláucia Maria Pastore, titular da pasta da PRP, e o professor Fernando Coelho, coordenador do congresso. “Essa é a nossa expectativa para dar uma maior visibilidade aos trabalhos aqui produzidos”, reforça a pró-reitora.

Nesta vigésima segunda edição, Fernando Coelho conta que são 1.485 alunos inscritos, 1.348 projetos, em média 1.200 visitantes por dia, 39 docentes que compõem o comitê interno de avaliação, 28 docentes de outras instituições que compõem o comitê externo do CNPq e 500 doutorandos e pós-doutorandos inscritos para atuar como avaliadores. O coordenador ressalva uma pequena diferença entre o número de projetos e o número de alunos. Ele explica que no grupo de alunos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM) um único projeto pode ter vários alunos envolvidos.

O coordenador comenta que os comitês que julgarão os trabalhos terão a difícil tarefa de avaliá-los. Isso porque, no conjunto, a sua qualidade é muito boa. Um comitê interno escolherá os melhores em cada uma das áreas do conhecimento. Depois, 28 docentes de outras instituições também avaliarão os pré-selecionados.

O objetivo é premiar os projetos de maior mérito, relata ele. O prêmio será dado aos autores dos 20 melhores trabalhos, que receberão importância em dinheiro, no valor de R$ 3 mil, e participarão de evento da Sociedade Brasileira para o Progresso para a Ciência (SBPC).

Na opinião de Fernando Coelho, o XXII Congresso é um encontro que rende bons frutos porque está trazendo o trabalho de alunos de iniciação científica, descortinando a pesquisa em sua forma embrionária. Mas esse incentivo, garante ele, não é suficiente para transformar esse jovem em cientista. O aluno tem que se esforçar para buscar o conhecimento. Além disso, é fundamental que o projeto tenha um propósito: sinalize soluções para algum problema de pesquisa.

Os principais impactos desse programa, salienta, são a melhor preparação para a pós-graduação e o desenvolvimento do raciocínio lógico, da criatividade e do método no tratamento de novos problemas que esta experiência proporciona a esses estudantes.

Nesta edição, a organização do evento designou como mote do congresso o dizer: ‘Venha participar do futuro da pesquisa da Unicamp’. “Essa escolha é apropriada porque de fato consideramos a iniciação científica o futuro da nossa pesquisa. E o tempo tem apontado isso”, sublinha o professor.

Ele informa que o evento traz muitas novidades quanto à forma como foi organizado. No passado, os cadernos de resumos não permitiam que se incluíssem fotos, gráficos, tabelas, esquemas. Este ano, o caderno de resumos já permite que isso seja feito.

Outra novidade: o sistema de inscrição foi totalmente eletrônico e o julgamento também o será. Uma vez que o aluno apresenta o seu trabalho, a sua presença será controlada eletronicamente. Depois ele entra na página da PRP e emite o seu certificado também eletronicamente. “Caminhamos para fazer desaparecer completamente o papel”, revela.

Mais uma inovação no congresso é que foi feita uma campanha interna bastante exitosa em relação ao estímulo para que bolsistas de outras agências de fomento participem desse evento. O coordenador lembra que o congresso normalmente é obrigatório para os alunos financiados com bolsas CNPq e SAE, mas não para os alunos com bolsaFapesp. Com essa campanha, veio o resultado. “O congresso do ano passado tinha 46 inscritos com bolsa Fapesp. Este ano tivemos 118. Isso é altamente favorável porque contribui para aumentar ainda mais a qualidade dos trabalhos que serão apresentados”, julga Fernando Coelho.

Nas edições anteriores, o congresso tinha outras atividades apenas no primeiro dia. Durante a abertura do evento um convidado externo apresentava um seminário sobre um tema geral. Neste ano, o formato mudou completamente, anuncia ele. Todos os dias haverá atividades. Estão programadas palestras com pesquisadores reconhecidos em diferentes áreas do conhecimento, que ministrarão temas transversais, ou seja, que interessam a todas as áreas do conhecimento.

A palestra de abertura acontecerá no dia 22, às 13h30. O tema “Empreendedorismo” será abordado pelo docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Aluir Dias Purceno. Nesse primeiro dia, também haverá a participação da Agência de Inovação Inova Unicamp, que apresentará casos de sucesso da própria Universidade. Às 16 horas, será realizada uma exposição dos 474 painéis dos alunos das áreas de Artes e Tecnológicas.

No segundo dia, uma mesa-redonda discutirá às 14 horas a produção e a divulgação científica e cultural, com a presença de Vera Regina Toledo Camargo, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor). A seguir, serão expostos os 438 painéis dos alunos das áreas de Exatas e de Humanas.

“O tema divulgação científica é muito importante porque uma parte dos resultados, do conhecimento que é gerado na Universidade, nem sempre é repassada para a sociedade. A linguagem para fazer essa passagem nem sempre é dominada. Então a ideia é que esse conhecimento consiga chegar ao grande público”, afirma o coordenador.

No último dia, o pesquisador do Centro de Pesquisa da Petrobrás (Cenpes) Eduardo Falabella ministrará uma palestra às 14 horas, destacando a ética na pesquisa. A seguir, acontecerá a última exposição do evento, que mostrará os 436 painéis dos alunos da área de Biológicas.

A intenção, ressalta Fernando Coelho, é permitir que um aluno de qualquer área possa ter contato com temas que também façam parte da sua formação humana e profissional. “Esse será um momento de reflexão sobre a qualidade do trabalho e a formação que a Universidade pode oferecer aos estudantes como seres humanos e como cidadãos, que é tão importante quanto formar cientistas.”

Relevância

De acordo com Gláucia Pastore, a Unicamp possui uma forte atuação na iniciação científica e isso tem sido verificado por outras instituições do país que a consideram um modelo na pesquisa. “O fato de os trabalhos de iniciação científica terem tanta atenção na sua seleção e orientação propicia uma atmosfera favorável ao seu crescimento, porque os alunos que fazem suas primeiras pesquisas possivelmente se tornarão pós-graduandos. Com isso, a pesquisa avança porque conta com jovens quadros que replicam outros jovens quadros na instituição”, realça.

Uma preocupação da PRP, assinala ela, foi buscar o aprimoramento do sistema para a seleção dos trabalhos, procurando entender como é a relação dos orientadores com os orientandos, e divulgar os conteúdos que estão sendo desenvolvidos na Universidade. “Algumas melhorias foram implementadas para que o aluno compreenda a importância que a Unicamp dá ao trabalho de iniciação científica, pois ele é a base para todas as linhas de pesquisa.”

Para a pró-reitora de Pesquisa, o mais importante é o caráter de grupo que o aluno de iniciação deve assumir ao compor uma equipe com mestrandos e doutorandos. O sentimento de proatividade é muito positivo, opina, e permite que a pesquisa melhore ainda mais. “A Unicamp já é reconhecida como um celeiro de pesquisas.”

A docente explica que muitos trabalhos inovadores têm inclusive a possibilidade de abrir novas linhas de pesquisa. “Dentro de uma equipe, o que geralmente acontece é que o aluno de iniciação científica entra como que num ‘treinamento’ e às vezes tem que acompanhar um projeto já em andamento. Esse projeto pode ser visto de uma outra forma pelo aluno de graduação. Assim, ele é uma espécie de agente de pesquisa, um pesquisador em formação”, define.

Conforme a professora, um aluno que não ingressa na iniciação científica simplesmente cursa a graduação e não se desenvolve profissionalmente como poderia. “Isso porque a iniciação contribui com ele, conferindo-lhe atributos como objetividade e clareza, escrever de maneira a comunicar em ciência e trabalhar em equipe. Essas possibilidades de implemento na sua formação profissional são extremamente valiosas”, acredita.

Desde o primeiro ano, os graduandos podem participar da iniciação científica, o que pode representar uma ampliação no número de pesquisadores da comunidade científica brasileira, afirma ela. Alguns alunos fazem até mais que uma.

A iniciação científica busca proporcionar ao aluno, orientado por um pesquisador experiente, a aprendizagem de técnicas e do método científico, bem como estimular o pensar cientificamente e a criatividade pelo confronto direto com os problemas de pesquisa.