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Época Negócios

NO CAMINHODE UMA GESTAO MODERNA

Publicado em 17 setembro 2013

Diz-se, no mundo do teatro, que o maior perigo não é a primeira apresentação da peça, mas a segunda. Porque depois de toda a tensão da estréia, é natural que o time relaxe – e nessa hora vêm os erros, os esquecimentos de texto, um descompasso na iluminação… Por isso, nós tratamos de redobrar a atenção neste segundo ano do guia Época NEGÓCIOS 360°. Minha impressão é que funcionou, mas você pode julgar por si, avaliando esta edição.

Neste ano em que as empresas, para usar uma expressão suave, contiveram seu entusiasmo, nós conseguimos uma adesão 25% acima da do ano passado. Isso nos levou a expandir nosso ranking, também em 25%, para 250 empresas. Os números que levaram a este resultado são: 1.933 empresas contatadas, 1.109 respostas, 600 que iniciaram o processo da pesquisa. No total, a equipe da Fundação Dom Cabral (FDC), chefiada pela estatística Ana Denise Ceolin.fez 10.461 ligações.

No entender da nossa equipe e da FDC, nossa parceira responsável pela metodologia da pesquisa (elaborada e refinada sob a liderança do consultor Heiko Spitzeck), esse avanço se deve à aderência da proposta do guia com os novos tempos do mundo corporativo. Ele reflete a crescente noção de que os resultados financeiros são extremamente importantes, mas estão longe de ser a única dimensão essencial na análise de uma empresa.

Até para sustentar por longos períodos os dividendos, a valorização e os lucros, é preciso monitorar e avançar em temas como cultivo de talentos, gestão de riscos, transparência nas relações com os parceiros e impacto positivo para a sociedade e para o meio ambiente. 

Esse movimento apresenta vários sinais: um deles é o discurso dos empresários e o surgimento de líderes mais preocupados com o fator humano; outro, a tendência de consolidação dos relatórios anuais das empresas com dados financeiros, socioambientais e de governança; um terceiro, modéstia à parte o sucesso deste nosso guia. 

Que se repare: o anuário Época NEGÓCIOS 360° não dá aos resultados financeiros menos importância que os demais guias, ancorados apenas nos números. Ele dá mais – porque estamos interessados nos resultados do ano, e dos anos que se seguirão. É esta a nova mentalidade das empresas. Como dissemos na estréia do guia, ano passado, uma visão 6D, em seis dimensões: resultados financeiros, governança corporativa, práticas de recursos humanos, responsabilidade socioambiental, inovação e visão de futuro.  

É relativamente fácil aferir o quanto essa mentalidade está presente nas grandes empresas. As 250 empresas da lista 360° tiveram, em 2012, um faturamento conjunto de R$ 1,4 trilhão. As 500 maiores empresas do Brasil – listadas no ranking financeiro a partir da pág. 264 – têm, em conjunto, faturamento de R$ 2,3 trilhões (incluindo as estimativas das que não divulgam balanço financeiro).

O crescimento da lista é mais significativo quando se consideram três fatores: 1. Este ranking exige um considerável esforço das empresas, para preencher os questionários das seis dimensões (nós fizemos um esforço de simplificação, mas ainda assim eles representam uma bem-vinda disposição das empresas de colaborar); 2. Muitas empresas têm por política ou estratégia não divulgar parte dos seus resultados, seja por determinação da matriz, seja por preocupação de não revelar informações para a concorrência (por isso, sugerimos a análise dos sub rankings de cada dimensão e da lista do conjunto de práticas, que não considera a pontuação financeira); 3. O ano de 2012 não foi exatamente alvissareiro para as empresas, para dizer o mínimo – e muitas declinaram de participar por não considerar seus resultados fortes o suficiente para entrar na lista.  

O CAMINHO É TRILHAR 

Na comparação com o ano passado, a lista deste ano permite algumas considerações. A primeira não é novidade para ninguém: na média, o ano foi difícil para as empresas. Essa análise está esmiuçada em reportagem do jornalista José Ruy Gandra (pág. 42). A segunda, derivada desta: a média dos resultados financeiros caiu. Também caíram as pontuações médias de inovação, visão de futuro e práticas de recursos humanos. Uma possível explicação é que a tensão da busca de resultados no presente compromete o investimento no futuro (inovação e visão de futuro) e cobra seu preço nas relações de trabalho. Mas as médias de responsabilidade socioambiental e governança aumentaram – o que faz supor que a consciência ambiental se instala inexoravelmente nos processos das empresas, e que a governança começa a ser considerada parte essencial do negócio.  

Ao olhar as tabelas de pontos, pode- se imaginar que as empresas ainda têm um caminho muito longo a trilhar. Afinal, as médias não são assim tão altas. Mas parte desse resultado se deve à metodologia. Em vários quesitos dos questionários, as notas são conferidas por desvio-padrão. Isso significa que uma empresa só ganha muitos pontos se estiver bem acima da média.  

A idéia é que as práticas das empresas vão se aprimorando, com o desenvolvimento do ambiente dos negócios no país – mas sempre haverá aquelas mais à frente no processo.  

E esta é, na nossa visão, a principal missão deste guia. Apontar as empresas que podem servir de exemplo, nos mais variados setores, nas mais variadas dimensões. Pode ser o estímulo ao desenvolvimento sustentável, do Banco Santander; a consistência dos conceitos da Stefanini; a revolução nos recursos humanos promovida pela Man; a formação de lideranças da AmBev; o uso da tecnologia no Itaú: as apostas estratégicas da Natura; o planejamento para crescer da Duratex; a internacionalização da WEG; a agilidade em atuar em novos mercados da Bradesco Seguros; o foco em atender o cliente da JSL.

Para contar a história principal, da CPFL, campeã deste ano, destacamos o veterano e premiado jornalista Paulo Totti. Em várias visitas e inúmeras conversas, Totti verificou ao vivo aquilo que a pesquisa havia apontado: práticas exemplares, resultados notáveis. Para ficar apenas num exemplo: a gigante de energia elétrica já é líder em investimentos em energia eólica.

Essas histórias inspiradoras são colhidas depois de um longo processo, que começa com as inscrições, a partir do início do ano, continua com o processamento das informações dos questionários – que define as campeãs de cada setor – e termina com a reunião do conselho de notáveis, que concede pontos extras a algumas empresas após um debate alimentado por informações trazidas pela redação.

Nosso conselho, este ano, contou com Keyler Carvalho Rocha, professor de finanças da USP (desempenho financeiro), Sandra Guerra, presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (governança), Sérgio Mindlin, presidente do conselho do Instituto Ethos (responsabilidade socioambiental), Luiz Carlos Cabrera, professor da FGV-SP (práticas de RH), Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor, científico da Fapesp (inovação) e José Carlos Teixeira Moreira, presidente do Instituto de Marketing Industrial (visão de futuro), além de Mozart Pereira, professor da Fundação Dom Cabral, e eu mesmo, como representante da redação de Época NEGÓCIOS (com a ajuda de Darcio Oliveira, redator-chefe da revista, e Antonio Felix, o jornalista responsável por este guia).

Definida a pontuação final e, conseqüentemente, a campeã do ano, é hora da produção do guia. A maior parte dos textos é feita por uma equipe de jornalistas colaboradores. Aí é hora de a equipe da arte, liderada por Rodrigo Buldrini e Rafael Pera, dar a todo o manancial de informações a melhor organização possível para a leitura. Eles tiveram a difícil missão de fazer um guia ainda melhor que o do ano passado. A meu ver, conseguiram. Os rankings ficaram ainda mais claros, e várias tabelas foram transformadas em gráficos pelos designers Flávio Pessoa e Idamazio Machado e pela infografista Flávia Marinho.

Assim como para as empresas, superar esse trabalho vai ficar ainda mais difícil no ano que vem. Mas, assim como as empresas, Felix e a equipe de arte já estão pensando em como melhorar.