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Ministério do Planejamento

No Brasil, esporte vai do estádio ao laboratório

Publicado em 15 março 2010

Por Cibelle Bouças

Há controvérsias sobre quem foi o brasileiro que inventou a famosa "paradinha" na cobrança de pênaltis, mas sabe-se que a jogada ficou mundialmente famosa ao ser testada por Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Na galeria da criatividade esportiva, também tem lugar de destaque o jogador de vôlei Bernard Rajzman, que na década de 80 adaptou do vôlei de areia o saque "jornada nas estrelas", e a ginasta Daiane dos Santos, que surpreendeu o mundo ao executar um duplo twist carpado em 2003, rebatizado com seu sobrenome.

Agora, porém, a habilidade brasileira para o esporte está deixando os limites dos estádios e ginásios para envolver pesquisadores responsáveis por tecnologias capazes de ajudar os atletas a obter ganhos de desempenho. Nos últimos três anos, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) destinou R$ 10 milhões em recursos não reembolsáveis para subsidiar 13 empresas na área de tecnologia esportiva. Do total, cinco já estão em fase final de desenvolvimento dos produtos.

Para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a meta é ambiciosa. A Finep articula parcerias para desenvolver o projeto 2014-BIS, que vai subsidiar a criação de tecnologias destinadas às competições. As áreas definidas pela Finep são convergência digital, energias renováveis, interatividade e internet.

Para a realização do 2014-BIS, a Finep negocia com o governo federal a liberação de aproximadamente R$ 3 bilhões em recursos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e pelo Fundo de Universalização dos Serviços de Comunicação (Fust). Todo esse dinheiro, claro, não visa apenas financiar a inovação em equipamentos e software para o treino dos atletas. Boa parte dos recursos será destinada a itens de infraestrutura, como sistemas eletrônicos de segurança para controle de ingressos e ampliação das conexões à internet nas cidades que sediarão os jogos.

De acordo com a Finep, a primeira parceria foi fechada em janeiro com o Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras (Fundação Certi), de Florianópolis (SC). A agência repassou R$ 3,2 milhões à instituição para a formação de uma rede de cooperação de universidades e empresas, que juntas criarão uma agenda regional de atividades em preparação às competições internacionais. A Fundação Certi já fechou parceria com a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e com o parque tecnológico Sapiens Parque, de Florianópolis. Outros acordos similares devem ser estabelecidos ao longo do ano.

Mas antes que esses projetos sejam levados a cabo, empresas que já receberam subsídios da Finep começam a colocar no mercado tecnologias voltadas ao esporte.

A PSS Indústria, de São José dos Campos (SP), lançou em 2008 um modelo de suspensão para bicicletas composto por uma suspensão hidráulica (ar e óleo) e outra a ar. Essa última é formada por duas câmaras interligadas, que agem como molas. O equipamento oferece várias possibilidades de regulagem, facilitando a prática de esportes radicais com bicicleta, diz o diretor da empresa, Breno Horta. É o primeiro sistema do tipo produzido no Brasil. Antes do seu lançamento, os ciclistas tinham de importar equipamentos similares, fabricados na Itália e em Taiwan.

A suspensão começou a ser desenvolvida em 2007 e recebeu R$ 850 mil em subvenções da Finep e do Sebrae. De acordo com Horta, em torno de 1% do faturamento é obtido com exportações, o que indica um grande espaço para crescer no exterior. Existem apenas sete produtores de suspensão para bicicletas no mundo. Além do sistema "dual air", a empresa desenvolve uma suspensão "verde" e uma suspensão eletrônica.

Outras tecnologias serão lançadas neste ano. Uma delas é um simulador para atividades de paraquedismo, desenvolvido pela Dynamis Indústria e Comércio, de Ferraz de Vasconcelos (SP). O sistema consiste em um túnel de vento vertical de 15 metros de altura, que permite ao usuário flutuar em seu interior. O túnel foi desenvolvido para que paraquedistas simulem manobras aéreas, como controle de velocidade e definição de formas no caso de saltos em grupo. "Existe também potencial de uso do equipamento pelas áreas militar e de entretenimento", afirma o coordenador de projetos da Dynamis, Luciano Tanz.

O projeto teve início em 2002 e recebeu R$ 1,5 milhão em recursos não reembolsáveis da Finep. De acordo com Tanz, produtos similares são produzidos nos Estados Unidos, a preços entre US$ 4 milhões e US$ 6 milhões. O simulador brasileiro será lançado em outubro e a meta é criar um sistema de franquias para o aluguel do equipamento. "Ainda não fiz propaganda, mas já recebi dezenas de encomendas", diz Tanz.

Outro produto a ser lançado é um ambiente virtual para treinamento de tênis, em desenvolvimento pela subsidiária da empresa francesa Thales Information Systems (Thales-IS). Desde 2007, quando começou a ser desenvolvido, o projeto recebeu R$ 2,08 milhões em subvenção da Finep, com contrapartida da empresa de R$ 700 mil. De acordo com o diretor geral da companhia no Brasil, Marcos Sakamoto, o simulador permitirá avaliar as influências que altitude, tipo de quadra, clima e outros fatores exercem durante as partidas de tênis. "O simulador também permitirá avaliar o desempenho dos atletas e reforçar os treinamentos", afirma. Ele vê como mercados potenciais escolas e academias de ginástica. O produto, sem similar no mercado, deve ser lançado no Brasil e na Europa.

A natação, esporte que mais rendeu medalhas ao Brasil na Olimpíada de Pequim, em 2008, também foi contemplada. A empresa Informação Tecnologia & Desenvolvimento (IT&D), de Santos, planeja lançar no próximo semestre um carro-robô que mede a velocidade do nadador em tempo real e filma sua movimentação sob a água. O projeto é fruto de investimento próprio de R$ 550 mil e subvenções de R$ 755 mil da Finep, R$ 160 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e R$ 36 mil do Sebrae.

O sistema é composto por um robô que se desloca sobre trilhos instalados na borda da piscina. Ele filma os movimentos do atleta e, por meio de um software, captura e analisa dados como velocidade do nadador e ângulos dos braços em cada movimento. O robô é dotado de um sistema de mira militar, que detecta o centro do corpo do atleta para acompanha-lo na piscina. De acordo com Humberto Ribeiro de Souza, sócio da IT&D e inventor do robô, existem 5 mil clientes potenciais no mundo. As primeiras encomendas têm entrega prevista para outubro.

do Valor Econômico