Os supercentenários brasileiros estão revelando segredos genéticos e imunológicos ocultos que podem redefinir o que significa envelhecer — e sobreviver — de forma excepcional.
Um artigo de opinião publicado em 6 de janeiro na revista Genomic Psychiatry pela Dra. Mayana Zatz e colegas do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo explora por que o Brasil pode ser um dos cenários mais importantes, porém negligenciados, para o estudo da longevidade humana extrema. Os autores combinam insights de seu estudo nacional de longa duração sobre indivíduos excepcionalmente longevos com descobertas recentes na biologia dos supercentenários para explicar por que o Brasil oferece oportunidades científicas únicas.
Por que um pequeno número de pessoas vive mais de 110 anos, enquanto a maioria nunca chega aos 100? Cientistas têm buscado responder a essa pergunta há décadas, mas respostas claras ainda são escassas. De acordo com a Dra. Zatz e seus coautores, parte do problema reside no foco restrito das pesquisas existentes. Muitos grandes bancos de dados genômicos são dominados por populações relativamente homogêneas, deixando grandes lacunas quando se trata de grupos miscigenados.
“Essa lacuna é especialmente limitante na pesquisa sobre longevidade, onde supercentenários miscigenados podem abrigar variantes protetoras únicas, invisíveis em populações geneticamente mais homogêneas”, explica Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do artigo de opinião e pesquisador do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco.
Diversidade genética incomparável do Brasil
A história populacional do Brasil o diferencia de quase todos os outros países. A colonização portuguesa, iniciada em 1500, a migração forçada de aproximadamente 4 milhões de africanos escravizados e, posteriormente, as ondas de imigração europeia e japonesa produziram o que os autores descrevem como a mais rica diversidade genética do mundo.
Pesquisas genômicas iniciais envolvendo mais de 1.000 brasileiros com mais de 60 anos revelaram cerca de 2 milhões de variantes genéticas até então desconhecidas. Somente entre os idosos brasileiros, os pesquisadores identificaram mais de 2.000 inserções de elementos móveis e mais de 140 alelos HLA ausentes em bancos de dados genômicos globais. Um estudo posterior ampliou ainda mais esse panorama, relatando mais de 8 milhões de variantes genéticas não descritas na população brasileira, incluindo mais de 36.000 consideradas potencialmente prejudiciais.
Um grupo extraordinário das pessoas mais idosas do mundo.
A equipe de pesquisa construiu uma coorte rara e valiosa. Seu estudo longitudinal em andamento inclui mais de 160 centenários, entre eles 20 supercentenários validados, provenientes de diversas regiões do Brasil com diferentes contextos sociais, culturais e ambientais. Entre os participantes estava a Irmã Inah, reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte em 30 de abril de 2025, aos 116 anos.
O que torna esse grupo especialmente informativo não é apenas a idade. Quando os pesquisadores entraram em contato com eles pela primeira vez, vários supercentenários brasileiros ainda estavam mentalmente lúcidos e capazes de realizar tarefas básicas do dia a dia por conta própria. Muitos passaram a maior parte de suas vidas em áreas carentes, com pouco acesso a serviços modernos de saúde. Isso permite que os cientistas estudem a resiliência biológica que se desenvolveu em grande parte sem intervenção médica.
Longevidade além do acesso médico
O que torna esse grupo especialmente informativo não é apenas a idade. Quando os pesquisadores entraram em contato com eles pela primeira vez, vários supercentenários brasileiros ainda estavam mentalmente lúcidos e capazes de realizar tarefas básicas do dia a dia por conta própria. Muitos passaram a maior parte de suas vidas em áreas carentes, com pouco acesso a serviços modernos de saúde. Isso permite que os cientistas estudem a resiliência biológica que se desenvolveu em grande parte sem intervenção médica.
Famílias que desafiam as probabilidades
Uma família no estudo fornece um exemplo impressionante de longevidade hereditária. Uma mulher de 110 anos da coorte tem sobrinhas de 100, 104 e 106 anos, tornando-a uma das famílias mais longevas já documentadas no Brasil. A sobrinha mais velha, agora com 106 anos, ainda competia como campeã de natação aos 100 anos.
Esse padrão coincide com descobertas anteriores que mostram que os irmãos de centenários têm entre 5 e 17 vezes mais probabilidade de também atingirem a idade avançada.
Será que famílias como essa podem ajudar a separar as influências genéticas das ambientais ou epigenéticas? “Investigar esses raros agrupamentos familiares oferece uma perspectiva singular sobre a herança poligênica da resiliência e pode ajudar a desvendar as contribuições genéticas e epigenéticas para a longevidade extrema”, observa o Dr. de Castro.
O que torna os supercentenários biologicamente diferentes
O artigo também reúne pesquisas recentes sobre as características biológicas que distinguem os supercentenários da população em geral. Suas células imunológicas mantêm sistemas de reciclagem de proteínas que funcionam em níveis semelhantes aos de pessoas muito mais jovens. Os processos de limpeza celular permanecem ativos e eficientes, ajudando a prevenir o acúmulo de proteínas danificadas.
Análises de células individuais mostram uma expansão incomum de células T CD4+ citotóxicas que se comportam mais como células imunes CD8+. Esse perfil imunológico é raramente observado em indivíduos mais jovens.
Um estudo multiômico recente de uma supercentenária americana-espanhola de 116 anos identificou variantes raras ou exclusivas em genes relacionados à imunidade, como HLA-DQB1, HLA-DRB5 e IL7R, juntamente com variantes ligadas à manutenção de proteínas e à estabilidade genômica. Os autores argumentam que o envelhecimento imunológico em supercentenários não deve ser visto como um declínio geral, mas como uma forma de adaptação que preserva a função. Curiosamente, diferentemente da superidosa americana-espanhola, que seguia uma dieta mediterrânea, os supercentenários brasileiros não mencionam nenhuma restrição alimentar.
Sobrevivência à COVID-19 em idade extremamente avançada
Uma das demonstrações mais convincentes de resiliência ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Três supercentenários brasileiros da coorte sobreviveram à infecção em 2020, antes da disponibilidade de vacinas. Análises laboratoriais mostraram fortes respostas de IgG e anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2, juntamente com proteínas e metabólitos relacionados à imunidade e à defesa inicial do hospedeiro.
Como pessoas com mais de 110 anos desenvolveram respostas imunológicas eficazes a um vírus totalmente novo que se mostrou mortal para milhões de indivíduos mais jovens continua sendo uma questão fundamental. Os autores sugerem que a função imunológica preservada, os sistemas de manutenção de proteínas intactos e a estabilidade fisiológica geral, em conjunto, fazem dos supercentenários modelos poderosos para o estudo da resiliência.
Posição do Brasil no ranking mundial de longevidade extrema
O papel do Brasil na pesquisa sobre longevidade é ainda mais reforçado pelas estatísticas globais. Três dos dez supercentenários do sexo masculino com maior longevidade comprovada são brasileiros, incluindo o homem mais velho ainda vivo, nascido em 5 de outubro de 1912. Isso é especialmente notável porque a longevidade extrema é muito menos comum em homens, que normalmente enfrentam maior risco cardiovascular, mais doenças crônicas e padrões de envelhecimento hormonal e imunológico diferentes.
Ter acesso a supercentenários, tanto homens quanto mulheres, que viveram a maior parte de suas vidas sem a medicina moderna, oferece uma oportunidade rara de estudar a resiliência em um grupo geralmente sub-representado.
Entre as mulheres, as supercentenárias brasileiras também se destacam. O número de brasileiras entre as 15 pessoas mais longevas do mundo supera o de países mais populosos e ricos, incluindo os Estados Unidos.
Próximos passos na pesquisa sobre longevidade
O esforço de pesquisa vai além do sequenciamento de DNA. Os cientistas também estão desenvolvendo modelos celulares a partir de participantes selecionados para conduzir experimentos funcionais e análises multiômicas. Em vez de simplesmente confirmar resultados de populações menos diversas, o objetivo é identificar variantes genéticas protetoras e mecanismos biológicos que possam ser específicos da população brasileira. Essas descobertas podem fundamentar abordagens de medicina de precisão que sejam globalmente relevantes e que reflitam melhor a diversidade humana. Em colaboração com a Profa. Ana Maria Caetano de Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais, a equipe também estudará os perfis imunológicos dessa coorte com maior profundidade.
Os autores instam os grupos internacionais de longevidade e genômica a expandirem o recrutamento para incluir populações ancestralmente diversas e miscigenadas, como o Brasil, ou a fornecerem apoio financeiro para estudos genômicos, imunológicos e de longo prazo que aprimorem o conhecimento científico e, ao mesmo tempo, promovam a equidade na pesquisa em saúde global.
Resiliência como conceito central
Os supercentenários oferecem mais do que exemplos de vidas excepcionalmente longas. Eles demonstram resistência, adaptabilidade e resiliência, características que podem ser tão importantes quanto a própria longevidade. Em vez de simplesmente suportarem a velhice, esses indivíduos parecem combater ativamente muitas características biológicas do envelhecimento, oferecendo pistas que podem melhorar a qualidade de vida à medida que as populações envelhecem.
“Consórcios internacionais de longevidade e genômica devem expandir o recrutamento para incluir populações ancestralmente diversas e miscigenadas, como a do Brasil, ou fornecer apoio financeiro para estudos genômicos, imunológicos e longitudinais que aprofundem o conhecimento científico e promovam a equidade na pesquisa em saúde global”, afirma a Dra. Mayana Zatz, autora correspondente e professora da Universidade de São Paulo.
Este artigo reúne o conhecimento atual sobre a biologia dos supercentenários com insights de uma coorte brasileira excepcional. Ao integrar descobertas genômicas, imunológicas e clínicas, os autores apresentam argumentos sólidos para expandir a pesquisa sobre longevidade para além das populações tradicionalmente estudadas e revelam padrões que permanecem invisíveis em grupos geneticamente homogêneos.
Por Genomic Press com informações de Science Daily.