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No alvo

Publicado em 01 março 2017

Por Bernardo Esteves

“Hoje chegou um paciente com câncer de pulmão na fase de metástase”, disse a geneticista Anamaria Camargo numa manhã recente. Ela estava em seu gabinete no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde lidera uma equipe de cerca de vinte pesquisadores, contando funcionários contratados e alunos de pós-graduação. O caso recém-admitido, explicou a cientista, era ideal para pôr à prova um teste que o grupo vinha desenvolvendo nos últimos dois anos.

O câncer é uma doença genética – ou, melhor dizendo, uma família de doenças genéticas, já que existem mais de uma centena de tipos diferentes de tumores, cada um com características únicas. O que eles têm em comum é o fato de suas células se reproduzirem desenfreadamente e a tendência de se alastrarem para outros tecidos – é aí que se fala em metástase. Essa multiplicação descontrolada é desencadeada por mutações genéticas que vão se acumulando nas células sadias. “Caracterizar essas mutações é fundamental para entender o processo de transformação celular”, explicou Camargo. “A expectativa é que, conhecendo melhor a biologia do tumor, a gente possa usar essa informação para um diagnóstico mais precoce ou para um tratamento mais efetivo."

Era essa a proposta do teste genético desenvolvido pela equipe de Camargo,  que vem sendo testado em escala experimental no hospital para, um dia, ser oferecido comercialmente. “Vamos extrair o DNA do tumor e usar nosso painel de genes para ver quais são as alterações presentes”, contou a geneticista.

O paciente se beneficiaria do conhecimento acumulado pela genética do câncer nas últimas duas décadas. Os tumores de pulmão são relativamente bem compreendidos – os cientistas já identificaram dezenas de alterações genéticas envolvidas em seu surgimento. “Quem sabe veremos que ele tem uma mutação num gene chamado EGFR”, disse Camargo. O gene em questão, continuou a pesquisadora, controla um fator de crescimento e está implicado na multiplicação celular. “Se ele está constantemente ativado, a célula entende que tem de se dividir para sempre”, explicou.

Encontrar essa mutação seria um sinal de sorte – se é que é possível falar em sorte para alguém que enfrenta um câncer. Isso porque hoje existem drogas que atuam especificamente nos mecanismos moleculares governados por esse gene. É o caso do erlotinibe, um fármaco que inibe o fator de crescimento controlado pelo EGFR.

Drogas como o erlotinibe, que incidem sobre mecanismos precisos da proliferação do tumor, são chamadas de terapias-alvo e constituem uma nova frente no combate ao câncer. Elas agem de forma muito mais específica que a quimioterapia, um pilar central da luta contra a doença desde que foi introduzida no século passado. Os remédios quimioterápicos matam indistintamente todas as células que estejam se reproduzindo, sejam elas tumorais ou saudáveis, e por isso acarretam efeitos colaterais devastadores.

Apesar do potencial promissor, as terapias-alvo têm um custo proibitivo e estão ao alcance de um número limitado de pacientes. Para determinar quais deles se beneficiarão, é preciso traçar um perfil genético do tumor, e é essa a finalidade do exame que está sendo desenvolvido pela equipe de Camargo. “Com o diagnóstico molecular em mãos, o oncologista, em vez de prescrever químio e radioterapia, vai empregar como primeira linha de tratamento uma droga-alvo que vai agir exatamente na alteração genética que o paciente tem e que foi determinada por intermédio do nosso painel”, explicou a cientista.

Anamaria Aranha Camargo nasceu em São Paulo há 45 anos e trabalha no Sírio-Libanês desde 2012, quando o hospital a contratou para dirigir o Centro de Oncologia Molecular que acabara de criar. O ambiente hospitalar não é novidade para a geneticista, que fez carreira no Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer. Camargo não lida diretamente com os pacientes, mas trabalha na linha de frente da pesquisa, às vezes em contato estreito com o corpo clínico. “Precisamos conhecer as perguntas e dificuldades que os médicos têm na prática e depois tentar resolvê-las no laboratório”, disse. “É um caminho que vai do leito para a bancada.”

O painel de genes que ela vem desenvolvendo com sua equipe consiste na avaliação de uma amostra do DNA do tumor, com o intuito de identificar a presença de algumas das mutações para as quais há tratamentos disponíveis. São examinados ao mesmo tempo quase 500 genes envolvidos em alguns dos tumores mais comuns na população brasileira, como os de pulmão, mama, próstata e intestino. “Mas o painel não contempla mutações de tumores como cabeça e pescoço, cuja genética conhecemos muito pouco”, disse a cientista. “Não há droga-alvo para esse tipo de tumor, que continua sendo tratado com quimioterapia, radioterapia e cirurgia.”

O genoma do tumor é decifrado em sequenciadores de última geração no laboratório de Camargo, que ocupa 350 metros quadrados. A metragem não inclui o centro de bioinformática, onde os dados são processados antes de chegarem ao computador da pesquisadora na forma de uma planilha que aponta quais mutações aquela amostra apresenta, e quais as alternativas terapêuticas disponíveis.

O resultado do exame pode apontar que o paciente é suscetível a cerca de 120 tratamentos disponíveis no Brasil ou no exterior. Estão incluídas na lista algumas drogas da classe dos imunoterápicos – medicamentos que, em vez de atacar as células tumorais, estimulam o próprio sistema de defesa do indivíduo a eliminar o câncer. Nos últimos anos, tais fármacos, aprovados para tumores como os de pele e pulmão, foram saudados como uma novidade alvissareira, mas funcionam apenas numa pequena parcela dos pacientes. Os cientistas ainda não sabem explicar por quê, e os painéis de genes têm trazido pistas para a resposta. “Temos visto que os tumores com mais alterações genéticas respondem melhor à imunoterapia”, disse Camargo.

Em casos de câncer colorretal, o painel de genes pode prever se um paciente responderá bem à quimioterapia ou à radioterapia. Se o resultado indicar que elas não surtirão efeito, o paciente pode ser encaminhado diretamente para a cirurgia, sem o ônus dos custos e do desgaste com o tratamento inócuo.

Camargo contou que alguns hospitais brasileiros enviam amostras para o exterior para fazer testes similares ao que ela está desenvolvendo – um procedimento cujo custo se conta em quatro dígitos e cujo resultado pode demorar dois meses para chegar. O painel de genes já foi testado em doze pacientes do Sírio-Libanês e teve desempenho similar ao de concorrentes estrangeiros. “Nossos resultados são equivalentes e até melhores, porque nosso painel é mais abrangente que os oferecidos lá fora”, disse a pesquisadora.

A ideia de criar uma versão própria do painel de genes tinha como objetivo diminuir o custo e o tempo gasto pelo procedimento. Dominar a tecnologia, continuou Camargo, permite mantê-la atualizada com as descobertas que, na genética do câncer, surgem a cada dia. “Queremos ter a autonomia de incluir no painel um gene associado a uma nova droga-alvo que possa sair amanhã”, explicou.

Além do painel de genes, a equipe de Camargo está trabalhando na criação de outro método de diagnóstico molecular de câncer baseado no perfil genético do tumor. São as chamadas biópsias líquidas, que permitem monitorar a progressão da doença a partir da identificação de traços do DNA do tumor que circulam em quantidade minúscula no sangue. “É possível detectar se o tumor está crescendo ou diminuindo, se o paciente está respondendo bem ao tratamento ou se está adquirindo resistência a ele”, disse a cientista. O método dispensa, portanto, a amostragem direta do tumor feita nas biópsias convencionais, que podem ser procedimentos invasivos.

Em certos casos, as biópsias líquidas permitem ao médico identificar a progressão da doença em escala molecular antes que ela se manifeste no quadro do paciente. Isso pode significar a detecção precoce de uma metástase, ganhando tempo precioso para a contraofensiva. “Há casos em que a biópsia líquida detectou o aumento de um tumor três ou até seis meses antes de o clínico conseguir vê-lo na imagem”, disse a geneticista.

Em junho de 2000, cientistas vieram a público declarar que haviam conseguido soletrar os mais de 3 bilhões de letras que compõem o genoma humano. (Era ainda um rascunho: a sequência só foi apresentada na íntegra três anos depois.) Quem fez o anúncio foi o próprio presidente americano, Bill Clinton, em Washington, com a participação via satélite do premiê britânico Tony Blair, de Londres. O feito foi celebrado como o marco de uma nova era para a medicina. “Agora é possível que nossos filhos e os filhos de nossos filhos venham a conhecer o termo câncer apenas como uma constelação de estrelas”, Clinton disse ao colega britânico.

O presidente carregou um pouco nas tintas, mas é fato que o sequenciamento do genoma humano deu impulso a uma terapêutica orientada cada vez mais pelas características genéticas de cada indivíduo. É o que os especialistas chamam de medicina personalizada, ou de precisão. Numa definição recorrente, ela é descrita como o conjunto de práticas para fornecer “o tratamento certo, na dose certa, para o paciente certo, na hora certa”. Nesse aspecto, ela se distingue das terapias convencionais oferecidas indistintamente a todas as pessoas, como se fossem roupas de tamanho único. Os limites desse modelo ficam evidentes no caso do câncer, em que a taxa de eficácia dos medicamentos não passa de 25%, de acordo com dados da FDA, a agência norte-americana que regula a entrada no mercado de novos medicamentos.

Dezessete anos após o anúncio de Clinton e Blair, a medicina personalizada virou uma realidade para certos pacientes – ao menos aqueles capazes de bancá-la. Houve exemplos anteriores de práticas médicas inspiradas por esse conceito, mas ela só floresceu para valer com o entendimento dos mecanismos moleculares do câncer. Avanços significativos foram feitos em duas frentes paralelas e interdependentes: de um lado, a descoberta de mutações que levam ao câncer e de drogas voltadas para agir sobre seus mecanismos moleculares; do outro, o desenvolvimento de métodos de diagnóstico para avaliar quais pacientes apresentam aquelas mutações e podem se beneficiar dos tratamentos-alvo.

Avaliar quem poderá ser favorecido por uma terapia individualizada é a frente em que a equipe de Anamaria Camargo vem concentrando seus esforços. Quando perguntei se ela achava que a medicina personalizada ainda estava engatinhando, a cientista discordou. Disse que já estamos dando os primeiros passos, e ressaltou que o panorama é mais promissor para alguns tipos de câncer. “Para certos tumores ela pode estar ainda na fase uterina, mas para outros, como o pulmão, já estamos correndo como o Usain Bolt”, comparou.

É o caso, também, do tumor de mama. Desde os anos 90 os cientistas sabem quais mutações nos genes BRCA podem aumentar o risco de desenvolver câncer – e conseguem, de posse dessa informação, orientar estratégias de combate e prevenção. Ficou célebre a cirurgia da atriz americana Angelina Jolie, que em 2013 retirou ambas as mamas depois que um teste genético revelou-lhe ser portadora de uma mutação que tornava quase uma certeza o risco de desenvolver câncer. Mais recentemente os cientistas identificaram também mutações associadas a terapias-alvo para esse tumor. É o caso do trastuzumabe, voltado para pacientes com câncer de mama que apresentam mutação no gene HER2.

“Não é que a medicina de precisão vá acontecer: ela já aconteceu”, disse o oncologista Carlos Gil Ferreira numa entrevista em seu consultório, em Copacabana, num hospital do Grupo Oncologia D’Or. Ferreira contou que, quatro anos atrás, participou em Amsterdã de um encontro de especialistas e previu que as biópsias líquidas demorariam ao menos cinco anos para chegar ao mercado. Dois anos e meio depois, porém, já havia testes disponíveis comercialmente. “Aconteceu em metade do tempo que eu imaginava”, espantou-se.

No hospital em que atende, da rede privada, o médico faz uso corriqueiro das ferramentas de diagnóstico molecular. “Quando vejo um paciente com um câncer de pulmão inoperável, não dou um passo sem ter uma análise genética do indivíduo”, disse Ferreira. “Com isso entendo como vou tratá-lo e consigo dar a ele e à família um prognóstico.” Mas o oncologista tem consciência de que essa é uma realidade vedada a boa parte da população. “A medicina de precisão, como tudo no Brasil, é dividida em castas e não é ampla nem democrática”, disse ele. “Para alguns, você tem uma medicina parecida com a dos Estados Unidos ou da Europa, mas para os 72% da população que não têm plano de saúde, o cenário é de total falta de acesso.”

Em 2014, a venda de medicamentos com algum componente personalizado movimentou 95 bilhões de dólares, ou um décimo do que girou todo o setor farmacêutico global, de acordo com dados da indústria. Dentre as drogas-alvo, o campeão de vendas foi o trastuzumabe, para câncer de mama. A dose custa 1 800 dólares, ou 5 600 reais; o custo total do tratamento pode chegar aos seis dígitos. Sob o nome de Herceptin, o fármaco vendeu mais de 5 bilhões de dólares em 2014 e ficou entre os quinze mais vendidos naquele ano.

Para os pacientes brasileiros que podem custear os novos tratamentos, a oncologia personalizada já está disponível. Exames como o que motivou Angelina Jolie a se submeter à mastectomia estão disponíveis desde o século passado, e hospitais particulares começam a oferecer métodos de diagnóstico molecular. Alguns enviam amostras para análise no exterior, mas o Brasil tem laboratórios como o Progenética, no Rio de Janeiro, ou o Mendelics, em São Paulo, que oferecem exames com tecnologia desenvolvida no exterior, a um custo que pode passar de 5 mil reais.

Na parede de seu gabinete, Anamaria Camargo pendurou a reprodução de uma foto histórica, na qual o americano James Watson manuseia um modelo tridimensional de uma molécula de DNA. Em artigo de pouco mais de uma página publicado em abril de 1953 na revista Nature, ele e o colega inglês Francis Crick haviam proposto que essa molécula, que armazena a informação genética da célula em todos os seres vivos, seria disposta sob a forma de duas fitas enroscadas uma na outra em espiral, um modelo que ficou conhecido como “dupla hélice”.

Com a descoberta, Watson e Crick mostraram em nível molecular como se transmitiam os traços hereditários. Os genes não passavam de trechos da molécula de DNA e podiam ser descritos pela sequência de bases que os compunham (uma sucessão de letras A, T, C e G). A informação genética agora tinha um alfabeto, e era uma questão de tempo até que os cientistas soubessem soletrá-la.

Camargo acompanhou de camarote o desenrolar dessa revolução. A paulistana entrou na graduação em ciências biológicas da USP em 1990, mesmo ano em que foi lançado o projeto de sequenciamento do genoma humano. Depois do doutorado, no qual estudou genes do parasita causador da malária, foi convidada por Andrew Simpson, biólogo britânico radicado no Brasil, a se juntar a ele no Instituto Ludwig, do qual era diretor de pesquisa.

No fim do século passado, Simpson foi uma peça-chave do ambicioso projeto de capacitar uma rede de laboratórios paulistas com a última palavra em tecnologia genômica. Com um aporte de 12 milhões de dólares dados pela Fapesp, a fundação estadual de amparo à pesquisa, montou-se uma rede virtual de quase 200 pesquisadores espalhados em instituições de todo o estado. O primeiro resultado veio em três anos, com o sequenciamento do genoma da Xylella fastidiosa, a bactéria responsável pela praga do amarelinho nos laranjais. O trabalho foi publicado em fevereiro de 2000 na Nature – era a primeira vez que o renomado periódico britânico dedicava a capa a um estudo brasileiro. Naquela época, a Xylella atacava cerca de um terço das laranjeiras de São Paulo e do Triângulo Mineiro. Dezesseis anos depois, a incidência da praga havia diminuído para apenas 3% dos pés de laranja, graças em parte ao conhecimento de seu genoma.

Outro legado duradouro do projeto foi a consolidação de uma rede de laboratórios de ponta em biologia molecular que elevou o prestígio dos cientistas paulistas. Anamaria Camargo estava entre o seleto grupo de pesquisadores recebidos no Palácio do Planalto pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso após o sequenciamento da Xylella. A geneticista se lembra de que o mandatário conversou individualmente com cada cientista e quis saber detalhes do projeto. “A gente vê a Seleção Brasileira reconhecida o tempo todo, mas os avanços científicos nem sempre são prestigiados”, disse.

Camargo manifestou seu espanto com os avanços da tecnologia de sequenciamento de DNA nas últimas duas décadas. Foram necessários treze anos e 2,7 bilhões de dólares para que o primeiro genoma humano fosse soletrado. Hoje, é possível fazer a mesma tarefa em até dois dias, e há companhias que prometem realizá-la a um custo inferior a mil dólares. “Jamais poderia imaginar que, dezessete anos após a publicação do primeiro genoma humano, eu estaria sequenciando dezenas de genomas em meu próprio laboratório”, disse a geneticista, de olho na foto de Watson.

O barateamento da tecnologia foi fundamental para o impulso recente da medicina personalizada aplicada ao câncer. Sem isso, painéis de genes e biópsias líquidas seriam acessíveis a um número ainda menor de pacientes. “Quando o genoma humano foi sequenciado, havia uma grande expectativa de como isso iria melhorar a vida das pessoas”, lembrou Camargo. “Os pesquisadores da minha geração estão tendo o privilégio de finalmente desenvolver aplicações que consigam atender a essas expectativas.”

Um colega de geração com trajetória muito parecida com a de Anamaria Camargo é o geneticista mineiro Emmanuel Dias-Neto. Como a colega paulistana, Dias-Neto começou estudando genes de um parasita – no caso dele, o verme causador da esquistossomose – e foi recrutado por Andrew Simpson para um pós-doutorado no Instituto Ludwig. Trabalhando com o inglês, Dias-Neto aperfeiçoou um método que havia desenvolvido no doutorado, numa unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Belo Horizonte, para identificar genes do parasita. Batizada de Orestes, a técnica foi adaptada para uso com DNA humano e amplamente adotada numa iniciativa para sequenciar genes ativos nos tumores – um desdobramento do projeto da Fapesp que havia concluído o genoma da Xylella. “A técnica permitiu descobrir muitos genes ativos em tumores de relevância mundial, como mama, cólon ou pulmão”, disse o pesquisador.

Assim como Anamaria Camargo, Dias-Neto também fez carreira conduzindo pesquisa em hospitais, em diálogo com o corpo clínico – desde 2009 ele é pesquisador do A. C. Camargo, em São Paulo. Trabalhando em proximidade com os médicos, seu grupo de pesquisa vem avaliando como certas alterações no câncer de pulmão ou mama, por exemplo, determinam a agressividade da doença. Tumores gástricos, em especial, são um dos atuais interesses de pesquisa de Dias-Neto. À frente de um amplo projeto dedicado ao tema, o geneticista está em busca de marcadores moleculares que ajudem a prever a evolução do tumor e a resposta do paciente ao tratamento. Quer entender também por que um subtipo mais agressivo de tumor de estômago está se tornando mais comum, e se as bactérias que cada um apresenta no sistema digestivo influem de alguma forma na predisposição ao câncer e na resposta do indivíduo ao tratamento. “Essa é uma perspectiva extremamente interessante para a medicina de precisão”, animou-se o cientista.

Para o pesquisador mineiro, os avanços no conhecimento dos mecanismos do funcionamento dos genes permitiram dar à sua disciplina um rigor quantitativo característico das ciências exatas. “A genômica é o momento em que a biologia mais se aproxima da matemática”, ponderou Dias-Neto. Mas o pesquisador tenta conter o otimismo, lembrando que muitas das promessas anunciadas quando foi sequenciado o primeiro genoma humano eram ingênuas. “Não tínhamos ideia da variedade do nosso genoma, e descobrimos uma complexidade tremenda.” Ainda assim, ele aposta que em breve chegará o dia em que o sequenciamento do genoma inteiro de um paciente fará parte do seu prontuário médico – e não mais apenas o teste de sequências específicas, como propõem os painéis de genes. “Quem nascer daqui a cinco ou dez anos e não tiver seu genoma sequenciado será um estranho no ninho”, aposta o geneticista.

Embora testes e medicamentos talhados para o perfil genético de cada paciente já estejam ao alcance da parcela mais abastada da população, universalizar o acesso a esses procedimentos talvez seja o maior desafio enfrentado pelos gestores da saúde. Para decidir se procedimentos novos e custosos serão incorporados aos sistemas públicos, os técnicos fazem cálculos que avaliam se os benefícios compensam os gastos. Quando isso acontece, eles dizem que um determinado tratamento é “custo-efetivo”, lançando mão de um anglicismo que quer dizer “economicamente viável”.

Cálculos como esse podem soar como uma matematização fria do direito à vida, mas, num cenário de cobertor curto, o acesso indiscriminado a drogas caríssimas pode fazer com que faltem recursos para medicamentos menos custosos e que beneficiam um número maior de pacientes. “Os custos incrementais de novas tecnologias muitas vezes não são proporcionais aos ganhos alcançados em termos de sobrevida e qualidade de vida”, explicou o oncologista Carlos José Coelho de Andrade, do Instituto Nacional de Câncer, num e-mail enviado à piauí.

A viabilidade de um determinado tratamento, no entanto, pode variar a depender do alcance do olhar de quem fizer o cálculo. Um estudo do BNDES notou que a incorporação de procedimentos da medicina personalizada no sistema de saúde provavelmente aumentaria os custos num primeiro momento, mas no fim das contas talvez fosse proveitosa. “É possível que a longo prazo haja ganhos para o sistema, caso de fato se verifique a redução de internações e de utilização de medicamentos desnecessários, contribuindo para melhorar a relação custo-efetividade dessas novas tecnologias”, concluiu o documento.

Outros países estão se preparando para a nova realidade. No fim de 2014, o equivalente britânico do SUS lançou um plano de ações para implantar procedimentos de medicina personalizada até o fim da década. No ano seguinte, o então presidente americano Barack Obama anunciou um plano de ação de 215 milhões de dólares – cerca de 661 milhões de reais – para estimular a medicina de precisão. Os recursos seriam usados, sobretudo, para a criação de um grande banco de dados clínicos e genéticos de uma amostra da população americana, e para a triagem de candidatos a novos tratamentos-alvo.

No Brasil, em contrapartida, não se vê movimentação parecida por parte do governo federal – e a restrição ao aumento dos gastos públicos com saúde nos próximos vinte anos não estimula investimentos como os que foram feitos na Inglaterra e nos Estados Unidos. “Não tem ninguém olhando tudo de cima e pensando em como transformar o que está aí numa estratégia de saúde e econômica útil para o país”, queixou-se Carlos Gil Ferreira, do Grupo Oncologia D’Or. Ele acredita que os gestores de saúde perderão o bonde da história se não superarem a discussão sobre a viabilidade dos novos procedimentos. “O Brasil ainda não se tocou de que está em curso uma mudança da medicina como um todo”, afirmou.

O oncologista defende que o país adote uma política de Estado que o prepare para a nova realidade – e crie mecanismos para que ela não esteja acessível apenas às elites. Para isso, acredita Ferreira, é preciso repensar não só a forma como se financia a saúde e se disponibilizam os tratamentos, mas a própria formação dos profissionais. “Os médicos que saem da residência em oncologia no Brasil hoje não foram treinados para isso”, afirmou. As recomendações para que o país se prepare para a nova era da medicina foram sistematizadas num artigo publicado no ano passado no periódico The Lancet Oncology, assinado por ele e outros cinco colegas.

O painel de genes e as biópsias líquidas que a equipe de Anamaria Camargo vem desenvolvendo foram testados em caráter experimental num número limitado de pacientes. O Sírio-Libanês pretende oferecê-los comercialmente a partir do ano que vem, com preço a ser determinado. “Mas o que todos me perguntam é quando isso vai chegar ao SUS”, disse a geneticista. “É difícil dizer. Tem que levar essa pergunta a Brasília.”

A piauí seguiu a recomendação e solicitou ao Ministério da Saúde informações sobre a adoção de exames e medicamentos para o câncer surgidos no âmbito da medicina personalizada. A oncologista Maria Inez Gadelha, destacada pelo ministério para uma entrevista, explicou que a entrada de novos medicamentos e exames no sistema público é julgada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Para apreciar cada pedido, continuou a médica, a comissão leva em conta fatores como as evidências científicas da ação do medicamento, o contingente da população que se beneficiará com seu uso e a viabilidade econômica. “São os mesmos critérios usados no sistema de saúde de países como Canadá ou Suécia”, afirmou.

Gadelha lembrou que o conceito da medicina personalizada é antigo e que o SUS já adota alguns de seus procedimentos para tratar o câncer e outras doenças. Um exemplo é o teste que avalia se pacientes com câncer de mama têm a mutação no gene HER2. “Esse teste é feito na rede pública há muito tempo”, disse a oncologista. O uso do trastuzumabe – droga-alvo associada à mutação desse gene – também está disponível pelo SUS desde 2012.

A rede pública ainda não oferece, no entanto, exames como os que vêm sendo desenvolvidos pela equipe de Anamaria Camargo. Gadelha acredita que eles acabarão por ser incorporados ao SUS, mas isso ainda deve demorar. “No caso das biópsias líquidas, por exemplo, ainda temos que percorrer um longo caminho para demonstrar sua validade como método preditivo e orientador de tratamento”, afirmou. O mesmo vale para os painéis de genes: “É preciso comprovar com evidências científicas a sua validade e a sua utilidade.”

Anamaria Camargo investiga o funcionamento do genoma no câncer, mas suas pesquisas têm um impacto direto na vida dos pacientes que se beneficiam das aplicações clínicas desse conhecimento. Indagada sobre se alguma dessas dimensões do seu trabalho a motiva mais, ela respondeu que prefere não traçar a distinção entre ciência básica e aplicada. “Se a pesquisa for boa, ela me motiva”, disse. “Entender a estrutura do genoma me deixa satisfeita, mas também fico muito feliz quando um teste beneficia um paciente.”

Falando por mais de duas horas sobre a biologia do câncer, Anamaria Camargo só abandonou o tom animado quando abordou as limitações da medicina personalizada. Lembrou que a promessa de um tratamento específico adequado ao perfil genético do tumor nem sempre se cumpre. “Depende de o paciente ter uma mutação para a qual exista uma droga”, continuou. E isso não basta: pode ser também que exista uma terapia-alvo, mas que ela ainda não tenha sido aprovada para uso no Brasil. “O número de pacientes que se beneficiam efetivamente desses testes ainda é pequeno”, disse a geneticista. Para os casos em que o teste não apontar uma terapia-alvo disponível, o combate ao câncer continuará baseado na trinca de estratégias convencionais – quimioterapia, radioterapia e cirurgia. “Falamos em medicina personalizada, mas isso não quer dizer que tenhamos solução para todo mundo”, afirmou Camargo.