Notícia

Gazeta Mercantil

No álcool, o que está escrito não vale

Publicado em 22 fevereiro 2006

Os bilionários sócios do Google, além do empresário Bill Gates - que manifestaram grande interesse em fazer investimentos em produção de álcool -, devem estar tão surpresos com os últimos acontecimentos sobre este combustível quanto o consumidor brasileiro. Neste mês, mesmo depois de um acordo envolvendo vários ministérios e usineiros para conter a escalada de preço, o produto continuou a subir, sem parar. O litro de anidro fechou a R$ 1,072 na semana passada, aumento de 2,5% em relação à semana anterior. O hidratado subiu 3,3% na mesma comparação.
O consumidor final "pagou o pato". Pesquisa da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostrou que na semana passada a cotação média do produto foi de R$ 1,761, aumento de 41%, desde o piso da safra, em junho.
O governo reagiu. No acordo de janeiro os usineiros se comprometeram a cobrar até R$ 1,05 pelo litro do álcool anidro, que é adicionado à gasolina. Porém, a cotação média do combustível já bateu em R$ 1,07 nas usinas. O governo deve retaliar, reduzindo de 25% para 20% o percentual de mistura do álcool anidro. A União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica), que representou os usineiros no acordo, contra-atacou mencionando "desabastecimento" caso o governo insista em medidas artificiais para manter o R$ 1,05 por litro.
A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não concordou com o acordo assinado em janeiro com os usineiros, porque estes partiam do princípio de livre mercado para discutir álcool. Para a ministra, a ausência de Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (CIDE) e a cobrança diferenciada de IPI para carros a álcool inibem o uso do conceito. Para os empresários, o mercado era livre e o acordo de preços não podia ser feito. O pacto só foi assinado sob fiança do ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura.
A rigor, o acordo não foi cumprido. Os usineiros não deram garantia de produção de 850 milhões de litros para evitar escassez no Centro-Sul em março e abril. O governo hesita em formar estoques estratégicos (um custo de R$ 300 milhões), quando faltam dois meses para o final da entresafra. O secretário-geral da Unica, Fernando Moreira Ribeiro, afirmou que os usineiros avaliaram que a intervenção nos preços do governo em janeiro e fevereiro (com a definição de teto de R$ 1,05) fez com que o setor "deixasse de faturar R$ 400 milhões a R$ 500 milhões".
Este quadro é injusto com o consumidor brasileiro. O aparecimento dos carros flex e o interesse estrangeiro pelo álcool levaram à multiplicação dos investimentos em usinas no Brasil. A Unica estima que nos próximos cinco anos devem entrar em operação 89 novas usinas. O governo também colaborou nesse esforço: só em 2005, o BNDES emprestou R$ 1,15 bilhão para a construção dessas usinas. Neste ano, está previsto o dobro desse desembolso para o setor. A demanda projetada é de 27 bilhões de litros de álcool em 2010. Até 2002, o País exportava pouco mais de 200 milhões de litros de álcool. Na safra 2004/05 foram vendidos no mercado externo 2,58 bilhões de litros.
Acompanhar a pressão da demanda não é só questão de mercado e preço. Apesar de todas as conquistas, a competitividade do álcool brasileiro ocorre com o aproveitamento de apenas um terço do seu potencial. Um centro de pesquisa privado, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), mostrou que, com a otimização do processo de queima do bagaço para gerar energia, seria possível produzir 12.050 litros de álcool por hectare de cana. Hoje, esta produção é de apenas 6,5 mil litros por hectare. Há muito a fazer, portanto, para melhorar produção e obter margens melhores no produto.
Em nenhum momento, em toda esta escalada de preços do álcool, o consumidor interno foi respeitado. Ele apostou de novo na tecnologia flex (como já fizera na era Proálcool) e não está recebendo a proteção devida pelo Estado. E não há garantia de que em abril, quando a entresafra acabar, os preços do produto na bomba voltem ao que eram em novembro. Neste aspecto, os acordos desrespeitados não sugerem nenhum otimismo.