Notícia

Jornal da USP

Ninguém escuta rap. Ou alguém aí escuta?

Publicado em 03 fevereiro 2014

Por Monica Amaral e Alexandrino Nunes

Em outubro do ano passado a Folha de S. Paulo publicou uma matéria referente à pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) sobre o hábito de consumo e de escuta dos diferentes estilos musicais veiculados no rádio. A pesquisa associa o estilo musical à origem social dos entrevistados (moradores das principais capitais e regiões metropolitanas do País). De acordo com esse levantamento, o sertanejo é o estilo mais ouvido por todas as classes no rádio. Já o funk é o menos escutado pelas classes A e B e o mais ouvido pelas classes média e pobre (C, D e E).

Quanto ao rap, acredite: ninguém escuta no rádio! Pelo menos é isso que a pesquisa do Ibope demonstrou. O rap sequer é citado. Desconhecemos as perguntas formuladas aos entrevistados, o que torna impossível saber se elas contemplavam ou não o rap.

No estudo acadêmico denominado “Rappers, os novos mensageiros urbanos na periferia de São Paulo: a contestação estético-musical que emancipa e educa”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que vimos realizando na Faculdade de Educação (FE) da USP desde 2010, entrevistamos aproximadamente duas dezenas de rappers paulistas, com destaque para alguns dos expoentes do rap paulista e nacional, como Mano Brown, Nelson Triunfo, King Nino e Dexter, entre outros.

Trabalhamos igualmente com centenas de jovens de escolas públicas da periferia de São Paulo. Os elementos do hip-hop – o rap, o break e o grafite, dentre outros – , assim como os de culturas ancestrais, como a capoeira, são considerados elementos fundamentais para a construção de um saber significativo e culturalmente relevante. Tanto os rappers quanto esses jovens atribuíam suas trajetórias ao permanente contato com o rap, seja ouvindo no rádio, seja indo a bailes e shows.

Na classe alta – O rap é hoje tema de abertura e trilha sonora de telenovelas nacionais, com aparição recorrente em programas de auditórios de TV, bem como nos backgrounds de peças publicitárias e de programas de rádio. Vê-se, a olho nu, o rap incorporado nesses produtos de excelência da indústria cultural e do apelo ao consumismo. Não é possível que ninguém o escute no rádio.

Se considerarmos ainda que em seus depoimentos os astros do rap, oriundos na sua maioria de favelas, afirmam sempre que foram salvos do crime por ouvirem e fazerem rap, veremos que muito mais gente ouve rap no rádio do que se possa imaginar. A sensação que fica é que ou a pesquisa descartou o rap, ou a pergunta sobre o rap foi mal formulada. E se assim o foi, resta saber com que intenção.

As mesmas classes que dizem não ouvir rap no rádio são o exemplo aperfeiçoado da hipocrisia e do cinismo de nossa sociedade. No espaço público fingem ouvir um determinado estilo musical, mas no espaço privado ouvem, sim, rap.

Recentemente a própria Folha de S. Paulo noticiou (em setembro de 2013) – sob o título “Racionais fazem show expresso para mauricinhos na zona sul de SP” – que em show do grupo de rap Racionais MC’s, na casa noturna Royal Club, zona sul de São Paulo, jovens das classes alta e média alta abarrotaram os estacionamentos vizinhos com seus Porsche, Mercedes Benz, Ferrari e Ranger Rover. Em seguida se espremiam e se acotovelavam dentro da referida casa noturna para ver e ouvir a música dos Racionais. Alguns inclusive sabiam de cor as letras e refrãos.

Se o Ibope fizesse uma pesquisa depois do show, certamente esses jovens diriam que não ouvem rap, mas que estudaram antes as letras para não ficarem perdidos no show. E hipocritamente a sociedade seria induzida a acreditar que jovens da classe alta estudam as letras e músicas dos shows de que participam. O mesmo Brasil que, como bem lembrou Cazuza, tem dificuldade em mostrar a cara pelo visto tem facilidade em mostrar a hipocrisia e o cinismo.

Expansão – Infelizmente, a pesquisa do Ibope parece, uma vez mais, ter caído na hipocrisia e cinismo de nossa sociedade, ao reproduzir e ampliar os ecos do pensamento branco e patriarcal que considera de baixo valor tudo aquilo que é produzido por outras classes. Esse mesmo pensamento branco constitui-se hoje numa perversa instituição elitista, que com todas as forças e métodos tenta sempre, de forma muito desigual, abolir a massificação de culturas nascidas fora de seus circuitos habituais.

Logo, a pesquisa do Ibope, ao deixar transparecer que o rap não é escutado pela sociedade, cria um fato estranho e vergonhoso. É uma atitude que só vem reafirmar o quanto determinadas classes pautadas pelo pensamento branco da cultura patriarcal e senhorial ainda resistem em aceitar a conviver com aquilo que é culturalmente produzido pelas classes ditas inferiores e pobres.

O rap é hoje uma cultura de e para as massas, que vai se expandindo largamente para os mais diversos estratos da sociedade. Basta ir à porta de colégios de classes média, média alta e alta para ver o quanto jovens adolescentes bem-nascidos se deleitam com o estilo musical dos manos da quebrada, como são chamados os rappers. Basta ir às casas de show para ver como o rap invadiu esses espaços. Na periferia os bailes são pontuados pelo rap. Basta, naquele domingo em que quase toda família está reunida em casa, apertar o controle remoto da TV para ver os programas dominicais, sobretudo os de auditório – que, vencidos pelo gosto popular, e talvez a contragosto, têm levado o rap para seus palcos.
Vários são os músicos consagrados que têm feito duetos com rappers. A parceria recente entre o astro da MPB Caetano Veloso e o jovem rapper Emicida é a prova mais cabal disso – para não mencionar outros casos e exemplos. Portanto, o rap é, sim, escutado no rádio. E cada vez mais escutado por todas as classes.

Monica Amaral é professora da Faculdade de Educação (FE) da USP e coordenadora do projeto de pesquisa “Rappers, os novos mensageiros urbanos na periferia de São Paulo: a contestação estético-musical que emancipa e educa”
Alexandrino Nunes é mestrando na FE. Ouve, pesquisa e gosta de rap