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Kalá

Neymar, o filósofo e a paz no futebol

Publicado em 03 janeiro 2013

O jornal Agora trouxe uma declaração do jogador Neymar, do Santos, que se faz merecedora de atenção, pois toca no importante tema da rivalidade no futebol.

Talvez, nem ele tenha refletido bem sobre o que disse, mas suas sábias palavras foram as seguintes: “Rivalidade, a brincadeira tem que existir, se não futebol não tem graça, tem que zoar mesmo, é brincadeira. Não tem questão de ficar bravo, futebol é assim, um sacaneando o outro” (15/12/12, p. B11).

Lendo isso, você, prezado(a) leitor(a), não pensa – assim como eu – que Neymar está corretíssimo em sua afirmação?

Pois bem, vamos adiante. O filósofo brasileiro Demerval Saviani, da Unicamp, ao prefaciar o livro Futebol e violência, de Heloísa Reis, renomada estudiosa, também da Unicamp, escreve que “o futebol, por essência e por definição, exclui a violência”. E mais: segundo Saviani, “Levar na esportiva significa não cair em provocações, reagir com bom humor. Tem espírito esportivo quem sabe ganhar ou perder com classe, com elegância” (Ed. Armazém do Ipê/Fapesp, 2006, p. XVI).

Perdoe-me o (a) leitor(a) se insisto em perguntar: Saviani não tem razão ao escrever o que escreveu no prefácio do livro de Heloísa Reis? Seu pensamento, enquanto filósofo profissional, e o de Neymar, estrela do futebol, mas também naturalmente filósofo – como todos somos –, não se unem nesse ponto?

No entanto, as falas de Neymar e de Saviani parecem ficar muito, mas muito aquém do que algumas vezes ocorre em partidas futebolísticas, no Brasil ou no exterior, uma vez que nelas predomina a rivalidade doentia e menosprezadora do próprio ser humano.

Com efeito, Aristóteles, falecido em 322 a.C., definiu o homem como um “animal racional”, ou seja, à diferença dos outros animais, ele conta com a razão. Esta deve, portanto, estar sempre no centro do nosso viver a fim de controlar – ou até, algumas vezes, frear – a vontade e a sensibilidade.

Contudo, vai aqui uma pequena, mas significativa prova de que a sadia rivalidade – controlada pela razão – pode facilmente ser deixada de lado: com meses de antecedência, grupos de “torcedores” (sim entre aspas) planejam brigas violentíssimas contra os rivais. Estes, nessa ocasião, são transformados em inimigos mortais e as ruas, as rodovias, ou as estações de trens e metrôs, os terminais de ônibus ou os interiores desses veículos de transporte público se tornam ambientes de guerra. São as famosas “pistas”, na linguagem dos torcedores organizados, que podem acontecer de um encontro fortuito ou ser marcado pela internet ou rádio (nextel).

Se a situação é mais ou menos essa, algumas perguntas se impõem: que fazem os dirigentes de torcidas ante os seus associados brigões: Estimulam? Punem com séria expulsão? Dizem, depois das tragédias – à moda do ex-presidente Lula –, que não sabiam de nada e tudo fica por isso mesmo?

E as autoridades (especialmente o serviço da inteligência da Polícia e o Ministério Público) vasculham a internet ou interceptam, com ordem judicial, os rádios? Se não fazem, perguntamos a razão; se fazem, gostaríamos de conhecer os resultados obtidos.

Esses são alguns questionamentos a serem levantados ante a declaração do jogador Neymar, às portas da “Copinha São Paulo”, uma vez que também ela não está isenta de encrencas. Encrencas que com um pouco de vigilância e de boa vontade diminuiriam muito ou sequer aconteceriam. Com a palavra e a com a ação quem de direito!

Vanderlei de Lima é filósofo e escreveu, em coautoria, o livro "O protagonismo das torcidas organizadas na promoção da paz".