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Com Ciência

Newton Sabino Canteras

Publicado em 10 dezembro 2012

Por Vânia Novelli

Para o neurofisiologista Newton Sabino Canteras, quando uma pesquisa de ponta aqui no Brasil consegue alcançar um patamar interessante, internacionalmente, é uma vitória. “É uma coisa libertária”, avalia. Ele é um dos que pode comemorar essa conquista. A pesquisa conduzida por Canteras sobre os diferentes circuitos neurais que atuam frente a diferentes tipos de medo - o inato, o adquirido e o social -, foi capa da edição de setembro deste ano da revista Nature. Antes disto, a literatura científica apontava que todos os medos eram processados na mesma área do cérebro. Mas Canteras provou que não é bem assim. Médico graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em fisiologia humana, atualmente ele é professor titular do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfofuncionais. Canteras tem experiência na área de neuroanatomia funcional, com ênfase no estudo das bases neurais dos comportamentos motivados. Nesta entrevista, ele fala à ComCiência um pouco a respeito de suas pesquisas sobre o medo e acerca do que é fazer ciência no Brasil.

O que despertou o interesse do senhor e de sua equipe pelo estudo do medo?

Newton Sabino Canteras - Existe no estado de São Paulo um grupo bem conceituado e já conhecido, liderado pelo professor Frederico Graeff (da USP de Ribeirão Preto), que vem estudando essas questões de ansiedade e medo já há muito tempo. Ele é um líder na área, um pesquisador de alto renome na comunidade e foi, na verdade, inspirado por ele e pelos trabalhos dele que comecei entrar nesta linha (de pesquisa). Eu sou um neuroanatomista, e a partir de um determinado momento eu comecei a fazer estudos de como os circuitos neurais mediavam comportamentos diversos. Aí me pareceu interessante começar a entrar nessa questão de medo, fazer estudos com exposição de cobaias (ratos). Então, foi assim que começou.

Segundo os resultados das pesquisas, nós podemos falar em medos inatos e medos adquiridos?

Canteras - Exatamente, nós temos o medo que o animal aprende e o que ele tem (biologicamente). Se você imaginar um animal na natureza e de repente aparece um predador, ele não tem chance de aprender, ele vai ser comido pelo predador. Então, ele tem que ter medo. Ele tem uma reação para fugir daquilo, uma reação que tem que ter um alto teor motivacional para ele escapar daquela situação, e isso é uma situação de medo inato. Agora ele (o animal) tem também que evitar o local em que encontrou aquele predador, onde antes era um lugar bom. Então, ele tem o medo aprendido, ele vai saber que naquele local não é para ele ficar brincando muito. Tem o medo inato e o medo aprendido.

Nas pesquisas realizadas com ratos, esses medos se processam em circuitos neurais diferentes?

Canteras - O que existia na literatura científica era que todos os tipos de medo eram modulados, ou organizados, por um mesmo circuito neural. E os pesquisadores chegaram a esse circuito neural fazendo a seguinte situação: eles geravam um estímulo físico agressivo, no caso choque nas patas (das cobaias), e pareavam esse estímulo ao ambiente ou a um estímulo neutro, como um som. Depois de alguns pareamentos, quando o rato era exposto só ao estímulo neutro, ele já apresentava medo; então, se chamava medo condicionado. Eles condicionavam aquela situação a uma outra, agressiva, que gerava medo. A partir daí, fizeram todo um estudo para entender como o medo estava organizado e fizeram uma falsa hipótese de que como o animal reage daquele jeito, fica congelado. Esse congelamento que ele apresenta nessa situação é o mesmo que apresenta diante de um predador. Então, esses medos seriam organizados pelos mesmos sistemas, porque o rato está fazendo a mesma coisa. O que nós fizemos foi o seguinte: inspirados nos trabalhos de Graeff, começamos a trabalhar com outro tipo de medo que é a exposição do rato ao gato, que é o medo natural, e nós identificamos que o sistema neural é completamente diferente. O sistema que está relacionado ao medo do rato ao gato é um sistema completamente diferente ao medo que o animal tinha de tomar um choque. E, mais recentemente, nós vimos um terceiro sistema, que é o medo que o animal tem de enfrentar um coespecífico dominante, agressivo, que é o medo social. Então, definimos primariamente um medo social, um medo antipredatório, de perder a vida, e o medo do indivíduo se machucar, de levar choque.

Qual é a implicação da descoberta de que o medo se processa em diferentes circuitos neurais?

Canteras - É a seguinte: se eu tenho o medo de ir ao dentista porque vou sentir dor, - antes se sentia, porque agora não se sente mais -, então evito. Agora, eu tenho o medo de ser assaltado, porque quando estou sendo assaltado, é um risco de vida que estou correndo, é um outro medo, muito mais forte. Eu tenho medo do risco de perder minha vida. É o mesmo caso se o sujeito estiver, por exemplo, num campo de batalha, ele tem medo de perder a vida. Nós observamos que o medo, numa situação agressiva, tem um papel importante de evitação, mas o medo de perder a vida é que dá o grande trauma. Nós vimos que essas duas circunstâncias são organizadas por sistemas diferentes e, sabendo disso, a gente consegue entender como é que está organizado o estresse pós-traumático. O estresse pós-traumático é um medo aprendido numa situação em que se ia perder a vida. O sujeito, por exemplo, que estava em um campo de batalha, sente cheiro de diesel. Depois de um tempo, ele está na rua e, de repente, passa um jipe. Ele sente cheiro de diesel e tem uma fobia, um medo tremendo, que é o estresse pós-traumático, uma situação muito complicada para os veteranos de guerra. Se eu entender qual é o sistema que rege essa situação, eu vou ser capaz, no futuro, de abordar essa situação melhor do ponto de vista terapêutico.

O senhor acredita que o processo terapêutico sem medicamentos seria capaz de reverter esse estresse pós-traumático?

Canteras - Não é minha área, não opino sobre isso, porque estaria falando sobre uma coisa que não sei.

E na terapêutica com medicamentos, esse conhecimento dos diferentes sistemas neurais envolvidos no processamento dos medos pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos mais específicos?

Canteras - Isso vai favorecer o uso de determinados medicamentos, você melhora a forma de abordagem.

Hoje em dia, a síndrome do pânico cresce bastante entre a população e, às vezes, nem chegou a acontecer uma situação traumática com a pessoa…

Canteras - A síndrome do pânico é uma outra coisa, diferente do estresse pós-traumático. É uma outra patologia, uma disfunção.

A síndrome do pânico não tem relação com suas pesquisas sobre medo inato, social ou apreendido?

Canteras - Não tem relação. É uma disfunção de um medo inato, mas no caso, um medo inato que eu não estudo. Você tem uma coisa na síndrome do pânico que é o sistema de alarme ao sufocamento, e parece que esse sistema é que está desregulado. Isso é uma outra forma de medo.

O que é necessário para essa pesquisa sobre os diferentes tipos de medo, realizada com ratos, ser desenvolvida com seres humanos?

Canteras - Na verdade, com humanos é eticamente muito complicado fazer isso, porque uma das coisas que deveria ser feita com humanos seria causar o medo de uma situação que ameaça o sujeito. Tem gente já fazendo isso. Expõem, por exemplo, o sujeito à seguinte situação: num PET Scan (aparelho de tomografia por emissão de pósitrons), o indivíduo vê uma tarântula, como se a ela fosse mordê-lo; é um jogo de espelhos, na verdade, mas o indivíduo vê e parece que a tarântula está em cima do seu pé e começa a entrar numa situação de medo. Eticamente, é muito complicado. Você não vai chegar com um revólver na pessoa e dizer “eu vou te matar”. Não, você não pode fazer isso, é óbvio. Mas essa história da tarântula já foi feita nos Estados Unidos. E aí o pesquisador faz um estudo para ver que áreas do cérebro humano estão ativadas. Também se pode analisar pessoas que têm estresse pós-traumático numa situação que desencadeia o estresse, e tentar estudar qual é o tipo de circuito, de região que está funcionando e, assim, vai-se ampliando esse estudo para o ser humano.

Podemos dizer que quem mora em bairros muito violentos nas cidades está com a saúde mental vulnerável, ou que saber de um assassinato próximo de casa vai gerar um estresse?

Canteras - Aí é que está. Quantas pessoas vão para a guerra? Muitas. E quantas voltam com estresse pós-traumaático? Uma parcela relativamente pequena.

Então, algumas pessoas são mais suscetíveis a ter estresse pós-traumático?

Canteras - Você pode ter estresse pós-traumático vivendo no Jardim América. O indivíduo sofre um assalto e depois daquilo fica com um estresse pós-traumático…

Como é fazer pesquisa em neurociências no Brasil?

Canteras - Na verdade, a gente tem um apoio muito grande, não posso reclamar. Nem de dinheiro, nem de lugar, nem de apoio, nem de pessoal, nada.

E quais são os maiores apoiadores?

Canteras - A Fapesp, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, é o grande apoiador. O CNPq dá um apoio relativo. A USP, de um modo geral, dá um incentivo muito grande, dá espaço.

E quais são os principais empecilhos à pesquisa no Brasil?

Canteras - A importação. Esse é o grande empecilho, o problema de importação. O problema burocrático é horroroso.

Importação de aparelhos?

Canteras - De drogas, principalmente. Se você quer fazer uma permuta, não consegue. Eu já perdi parcerias na Austrália, porque eu não pude trocar substâncias (fármacos) com eles. Os australianos tinham acabado de isolar um peptídio e eu queria ver o efeito dele no sistema nervoso, mas eles não tinham como me mandar, porque é um entrave absurdo e eu perdi a parceria. E isso acontece com muita gente. Nós estamos isolados do resto do mundo. A Austrália tem uma vantagem (em relação ao Brasil): lá eles falam inglês. A gente tem uma barreira geográfica e uma barreira de língua grande. Com o tempo, ela vai diminuindo, mas para escrever um texto, a gente nunca é um nativo. Então, nosso texto sempre vai ter que, de alguma maneira, ser revisto, a menos que o indivíduo (o pesquisador) tenha morado nos Estados Unidos ou tenha uma fluência muito grande na língua.

Atualmente, aumentou a divulgação de pesquisas de neurociências para o público leigo, inclusive em periódicos de maior circulação.

Canteras - Existe uma parte da divulgação científica que está começando a aparecer mais agora. E, no nosso meio, as pessoas estão fazendo mais pesquisas, de maneira profissional, no Brasil, do que quando eu comecei. A inserção dos grupos brasileiros lá fora é maior. Eu sou de uma época em que, como eu, muitos saíam do país para fazer pós-doutorado. Hoje, meus alunos de doutorado já saíram do Brasil diversas vezes, eles têm uma exposição muito maior a tudo.

Como se fazer uma divulgação científica que faça sentido para o leigo sobre conhecimentos tão avançados e complexos, como o estudo do cérebro?

Canteras - Esta é uma grande pergunta. Eu não tenho resposta para isso.

O senhor acha relevante divulgar pesquisas relacionadas a doenças, distúrbios e transtornos?

Canteras - Não, não é interessante, porque você dá falsas esperanças. No caso da esclerose múltipla, alguém chega na televisão e fala: “com o meu conhecimento, eu melhoro os sintomas da esclerose múltipla, eu fiz isso em ratos e as lesões diminuem e os ratos voltam a andar etc”. Aí você tem o sujeito (espectador) com um filho que tem esclerose múltipla. Quando ele vê aquilo, sente esperança… mas o filho dele vai continuar com esclerose múltipla. É muito complicado. Por isso, eu não sei (o que deve ser divulgado para o público leigo). Eu sou médico. No final da minha residência médica, eu estava cuidando de um paciente que tinha exatamente a mesma idade que eu e que tinha esclerose múltipla, e esse sujeito já bem debilitado tinha uma empatia comigo. Por eu ter a idade dele, ele achava que eu ia curá-lo. Eu não ia curá-lo. Fiquei muito desesperado de ver que eu não podia fazer nada por ele. Isso foi uma coisa muito marcante na minha decisão de carreira. Quando você vai dar uma informação desse tipo (sobre resultados de pesquisas relacionadas a doenças), você tem que tomar muito cuidado com o que fala.

Mas se não divulgarmos o conhecimento científico para o público em geral, ele vai ficar restrito à comunidade de pesquisadores?

Canteras - Na verdade, eu acho que o conhecimento científico tem que ser divulgado, mas estou falando que é difícil fazer isso. E estou falando que não é para qualquer um. E, de novo vou falar, também não é minha área (risos). Eu reconheço a importância, mas não tenho a menor ideia de como se faça.

Para vencermos o abismo cultural entre a comunidade científica e o público leigo, a qualidade da educação faz toda a diferença. É na escola que começa a divulgação científica?

Canteras - 100%! É na escola que a divulgação científica deveria estar começando e de uma maneira palatável aos indivíduos, de uma maneira real e consequente, no sentido de ele saber que um dia vai poder se apropriar daquele conhecimento, que vai poder entrar numa universidade e ser até ele próprio um gerador de conhecimento.