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Neuropatia diabética: Pacientes com o distúrbio seguram objetos com menos força

Publicado em 12 julho 2021

Por Redação

A neuropatia diabética é um distúrbio que acomete alguns pacientes que sofrem com o diabetes. Nele, há o aparecimento de lesões nos nervos periféricos, que podem causar sintomas como dor, formigamento ou perda de sensibilidade, principalmente em pés e pernas.

Em algumas pessoas, as consequências da condição são leves. Em outras, podem ser extremamente dolorosas, debilitantes e até fatais. Por isso, identificar o problema o quanto antes é muito importante.

Agora, resultados de uma pesquisa conduzida na Universidade Cruzeiro do Sul, no Brasil, podem contribuir para o diagnóstico mais precoce da neuropatia diabética. Entenda:

No estudo, o grupo coordenado pelo professor Paulo Barbosa de Freitas Júnior avaliou a força feita por pacientes diabéticos para segurar e manusear objetos. Dessa forma, os resultados foram comparados com os de indivíduos saudáveis e com os de portadores de outras doenças neurológicas, como esclerose múltipla, Parkinson e síndrome do túnel do carpo (dormência e formigamento na mão e no braço causados pela compressão de um nervo no punho).

Ao calcular a força exercida pelos diabéticos sem diagnóstico de neuropatia, com diagnóstico de neuropatia e pessoas sadias para segurar objetos, Freitas e sua equipe desenvolveram os índices que poderão ser usados no desenvolvimento de um equipamento para uso em consultórios médicos. Essa inovação, no futuro, pode auxiliar a diagnosticar, de forma simples, rápida e precoce, sintomas iniciais que indicam um quadro de neuropatia em pacientes diabéticos.

Os resultados da pesquisa foram detalhados na revista Human Movement Science. A investigação foi financiada pela FAPESP por meio de um Auxílio Regular e de uma Bolsa de Iniciação Científica.

Calculando a força

As análises feitas pelo grupo tiveram como foco a força de preensão palmar, que é a pressão feita pelos dedos para segurar e manipular objetos.

“Cada objeto tem uma determinada superfície de contato, que exerce atrito com os dedos quando seguramos um objeto. Se ele é mais liso, precisamos apertar mais; se é mais áspero, podemos apertar menos por causa do atrito. Cabe ao sistema nervoso central fazer o cálculo da quantidade de força necessária, o que ele aprende com o passar dos anos”, explica o pesquisador.

Notou-se, então, que pessoas com alterações neurológicas, como esclerose múltipla ou Parkinson, tendem a apertar mais o objeto do que os indivíduos que não apresentam essas doenças.

“No caso de pessoas com alterações neurológicas, a hipótese é de que apertam mais o objeto como uma estratégia mais conservadora. O sistema nervoso detecta a existência de alteração neurológica. E envia, então, um comando para que a mão segure com mais força o objeto, é um processo inconsciente”, conta.

Freitas reuniu sua equipe para investigar, então, o que ocorre no caso de diabéticos, que costumam enfrentar problemas neuropáticos ao longo da evolução da doença. “Não havia estudo sobre diabéticos utilizando o tipo de experimento que empregamos na pesquisa”, lembra.

A hipótese era de que os indivíduos com diabetes apertariam mais os objetos. Assim como quem sofre de síndrome do túnel do carpo, esclerose múltipla ou Parkinson. “Mas descobrimos que é o contrário: os diabéticos usam a metade da força para segurar um objeto, quando comparados com o grupo controle. Isso foi observado ao fazerem a tarefa mais simples, a do teste estático, na qual o voluntário deve apenas segurar o objeto, sem movimentá-lo”, conta.

Pessoas com neuropatia diabética seguram objetos com menos força

36 voluntários foram divididos em três grupos. O primeiro com 12 indivíduos que tinham desenvolvido neuropatia, já outro com 12 diabéticos, mas que não tinham neuropatia diagnosticada nem sinais clínicos da doença. E o último com 12 voluntários sadios.

Para cada um dos voluntários foram pedidas três tarefas utilizando o mesmo tipo de objeto. No teste de retenção estática, eles foram instruídos a segurar o objeto como se segurassem um copo de água. Depois, eles deveriam abrir os dedos lentamente para soltar o objeto.

Na segunda tarefa, deviam agarrar o objeto posicionado sobre uma mesa, levantá-lo por cerca de cinco centímetros, segurá-lo por dez segundos e colocá-lo de volta na mesa. A terceira atividade era de oscilação, na qual o voluntário agarraria o objeto, o posicionaria em frente ao umbigo e o moveria continuamente para cima e para baixo, por aproximadamente 20 centímetros, durante 15 segundos.

Na segunda e na terceira atividades, os diabéticos e diabéticos com neuropatia apresentaram resultados semelhantes aos indivíduos do grupo controle. Já no teste estático (a tarefa mais simples), por outro lado, veio a surpresa: os diabéticos e diabéticos com neuropatia apertaram o objeto usando metade da força aplicada pelos voluntários do grupo de controle.

Os resultados da pesquisa indicam que o diabetes não afeta apenas a parte periférica do corpo, causando, por exemplo, a perda de sensibilidade nos pés e dedos das mãos, mas atinge também o sistema nervoso central. “E isso está ocorrendo no início do diabetes. As pessoas tendem a achar que essas complicações só vão acontecer depois de uma determinada idade ou com o avanço do diabetes, mas o paciente já tem problema antes de se diagnosticar a neuropatia”, alerta o especialista.

A ciência ainda não tem uma resposta definitiva sobre a causa da neuropatia diabética. Uma das hipóteses seria o surgimento de alterações nos vasos sanguíneos e no metabolismo, que geram perda de função e morte de neurônios.

Diante da falta de respostas, a prevenção é o melhor caminho, e essa pesquisa contribui nesse sentido, segundo Freitas. “Nossos estudos nos dão a base para desenvolver, futuramente, um equipamento simples, que ofereça um resultado rápido e possa ser utilizado no consultório médico”, destaca.

Atualmente, o diagnóstico definitivo da neuropatia é obtido por meio de um exame invasivo e doloroso, a eletroneuromiografia. Nele, uma agulha é inserida no braço do paciente, aplica-se um choque elétrico como estímulo e mede-se o tempo de reação. A proposta de Freitas é oferecer um procedimento que possa ser usado nas consultas de rotina nos consultórios.

Como próximos passos, Freitas pretende desenvolver o objeto instrumentado a ser usado nos testes, que será mais simples do que o usado em pesquisas. Por isso, o pesquisador busca parcerias com hospitais e empresas interessadas no desenvolvimento do equipamento e voluntários para participação nos próximos estudos.

(Fonte: Agência Fapesp)