Notícia

Diário da Saúde

Neuromodulação contra obesidade não funciona para todos os pacientes

Publicado em 07 agosto 2019

Por Karina Toledo  |  Agência FAPESP

Uma das alternativas que têm sido testadas no tratamento da obesidade é a neuromodulação cerebral não invasiva por uma técnica conhecida como estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC, ou tDCS, na sigla em inglês).

Nessa terapia, dois eletrodos (positivo e negativo) são posicionados no couro cabeludo e ligados a um pequeno equipamento portátil capaz de gerar uma corrente galvânica que altera a atividade elétrica cerebral da área de interesse. No caso da obesidade, o objetivo é modular a excitabilidade dos neurônios localizados no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo.

Embora ainda seja considerada experimental nesse contexto, a ETCC já tem sido usada na prática clínica para o tratamento de condições neuropsiquiátricas, como depressão e esquizofrenia. O método é considerado seguro e não tem efeitos colaterais conhecidos.

Contudo, no caso da obesidade, resultados de testes em todo o mundo tem mostrado que os efeitos positivos - redução do apetite, da ingestão alimentar e do peso corporal - só acontece em parte dos voluntários, podendo até mesmo ter efeito inverso em parte deles.

Agora, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) acreditam ter encontrado o motivo de tamanha variabilidade na resposta a esse tratamento.

"O perfil genético do paciente - particularmente as variações em um gene conhecido como COMT - parece ser um fator determinante para o resultado," disse a pesquisadora Priscila Giacomo Fassini.

Resultado depende da genética

Partindo de uma base inicial com quase 9 mil voluntários, o grupo selecionou 38 mulheres, com idades entre 20 e 40 anos, para participar das quatro fases do ensaio clínico. Todas tinham índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 35, considerado como obesidade grau 1. Foram selecionadas apenas mulheres com o objetivo de reduzir a variabilidade de resultados e, assim, aumentar o poder do estudo.

Ao todo, as voluntárias selecionadas receberam 17 sessões de 30 minutos de ETCC ao longo de um mês e tiveram o apetite e o peso monitorados durante seis meses.

Com base em amostras de sangue coletadas na primeira fase do ensaio, o material genético das voluntárias foi sequenciado. Como já se conhecia a importância da dopamina para o mecanismo de ação da ETCC, o grupo decidiu investigar a presença de formas variantes (polimorfismos) do gene COMT, responsável por codificar uma enzima - a catecol o-metiltransferase - que participa do processo de degradação desse neurotransmissor no córtex pré-frontal.

De fato, os dados mostraram que as únicas participantes que apresentaram uma redução significativa do apetite ao longo do tempo foram as portadoras do alelo Met do gene COMT que receberam neuromodulação ativa. "Elas respondem melhor ao tratamento pela maior disponibilidade de dopamina, exibindo níveis mais baixos de fome, menor desejo de comer e menor consumo de alimentos ao longo do tempo", disse Priscila.

Efeito contrário

Para a pesquisadora, porém, a descoberta mais notável do ensaio clínico foi o efeito paradoxal observado nas voluntárias que não tinham o alelo Met do gene COMT. Ou seja, nessas mulheres, a ETCC teve o efeito oposto ao esperado, aumentando a fome, o desejo de comer e o consumo alimentar durante toda a intervenção.

"Esse efeito paradoxal foi observado em avaliações repetidas e estava presente 23 horas após a administração da sessão de ETCC, e não de forma aguda. Os mecanismos potenciais subjacentes ainda não são claros," comentou Fassini.

Outra questão a ser respondida no futuro é se as alterações no funcionamento cerebral induzidas pela neuromodulação permanecem no longo prazo e alteram a plasticidade cerebral (a forma como o cérebro se organiza) de forma definitiva. Segundo a pesquisadora, esse tipo de conhecimento é fundamental para que a técnica possa ser prescrita com segurança e eficácia no tratamento da obesidade.