Notícia

Gazeta Mercantil

NEUROLOGIA - E onde está a mente?

Publicado em 24 agosto 1997

Por João de Fernandes Teixeira*
Vocês conhecem aquela história do filósofo que foi visitar um casal de amigos e queria saber onde estava o casamento deles? Pois é. O filósofo chegou à casa deles e viu os carros na garagem, o cachorro, os filhos, os quartos cheios de brinquedos. Mas não se conformava, pois não conseguia ver o casamento deles e nem podia saber onde esse casamento estava. Até que o casal se sentou no sofá e disse: o senhor pode ver que estamos casados, mas nunca poderá ver o nosso casamento, pois esta é uma relação, uma abstração, que, contudo, existe. A mesma coisa acontece com os filósofos e neurocientistas que se perguntam onde está a mente e se haveria algum lugar no cérebro que corresponde à consciência. A mente é uma relação, uma abstração que nem por isso deixa de existir. A mente está em toda a parte e em nenhuma. Esta é uma das principais idéias do livro "O Sítio da Mente", de Henrique Schützer del Nero, coordenador do grupo de Ciência Cognitiva do Instituto de Estudos Avançados da USP. Quem percorre o livro logo entende que o próprio título surge como um paradoxo. A mente, a consciência, são resultado de uma relação que se estabelece entre partes do cérebro. A metáfora que é usada é a de uma firma que tem departamentos virtuais que, embora segregados espacialmente, podem ou não estabelecer uma relação entre si. Mas nem por isso a mente pode - seguindo a mesma metáfora - deixar de ser sitiada pela cultura ou mesmo por essa coisa que se chama sociedade globalizada, um nome-bonito que se deu para a barbárie em escala internacional: temas que não deixam de fazer parte das preocupações do autor. Nos capítulos iniciais, Del Nero faz uma apresentação das varies facetas da ciência cognitiva este novo ramo de estudos interdisciplinares sobre o funcionamento mental, que agrega as disciplinas mais variadas, começando pela neurociência e passando pela computação, lingüística, filosofia e até a antropologia. Um ramo de estudos que de forma alguma é cultivado aqui, nestas paragens tupiniquins, onde os intelectuais preferem cultivar "idéias fora do lugar" e especular sobre a natureza da mente e da consciência da mesma maneira que aqueles que, no século XVII, se recusavam a estudar o funcionamento do coração para continuar sustentando que nele está a sede das emoções e sentimentos. Afinal, o "mumbo-jumbo" da filosofia acadêmica é como a lua dos poetas, que não deve ser estragada por nenhuma visita de astronautas. Esta apresentação culmina no capítulo 11, que se inicia com uma advertência ao leitor: "Este capítulo poderá apresentar algumas dificuldades ao leitor menos familiarizado com a ciência cognitiva". Nele Del Nero apresenta, com muita fluência, um panorama geral das principais concepções de funcionamento mental que nortearam a investigação da ciência cognitiva nas últimas décadas, começando pela idéia que dominou os anos 60, da mente como computador digital ou como máquina lógica que manipula símbolos. Após a "crise dos símbolos" que se inicia na década de 80, esta concepção teria gradualmente dado lugar a uma visão mais dinâmica dos processos mentais que poderia ser estudada pela construção de redes neurais - a inteligência artificial conexionista. Esta apresentação peca entretanto por uma ambigüidade que não passará despercebida para aqueles que conhecem mais profundamente a teoria da computação. Na página 153, Del Nero afirma que "haveria'problemas de parada nas máquinas pensantes (situações em que, existindo regra, a máquina não é capaz de decidir para onde ir e fica rodando em falso - looping; também situações em que não há como decidir pela verdade ou falsidade de uma proposição, o que redunda em parada da máquina)". Ora, quem estudou teoria da computabilidade sabe que o que é pressuposto por esta teoria é exatamente o contrário, mas o texto de Del Nero não parece deixar isto muito claro. Vale a pena comentar também uma idéia ousada que é proposta pelo autor: a existência de um código cerebral. Seguindo uma tradição recente, retomada por neurocientistas como William Calvin ("The Cerebral Code", MIT Press, 1996), Del Nero sugere que no cérebro humano ocorre processamento de informação através de um código analógico, uma espécie de código de barras que resulta da sincronização da atividade de neurônios espacialmente segregados no cérebro. Esta idéia não pode ser recebida senão com alguma desconfiança. O que será essa coisa chamada "código cerebral"? Seria ele uma espécie de mecanismo interno, uma chave a partir da qual o próprio cérebro discriminaria o tipo de representação que estaria ocorrendo dentro dele, permitindo separar percepções de alucinações ou sonhos? Parece que aqui Del Nero sucumbiu, como muitos nesta década, ao mito do "cérebro na proveta", ou seja, à idéia de que o estudo do cérebro deve ser o ponto de partida e o ponto de chegada de toda ciência cognitiva - uma concepção que ainda horroriza os cognitivistas. Mas que ninguém desanime: este é um livro de fôlego e que exige também fôlego por parte do leitor, quase sempre acostumado a "fast-food" e aos "fast-books". Como dissemos, a obra pode ter algumas imperfeições e tropeços que não passam despercebidos para o especialista. Imperfeições que entretanto não afetam sua qualidade principal: a ousadia e a originalidade de sua proposta, que o tornam uma aposta em algo novo no horizonte de uma "inteligentsia" que mais vive do empréstimo e do comentário fútil. Aprende-se mais com um autor brilhante que erra do que com as nulidades que passam sua vida comentando aquilo de que se tem certeza. * João de Fernandes Teixeira, PhD em Filosofia pela Universidade de Essex (Inglaterra), é professor de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos e autor de "O que É Inteligência Artificial" (Brasiliense, 1990).