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Plantão News (MT)

Neurofisiologista pesquisa mortes cercadas de mistério

Publicado em 12 outubro 2016

O neurofisiologista Fulvio Scorza, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Morte Súbita nas Epilepsias da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), está interessado em identificar as possíveis alterações moleculares que as crises epilépticas podem provocar no coração de ratos.

Nos próximos meses, sua equipe realizará em 40 animais um longo processo de sensibilização do cérebro que leva os roedores a desenvolver epilepsia. O estudo, que conta com o apoio da Fapesp, deverá ajudar na investigação que ele faz há quase 15 anos sobre a causa das mortes associadas à epilepsia, especialmente a morte súbita e inesperada ou Sudep, na abreviatura em inglês, um problema poucas vezes citado pelos médicos nas consultas com pacientes e seus familiares.

A suspeita é que a atividade elétrica anormal do cérebro durante as crises leve o coração a adoecer e, eventualmente, a parar de funcionar. Scorza espera encontrar no coração desses animais algumas moléculas produzidas em níveis alterados que funcionem como sinalizadoras do dano cardíaco provocado pela epilepsia. Caso as identifique, como outros estudos já indicaram ser possível, e consiga quantificá-las por meio de um simples exame de sangue, ele, por fim, estará perto de um marcador de risco cardíaco específico para a epilepsia.

Essa ferramenta, buscada nos últimos tempos por diferentes grupos internacionais, pode ajudar a conhecer quais são as pessoas com essa enfermidade neurológica que apresentam maior probabilidade de sofrer uma parada cardíaca durante uma crise epiléptica. “Se formos capazes de identificar esses pacientes, podemos orientá-los a passar por um acompanhamento cardiológico mais rigoroso ou, quando for o caso, indicar ao neurologista a necessidade de alterar a medicação para o controle das crises”, explica o pesquisador.

Ele identificou cerca de 30 indivíduos que haviam deixado de ir ao hospital e escreveu uma carta para o médico de família de cada um deles. A descoberta de que a maioria estava morta transformou o seu modo de ver a epilepsia. Boa parte dos neurologistas considerava a doença um problema de saúde pouco grave. Muitos ainda pensam assim, mas não mais Sander. Nem Scorza. “Se não for tratada adequadamente, a epilepsia pode matar”, enfatiza o neurofisiologista da Unifesp, um dos poucos que investiga Sudep no Brasil.

Estima-se que existam 50 milhões de pessoas com epilepsia no mundo, cerca de 80% vivendo em países em desenvolvimento. Estudos feitos nos anos 1990 e no início da década passada indicam que a frequência de Sudep pode variar muito, dependendo da gravidade da epilepsia. Os números mais baixos, obtidos em levantamentos menos rigorosos, mostram que, a cada ano, entre uma e quatro pessoas podem morrer repentinamente em cada grupo de 10 mil indivíduos com epilepsia. As estatísticas mais aceitas, porém, apresentam números até 10 vezes mais elevados: haveria de uma a duas mortes por ano em cada grupo de mil. Essa proporção pode chegar a um em cada 100 entre as pessoas com epilepsia de difícil controle e número elevado de crises, candidatas a uma cirurgia que remove a área cerebral disparadora das tempestades elétricas no cérebro.

Agência Fapesp