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Diário da Manhã (GO)

Neurociência da diversão

Publicado em 05 maio 2018

O neurocientista alemão Michael Brecht passa boa parte de seu tempo fazendo cócegas em ratos. Mas não se trata de um passatempo ou brincadeira e sim de uma pesquisa que tem como objetvo investigar o comportamento de brincar e o apreço pela diversão que roedores e humanos compartilham ao longo de milhões de anos de evolução.

“A maioria das pessoas acredita que é mais importante estudar a dor, a depressão ou o autismo. Classicamente, esses são os temas que recebem financiamento. A neurociência da diversão é ainda pouco explorada. Pensam que se trata de um assunto simples e pouco sério. Mas ambas as suposições estão erradas”, disse Brecht em entrevista à Agência FAPESP.

A liberdade para coordenar uma linha de pesquisa tão pouco usual no meio acadêmico deve-se, segundo Brecht, à sua indicação para o Prêmio Gottfried Wilheim Leibniz, considerado o Nobel alemão. Os vencedores recebem até € 2,5 milhões da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) para serem investidos em novos estudos ao longo de sete anos.

Brecht foi premiado em 2012 pelo desenvolvimento de uma técnica que permite medir a atividade elétrica de neurônios de animais em movimento – conhecida como in vivo whole cell recording. “O método abriu novas possibilidade de pesquisa, como investigar os efeitos das interações sociais e do toque sexual no cérebro de ratos”, disse.

Professor do Bernstein Center for Computational Neuroscience (BCCN) e da Humboldt University, ambos em Berlim, Brecht esteve na sede da FAPESP no dia 24 de abril, onde apresentou a palestra “Sex, Touch Tickle – the Cortical Neurobiology of Physical Contact” (Sexo, Toque e Cócegas – A Neurobiologia Cortical do Contato Físico).

O evento integra o programa Leibniz Lecture – uma estratégia da DFG para estimular o diálogo entre os vencedores do Prêmio Leibniz e a comunidade científica.

Na entrevista concedida à Agência FAPESP durante sua visita, Brecht falou sobre estudos que ajudam a entender a função social das cócegas e do comportamento de brincar entre mamíferos, bem como as mudanças dramáticas que o toque sexual na fase pré-puberal pode induzir no cérebro e em todo o corpo. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Agência FAPESP – O título de sua palestra inclui as palavras sexo, toque e cócegas. Como esses três elementos estão conectados em sua linha de pesquisa?

Michael Brecht – Estamos interessados em interações sociais e uma forma de abordar essa questão tem sido por meio do toque. No meu pós-doutorado, estudei estímulos táteis muito simples. Por exemplo, o que acontece quando mexemos em uma única vibrissa de um rato. Descobri, na época, que com esse estímulo simples não é possível ter uma ideia ampla do que ocorre no cérebro do animal em situações reais. Ultimamente, temos explorado aspectos relacionados ao toque social e como ele é representado no cérebro. Focamos principalmente no toque sexual e nas cócegas.

Agência FAPESP – Que tipo de experimentos com animais têm sido feitos para explorar esse tema?

Brecht – Estudamos ratos porque são animais muito brincalhões. Foi uma grande surpresa para mim quando, há 20 anos, foi publicada uma pesquisa sugerindo que ratos são sensíveis a cócegas e apreciam quando lhes provocamos essa sensação. A comunidade científica se mostrou muito cética na época. A ideia de que um rato sente cócegas e responde com sons semelhantes a gargalhadas era espantosa. Umas das primeiras coisas que notamos é que faz toda a diferença isolar o animal de seu grupo por um ou dois dias antes do experimento. Eles ficam muito mais sensíveis a cócegas e receptivos ao toque. Já quando o animal é manipulado imediatamente após ser retirado do grupo se mostra menos ansioso para ser tocado. Imaginamos que algum tipo de interação entre os roedores satisfaz essa necessidade pelas cócegas. Quando lhes fazemos cócegas, os ratos emitem sons muito semelhantes ao que ouvimos quando eles brincam entre si. São sons ultrassônicos [tão altos que o ouvido humano não consegue captar] que fazem quando ficam animados e estão de bom humor.

Agência FAPESP – Por que alguns indivíduos – ratos ou humanos – gostam que lhes façam cócegas e outros não?

Brecht – Claramente há uma grande diferença individual em relação à sensibilidade a cócegas e ainda não entendemos bem por quê. Tanto em ratos como em humanos é um fenômeno extremamente dependente da idade. Crianças são muito mais sensíveis a cócegas do que adultos e isso está correlacionado com o gosto por brincadeiras. Isso faz sentido no contexto do comportamento geral. O que não está claro para mim é por que entre ratos da mesma idade há os que sentem muitas cócegas e, outros, nada impressionáveis. Os mais brincalhões também são os que mais gostam de cócegas. É um comportamento preservado ao longo da evolução por pelo menos 100 milhões de anos, o que nos faz pensar que sentir cócegas deve ser relevante para os mamíferos.

Agência FAPESP – Qual poderia ser a função social das cócegas?

Brecht – Em relação aos ratos temos algumas evidências de que tem muito a ver com comportamento de brincadeira. As respostas que observamos no cérebro são parecidas. Tendemos a pensar que a sensibilidade a cócegas pode ser um truque do cérebro para fazer os animais interagirem de modo lúdico.