Notícia

Época Negócios online

"Nesse primeiro mês de gestão, as pessoas foram minha prioridade", diz nova presidente da IBM Brasil

Publicado em 11 fevereiro 2021

Por Ana Carolina Nunes

“O meu maior desafio é também uma oportunidade única: preparar nossos talentos para essa nova era, imprimindo uma cultura de aprendizado contínuo e de mentalidade ágil, oferecendo ferramentas digitais para colaboração e todos os recursos necessários para que consigam equilibrar sua vida pessoal e profissional”, conta Katia Vakys, que assumiu o cargo de presidente da IBM Brasil em janeiro, sucedendo Tonny Martins.

Katia é a primeira mulher a assumir o posto no Brasil. E como líder de uma multinacional de tecnologia, uma área ainda com maioria masculina, a executiva vê a liderança como uma responsabilidade em formar as futuras gerações. “Ser líder é estar à frente, é guiar o time, é ter segurança nas decisões, é escolher os melhores caminhos, mas também é acolher, entender, deixar as pessoas serem vistas e descobertas”, avalia.

Há 10 anos na IBM, Katia assume a presidência em um momento estratégico da empresa, que foca em inteligência artificial e estrutura de nuvem para atender a demanda da transformação digital, também acelerada pela pandemia. “Sem dúvida, a reinvenção digital de todos os setores será através de arquiteturas abertas, baseadas em nuvem híbrida e inteligência artificial. Este é o objetivo da IBM para ajudar o Brasil na economia digital”.

Katia comentou também a pesquisa feita pelo IBV - Institute for Business Value, da IBM, com 3 mil CEOs de 50 países. Para eles, o principal desafio dos próximos dois a três anos será a liderança em tempos de trabalho remoto. A maioria dos executivos - 77% - também elegeu a saúde mental como uma prioridade da gestão, mesmo que isso afete a lucratividade de curto prazo.

Se considerados apenas os executivos brasileiros, os entrevistados apontaram regulamentações (51%), interrupções na cadeia de suprimentos (45%) e infraestrutura tecnológica (40%) como os desafios. Ainda entre os brasileiros, 40% dos líderes também planejam priorizar o bem-estar dos funcionários.

A pesquisa do IBM IBV mostra que o principal desafio de liderança será o trabalho remoto. Qual o seu principal desafio de liderança neste curto prazo, ainda em meio à pandemia?

A pandemia trouxe muitos desafios, mas também muitas mudanças favoráveis relacionadas a um resgate de valores essenciais, um olhar mais atento ao indivíduo e às relações interpessoais. O meu maior desafio é também uma oportunidade única: preparar nossos talentos para essa nova era, imprimindo uma cultura de aprendizado contínuo e de mentalidade ágil, oferecendo ferramentas digitais para colaboração e todos os recursos necessários para que consigam equilibrar sua vida pessoal e profissional. Nesse primeiro mês de gestão, as pessoas foram a minha prioridade. Fiz questão de estar próxima dos times através de todos os canais digitais disponíveis.

E quais são as suas prioridades à frente de uma grande empresa multinacional de tecnologia em meio a este cenário tão intenso da transformação digital nos negócios?

Como gerente geral da IBM Brasil, tenho três grandes prioridades. Uma é garantir o bem-estar e engajamento do nosso time, despertando a curiosidade, criatividade e o empreendedorismo. Segundo, ajudar a sociedade brasileira a se preparar para a economia digital, com iniciativas educacionais, apoio às entidades de classe e ações comunitárias, visando fomentar o pensamento científico, habilidades técnicas, inclusão e transformação da sociedade. E terceiro, o sucesso dos nossos clientes e parceiros de negócio, oferecendo um ecossistema rico para troca experiências, soluções e serviços que assegurem competitividade, segurança, agilidade e inteligência, apoiados em nuvem híbrida aberta e inteligência artificial.

Você é a primeira mulher a assumir a liderança da empresa no Brasil. Que impacto isso tem na sua opinião?

Na semana em que fui anunciada como gerente geral da IBM Brasil, recebi milhares de mensagens, especialmente de jovens mulheres, que descreviam o significado da notícia da minha nomeação como o despertar de um novo caminho de possibilidades. Percebi a necessidade de estar presente, expressar meus sentimentos e criar um caminho natural de conexão com os jovens.

Recebi um chamado para a responsabilidade de formar as futuras gerações. É urgente construir um mundo mais igualitário, onde todos possam alcançar seu potencial máximo. Ser líder é estar à frente, é guiar o time, é ter segurança nas decisões, é escolher os melhores caminhos, mas também é acolher, entender, deixar as pessoas serem vistas e descobertas.

E como isso pode impactar o setor de tecnologia, ainda tão majoritariamente masculino, especialmente quando falamos em cargos de lideranças?

Acredito que ter mais mulheres em cargos de liderança, seja na área de tecnologia ou em qualquer outro setor, é um ótimo sinal de avanço, mas ainda há muito trabalho a ser feito para que tenhamos igualdade de oportunidades entre os gêneros.

Um ponto interessante é que quanto mais tivermos mulheres em cargos de liderança, mais diversidade de pensamento teremos na tomada de decisão. E eu acredito que a inovação só acontece, de verdade, quando pessoas diferentes se unem na busca de uma solução – pessoas diferentes em faixa etária, classe social, gênero, raça, cultura. As diferenças espelham a nossa sociedade. E, no caso do setor de tecnologia, nossa ajuda na jornada de transformação digital das empresas no Brasil será proporcional à nossa capacidade de inovar.

E quais são seus planos para incrementar a diversidade na empresa?

A IBM é uma companhia que sempre abraçou a diversidade e foi pioneira em iniciativas de inclusão. Acreditamos que a diversidade gera inovação – e isso é um dos nossos valores essenciais. Vamos seguir com este propósito, intensificando programas e parcerias para aumentar oportunidades de contratação e desenvolvimento de novos talentos, e desenvolver experiências de aprendizagem para comportamentos e práticas inclusivas.

Eu acredito muito nas simples atitudes intencionais em nosso dia a dia, vejo este como um forte caminho para transformação da nossa sociedade. Por isso, quero continuar promovendo uma cultura de inclusão consciente através de voluntários e aliados ativos, onde cada membro do time possa causar um impacto positivo na sociedade e, ao mesmo tempo, trazer seu eu autêntico para o trabalho.

E como a IBM pode aproveitar essa oportunidade de que, entre os CEOS ouvidos (principalmente os brasileiros), tecnologias como AI, IoT e Cloud são os fatores externos que devem beneficiar seus negócios?

Um legado da pandemia foi o processo de hiperdigitalização imposto a todos os setores, despertando a necessidade de priorizar o uso pervasivo da tecnologia nos processos de negócio. E o mais importante habilitador de empresas digitais é a nuvem híbrida. Em um recente estudo que realizamos com a IDC Brasil, descobrimos que mais da metade das empresas brasileiras têm planos de adotar ambientes de nuvem híbrida ainda em 2021. Sem dúvida, a reinvenção digital de todos os setores será através de arquiteturas abertas, baseadas em nuvem híbrida e inteligência artificial. Esse é o objetivo da IBM para ajudar o Brasil na economia digital, redefinindo a forma com as empresas operam e entregam valor a sociedade.

Importante destacar também a importância da automação de processos com inteligência artificial. Por conta dos desafios apresentados pela pandemia, automatizar os fluxos de trabalho e aplicar inteligência nos processos passou a ser urgente para eficiência operacional e competitividade. Acredito que as empresas que escalarem o valor de seus dados com a IA vão sair na frente para se tornarem o que chamamos de empresas cognitivas, que são aquelas que aplicam inteligência e capacidade de predição para ganhar produtividade e, como consequência, melhorar a experiência de seus clientes.

Transformação digital foi um termo-chave em 2020 e deve se manter em 2021. Ao mesmo tempo, a IBM se prepara para focar em unidades-chave dentro desse cenário: cloud e IA, com a divisão da empresa na parte de infraestrutura. Como isso afeta a empresa aqui no Brasil e como alinhar os dois momentos de negócios com os clientes brasileiros?

O foco da IBM na transformação digital das empresas, através de nuvem híbrida aberta e inteligência artificial se intensificou quando adquirimos a Red Hat no ano passado, por US$ 34 bilhões. Este foco agora é reforçado com o anúncio da separação do nosso negócio de serviços de infraestrutura gerenciada (Managed Infrastructure Services) em uma nova empresa, que temporariamente chamamos de NewCo.

O mercado brasileiro será impactado de forma muito positiva, com duas empresas sólidas e preparadas para entregar soluções e serviços com excelência. A NewCo, como uma empresa independente, terá maior agilidade para impulsionar a inovação em serviços de infraestrutura gerenciada. E a IBM continuará focada na grande oportunidade de apoiar os clientes em sua transformação digital.

Na sua visão, onde estão os entraves para a transformação digital nos negócios brasileiros?

O principal entrave é cultural. A transformação digital é habilitada por tecnologia e automatização de processos, mas só é realizada através de uma cultura ágil. Nosso papel essencial como executivos reside em “destravar” a inovação orgânica. Negócios são transformados por pessoas, e é crucial despertar e liberar a criatividade e a inovação.

O mundo sempre esteve em constante mudança, a pandemia imprimiu velocidade à essa mudança. Intensificar o uso de recursos tecnológicos, tanto na infraestrutura quanto na operação, traz velocidade à mudança. Mas a verdadeira transformação digital acontece quando impactamos a experiência final dos clientes, do mercado, das equipes. Isso é cultural.

De que forma as startups se encaixam na estratégia da IBM para acelerar a transformação digital?

As startups têm como objetivo principal resolver problemas e criar soluções, trabalhando de forma ágil, aprendendo com os erros, e usando tecnologia para potencializar a inovação. Num cenário de transformação digital, as empresas precisam imprimir velocidade no uso de recursos tecnológicos e precisam de parceiros que tenham essas características para auxiliá-las nessa jornada. Anunciamos, recentemente, por exemplo, uma colaboração com o programa StartupRio para aproximar mais de 150 startups cariocas das tecnologias exponenciais.

Também trabalhamos com as scaleups, que são empresas em um estágio mais avançado do que as startups, que já identificaram um modelo de negócios rentável e escalável. No caso delas, nosso apoio é com o programa IBM Open Ventures, que identifica e integra as scaleups que têm soluções que podem resolver os desafios mais urgentes de negócios e que usam tecnologia de ponta para isso.

Acredito na inovação como motor essencial da era digital, e para isso é preciso envolver todo o ecossistema, não só startups e scaleups, mas também parceiros de negócios, desenvolvedores, universidades, centros de pesquisa, e toda sociedade.

O centro de IA em parceria com a USP e a Fapesp (C4AI) tem cinco frentes de pesquisa: saúde, meio ambiente, agronegócio, futuro do trabalho e tecnologias de processamento de linguagem em português. Que progressos poderemos acompanhar nessas áreas em relação ao uso de IA?

Atualmente, a ciência tem estado no centro de inúmeras discussões, se mostrando mais relevante do que nunca e desempenhando um papel primordial para a ideia de um futuro melhor. O C4AI é uma das maneiras pelas quais a IBM está contribuindo para esse cenário e fortalecendo a indústria de inteligência artificial no Brasil, uma vez que, com uma indústria forte e profissionais capacitados em todos os níveis, toda a cadeia de negócios se ativa, aumentando o tamanho e a qualidade do mercado.

Vou citar duas áreas das que você mencionou: no setor de agronegócio, vemos a sustentabilidade ambiental, as mudanças climáticas e a segurança alimentar como demandas atuais que trazem muitos desafios. O C4AI irá focar em modelos de causa e efeito para cadeias de produção de agricultura, em especial a de pequenos produtores. O uso de aplicativos com inteligência artificial permite realizar uma varredura em campos de plantio, garantindo que os produtos sejam colhidos no momento certo, melhorando a qualidade dos alimentos e reduzindo o desperdício.

Outra área interessante para observarmos é a de PLN (Processamento de Linguagem Natural). Assistentes virtuais com inteligência artificial não são um conceito novo, mas os avanços no campo do processamento de linguagem natural e da automação os tornaram mais eficazes na compreensão das nuances da linguagem. E a tecnologia de PLN fará com que sejam cada vez mais facilmente treinados e personalizados para as necessidades exclusivas de cada organização, o que fará com que seu nível de aceitação pelos consumidores seja cada vez maior. A questão é que hoje em dia existe pouca disponibilidade de ferramentas e dados para treinar sistemas de diálogo em português. Um dos objetivos do C4AI será habilitar o processamento de linguagem natural de alto nível para o português do Brasil, assim como já existe para outros idiomas, possibilitando sua melhor aplicação, como aprimorar os serviços de atendimento ao cliente e o monitoramento de redes sociais.

Katia Vaskys, presidente da IBM Brasil (Foto: Divulgação) (Foto: )