Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Nervos à flor da pele, no limite da exaustão

Publicado em 10 dezembro 2001

Hoje, o trabalho de Walter Neves, feito com apoio da Fapesp, está concentrado entre muita burocracia e o comando de uma grande equipe de pesquisadores. É um trabalho árduo, dividido entre períodos de escavações em Minas Gerais e de pesquisas no seu laboratório da USP. "Gasto hoje 75% do meu tempo com burocracia", reclama Neves. Guerra - No campo, o seu trabalho se assemelha a "uma operação de guerra". Ele comanda uma equipe que varia entre 15 e 25 pessoas, que trabalha de 10 a 12 horas por dia. "A pior parte é lidar com o limite de exaustão das pessoas. O nível de detalhamento que o nosso trabalho exige, a lentidão como ele se processa leva ao estresse", revela Neves. O trabalho costuma ter duas etapas. Uma, mais curta, de dez dias, é feita por cinco a seis pessoas. A outra, com duração de 30 dias em média, reúne dezenas de especialistas. No campo, as pesquisas são feitas fora e dentro das cavernas. São horas debruçados sobre pequenos trechos demarcados de terrenos. Pacientemente, eles escavam e peneiram todo o material, em busca do menor indício. Por ser um trabalho delicado, no qual um passo em falso pode destruir uma importante evidência, as frustrações são, muitas vezes, difíceis de serem suportadas. "Não que sejam comuns, mas crises nervosas fazem parte do nosso dia-a-dia. Ciência no Brasil está se tornando algo muito cruel. A visibilidade que a universidade tem é devido ao nosso esforço pessoal, um preço muito grande para os pesquisadores", avalia Neves. Indignação - Com uma certa indignação, ele conta que a relevância da pesquisa pode ser medida pelo número de especialistas que atrai. Hoje, segundo ele, são cinco pós-doutores (um deles norte-americano) e 12 alunos de pós-graduação entre outros. "Recebo uma média de cinco a seis professores doutores de outros países, atraídos pelo nosso trabalho. E não tenho sequer um escriturário para me auxiliar com burocracia", reclama. Diz que a cobrança por resultados "é de primeiro mundo, enquanto trabalha-se com uma infra-estrutura técnico-administrativa de quinto mundo". Mas esse brasileiro não está nem perto de desistir. Prevê décadas de trabalho na região. E sentencia, convicto: "Não abro mão dos meus sonhos".