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Agência USP de Notícias

Nereus relaciona espaço e economia para contribuir no planejamento das regiões

Publicado em 23 janeiro 2009

Por Luiza Caires / USP Online

Copenhague, Dinamarca; Colorado e Illinois, Estados Unidos; Monash, Austrália; Kiel, Alemanha; São Paulo, Brasil. O que há de comum entre as universidades destes locais - quem fala por São Paulo é a USP - é serem centros de excelência mundiais na elaboração de um tipo de modelagem econômica extremamente útil aos chamados stakeholders do setor público e privado - aquelas pessoas que tomam as decisões que afetam o futuro das economias e das sociedades.

No caso da USP, este trabalho é desenvolvido em escala municipal e regional pelos pesquisadores do Núcleo de Economia Regional e Urbana (Nereus) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA). "O espaço tem um papel fundamental na atividade econômica, e o Nereus é um grupo que agrega pesquisadores, professores e alunos de graduação e de pós que tenham este interesse comum: tratar a economia considerando a dimensão espacial. Então, todas as áreas de teoria econômica, economia aplicada e práticas operacionais em economia que a têm como elemento de análise estão incluídas", explica o professor Eduardo Haddad, um dos seus integrantes.

Nesse sentido, o núcleo tem desenvolvido pesquisas importantes nas áreas de economia e comércio internacional e também na área ambiental. "Estamos participando da elaboração da versão brasileira do Stern Report [relatório de mudanças climáticas que foi feito inicialmente na Inglaterra]. Os membros do Nereus são os responsáveis pela parte de economia das mudanças climáticas. Também entramos em um projeto do Ministério da Ciência e Tecnologia, que é a Rede Clima; e do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], que são os Institutos de Ciência e Tecnologia [ICT], colaborando na criação de um Instituto Nacional de Mudanças Climáticas", conta o professor.

Além disso, o Nereus tem trabalhado muito com planejamento de transporte, desenvolvendo planos estratégicos para para priorizar projetos de transportes que interferem no desenvolvimento das regiões. "Já fizemos projetos para Bahia, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, e estamos começando um para o Pará. Participamos ativamente também na elaboração do PNLT – Plano Nacional de Logística e Transportes. Para essas atividades trabalhamos com um mix de financiamentos de pesquisa, que vão desde as agências de fomento como Fapesp e CNPq até organismos internacionais como o Banco Mundial; Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); o FCO [Foreign and Commonwealth Office, órgão de desenvolvimento do governo inglês]; além de empresas privadas e públicas".

Recentemente foi finalizado o Plano Estratégico de Logística e Transporte de Minas Gerais (PELT/Minas). Trata-se um projeto multidisciplinar que envolveu pesquisadores vinculados ao Nereus, engenheiros de transporte e professores do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEARP) da USP. "A ideia foi desenvolver - a partir dos nossos modelos de análise de fenômenos econômicos no espaço - mecanismos de priorização dos projetos de transporte para aquele estado: ferroviários, rodoviários e hidroviários".

Com a metodologia elaborada no Nereus pode-se avaliar o impacto de cada um destes projetos sobre o crescimento das regiões, a redução da pobreza e das desigualdades regionais e o aumento da competitividade internacional do estado. Um aspecto a ser ressaltado é que o instrumental desenvolvido foi baseado na tese de livre-docência de Haddad -um produto bastante acadêmico, mas revertido diretamente à sociedade, tornando-se uma referência que pode ser utilizada também por outros estados em seus planejamentos de longo prazo.

Laboratório econômico

Os modelos matemáticos elaborados são de grande escala - no caso do PELT/Minas eram sete milhões de equações simultâneas que, juntamente com dados sobre a economia, permitiram que fosse replicada a economia real. "Uma vez que, com a matemática, os dados reais e a teoria econômica, consegue-se replicar a economia real - neste estudo a economia brasileira com ênfase em Minas Gerais -, pode-se fazer intervenções no modelo. Construindo-se, por exemplo, uma nova estrada ou duplicando uma antiga, alteram-se os padrões de interação espacial dos agentes e cria-se uma nova economia, muito próxima à economia real, só que com pequenas diferenças. É como se fosse um laboratório para se testar os resultados de diferentes intervenções".

As equações são fundamentadas no que há de mais moderno em termos de teoria econômica. Os dados utilizados baseiam-se no histórico de informações sobre a economia e em uma avaliação estrutural dos mesmos. "De um lado temos o referencial teórico-analítico e, de outro, o referencial numérico, que é uma 'fotografia' que fazemos da região, com informações que coletamos junto ao IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] e a outras agências de estatísticas. Quando a maneira como a teoria nos diz que a economia funciona consegue ser fiel ao que aparece neste retrato, podemos alterar alguns parâmetros para fazer avaliação de diferentes políticas econômicas", detalha o economista.

Trabalhos como este podem subsidiar, por exemplo, o processo de tomada de decisão de investimentos do governo em infraestrutura na região analisada, considerando seu impacto no PIB, na geração de emprego, na arrecadação de impostos, na pobreza, na concentração regional e no meio ambiente. "Cada projeto proposto gera índices diferentes nestas variáveis, e os formuladores de políticas podem lhes dar diferentes pesos, de acordo com suas prioridades naquele momento, comparando os resultados".

Intercâmbio

O convênio firmado pelo Nereus com a University of Illinois (EUA) é uma parceria de sucesso que começou com o envio e a recepção pela FEA de doutorandos para realizar estágios de um ano de "bolsa-sanduíche" (a que prevê que parte de um dotourado seja realizado no Brasil e parte no exterior). "Isto criou entre os alunos das duas instituições uma interação muito grande, que já havia entre os professores", afirma Haddad.

Hoje a parceria continua, e se expandiu até os estudantes da graduação, com intercâmbios, trocas de informações e trabalhos em coautoria. "O interessante é que os departamentos de economia diversos que trabalham com a área desenvolvam 'pedaços' de modelos para que tudo possa ser unificado em um modelo maior, com o que há de melhor em cada um", conclui.