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Nem só de cariocas e paulistas vive o teatro no BR

Publicado em 11 dezembro 2008

Por Deolinda Vilhena

O Cantil traz o grupo Máquina, de Fortaleza, a Sampa

 

Outro dia, quando escrevi o artigo sobre o livro A mulher e o teatro brasileiro no século XX (leia aqui), publiquei um comentário do Sérgio Farias, bastante procedente, no qual ele dizia que "mais uma vez se usava a expressão teatro brasileiro para falar do teatro feito no Rio de Janeiro e em São Paulo". Pois hoje vamos falar do teatro feito no Ceará, em Pernambuco e na Bahia, assim vamos compreendendo e integrando aos poucos o fato de que nem só de cariocas e paulistas vive o teatro brasileiro.

Comecemos pelo trabalho do Teatro Máquina, grupo criado em 2003 e desde então, dirigido por Fran Teixeira, encenadora e professora do curso de Artes Cênicas do CEFET do Ceará. O grupo vem desenvolvendo processos criativos coletivamente, tendo o teatro épico de Bertolt Brecht como principal linha de investigação. Cinco anos de vida e quatro espetáculos - "Quanto custa o ferro?" (2003), "Leonce + Lena" (2005), "Répéter" (2007) e agora "O Cantil". Adaptação sem palavras da obra do dramaturgo alemão, "A Exceção e a Regra", com manipuladores guiando atores.

Brecht sem texto? Fran tem a resposta pronta: "o estudo do texto revelou a viabilidade dessa forma não-falada, da expressividade através do gestual. Tirando as falas, deixa-se a situação mais forte para exame".

Quando perguntei a Fran o que ela teria a nos dizer sobre "Cantil" ela assim respondeu:

- Na pesquisa sobre O Cantil quando entendemos e definimos a concepção como uma metáfora da sobreposição entre a relação de manipulação patrão-empregado e a manipulação direta e aparente, com atores manipulando atores, estudamos as técnicas de bunraku e lemos bastante sobre a idéia que o teatro oriental tradicional pratica de atores em situação de demonstração em contraposição a um exercício de interpretação. Trabalhamos com um para um (um manipulador - um boneco) e dois atores na contra-regragem para a manipulação dos objetos e da cenografia. Os atores em manipulação direta tem os rostos aparentes, como o principal manipulador do bunraku e os demais estão totalmente cobertos. No jogo que fazemos de revelação/ocultamento, onde pretendemos também discutir as noções de teatralidade e ilusão, todos os atores e mecanismos são revelados, dando aos espectadores a possibilidade de entender o que se passa no backstage. Isso acontece em concomitância com a cena, como camadas de representação, preparação, organização.

Os que estão em Sampa não têm porque não dar um pulinho no Centro Cultural São Paulo para aplaudir o trabalho do Teatro Máquina, garanto a vocês que vale a pena, e domingo, dia 14, tem ingresso a R$ 2 - dois reais - para aqueles que reclamam que não vão ao teatro porque é caro...

Serviço: O CANTIL

Adaptação sem palavras da peça A exceção e a regra de Bertolt Brecht

Direção: Fran Teixeira para o Grupo Máquina

Elenco: Aline Silva, Edivaldo Batista, Levy Mota e Márcio Medeiros.

Quando? Até 21 de dezembro, Sextas e Sábados - 21h e Domingos às 20h

Onde? Centro Cultural São Paulo | Sala Jardel Filho - Rua Vergueiro, nº 1.000

Censura Livre - Informações - Tel. 3383-3402

Ingressos: R$6,00 e R$12,00 (Dia 14 de dezembro R$ 2,00)

Bando de Teatro Olodum invade o Villa-Lobos

No embalo do sucesso da minissérie Ó Paí, Ó, o Bando de Teatro Olodum, companhia baiana de teatro integrada por atores negros, que tem em Chica Carelli e Márcio Meirelles os seus mentores, diretores, criadores, comemora a maior idade comandando uma festa na qual o Bando invade o Teatro Villa Lobos, em Copacabana, para mostrar o que é que o teatro baiano tem. Além de "Ó Paí, Ó", o grupo mostra no Rio de Janeiro: "Áfricas", "Cabaré da Rrrrrraça" e "Sonho de Uma Noite de Verão".

Em recente entrevista a atriz Valdinéia Soriano afirma que o trabalho feito para a TV Globo foi "enriquecedor", mas ressalta que o mais importante foi o fato deles não terem perdido em momento algum o "discurso em relação às questões sociais e raciais, a bandeira de ser porta-voz da comunidade negra."

Com o que concorda Chica Carelli, dizendo que "só o fato de um elenco absolutamente negro ter chegado às telas do País é uma vitória. O público também se sente representado e, para os atores, está sendo uma experiência maravilhosa".

"Áfricas", criado em 2007, como resultado de uma pesquisa de oito meses feita por Chica Carelli, que dirigiu o espetáculo, e atores, era um antigo desejo do grupo: montar um espetáculo infanto-juvenil, "uma maneira de dar a criança baiana uma referência da cultura afro-brasileira", reforça Chica.

Já o "Cabaré da Rrrrraça" emplaca seu 11º ano em cartaz, uma espécie de talk-show que reflete a situação do negro na sociedade, trazendo para o palco temas como a estética afro-pop, preconceito e discriminação.

E, por último, "Sonho de uma noite de verão", cujo sucesso da versão de Márcio Meirelles (Prêmio Braskem de Teatro 2006 na categoria Melhor Espetáculo Adulto), pode ser creditado em parte, ao especial tempero que o diretor usa com inteligência, para apimentar um texto clássico, servindo-se da estética popular inspirada na cultura baiana e, por outro lado, detalhe importantíssimo, Márcio conseguiu montar uma comédia shakespeariana devolvendo o caráter popular com o qual foram concebidas pelo autor.

Programa altamente imperdível para os cariocas, sejam eles da gema ou clara...

Serviço: BANDO DE TEATRO OLODUM EM TEMPORADA CARIOCA

"Ó Paí, Ó!", sucesso nacional

"Ó Paí, Ó!" - 12 a 14 de dezembro, e sexta e sábado, às 21 horas, domingo, às 20h

"Áfricas" - 13 e 14/12, às 17 horas

"Cabaré da Rrrrraça" - 16 e 17/12, às 20 horas

"Sonho de Uma Noite de Verão" - de 19 a 21/12, sexta, às 21 horas e sábado e domingo, às 17 e 21 horas

Teatro Villa-Lobos: Av. Princesa Isabel ,440 - Copacabana

Informações : tel. (21) 2275-6695

Horário: Quinta e domingo, 20h; sexta e sábado, 21h. Até 21 de dezembro

Teatro Villa-Lobos

Ingresso: R$ 20,00 (qui., sex. e dom.) e R$ 30,00 (sáb.)

20º FETEAG ou como fazer teatro e formar platéia

Samba no canavial, atração em Caruaru (Foto: Marcelo Lira)

Começa hoje em Caruaru, no agreste pernambucano, a vigésima edição do FETEAG, organizada pelo TEA - Teatro Experimental de Arte, sob a batuta de Fábio Pascoal e família. A importância do FETEAG, e a sua diferença entre os grandes festivais profissionais, é que ele é formador de platéias, colocando em cena jovens estudantes de escolas públicas e privadas de uma das regiões menos favorecidas desse nosso Brasil, ele não tem a pretensão de formar atores, mas sim cidadãos cônscios de seus deveres e direitos, entre os quais a cultura, é um dos mais esquecidos pelas nossas autoridades.

Fazendo teatro esses estudantes aprendem a apreciá-lo, e talvez, entre eles um ou outro ator possa nascer, mas, com certeza, todos eles ao final de uma única edição do festival terão sido mordidos pelo bichinho do teatro. Excelente estratégia para levar adiante essa arte que sobrevive há milênios graças a pessoas como essa da família TEA.

Com cerca de 20 espetáculos e com atividades paralelas - gratuitas - como a oficina A Subjetividade do ator e o clown, ministrada pela Profª Marianne Tezza Consentino, o festival oferece ainda uma conversa/debate após cada apresentação.

O FETEAG conta com o apoio do Governo do Estado de Pernambuco e tem como objetivo principal estimular o estudante a participar mais ativamente da produção teatral pernambucana, seja da capital ou do interior. Ano passado, o festival recebeu cerca de 850 alunos da rede pública e privada de ensino.

Segundo Arary Marrocos, a primeira edição do FETEAG contou "com os grupos de teatro de Caruaru, depois aumentamos para a região do Agreste. Há seis anos, todos os estudantes das escolas do Estado, do litoral ao Sertão, tiveram a oportunidade de concorrer com suas peça".

Desde 2004, além da mostra competitiva para estudantes, o festival organiza também uma mostra paralela de peças teatrais, que possibilita a participação de grupos profissionais de teatro de todo o país, entre eles destacam-se o LUME, da UNICAMP e a Bagaceira, do Ceará.

Serviço: 20º FESTIVAL DE TEATRO DO AGRESTE

Onde? Caruaru (PE), de 12 a 20 de Dezembro de 2008

Locais: Teatro João Lyra Filho, Feira de Caruaru, Marco Zero, Teatro Lício Neves

Programação completa: http://feteag2008.blogspot.com

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

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