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Negligenciar resultados científicos em políticas públicas custa dinheiro e vidas, dizem especialistas

Publicado em 12 novembro 2018

Bruna de Andrade Ramos, pós-doutoranda na Faculdade de Medicina de Botucatu na Universidade Estadual Paulista (Unesp), estuda aspectos da relação materno-fetal como modulação imune, genética e epigenética. Segundo ela, algumas medidas comprovadas em seus estudos poderiam ser implementadas em novas políticas públicas e, com isso, ajudar a reduzir a prematuridade, o maior risco de mortalidade de mãe e bebê.

A indiana Ananya Gupta trabalha em um projeto, financiado pelo National Institute for Health Research, no Reino Unido, que visa dar maior eficiência aos trabalhadores na linha de frente do sistema de saúde, sobretudo no tratamento de diabetes e doenças cardiovasculares em regiões do Sul asiático.

Angela Aifah integra outro projeto, financiado pelo National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, que busca implementar novas estratégias de trabalho, comprovadamente mais eficazes, em clínicas de pacientes com Aids em Lagos, na Nigéria.

As três pesquisadoras participaram da Implementation Science Training School, realizada de 7 a 10 de novembro na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O evento teve apoio da Fapesp, por meio da modalidade Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), e da Global Alliance for Chronic Diseases (GACD) – consórcio de 14 agências de fomento de diversos países, entre as quais a Fapesp.

Um total de 70 pesquisadores (35 do Brasil e 35 do exterior) participaram do treinamento em Campinas, cujo objetivo principal foi debater metodologias e estratégias para reduzir a lacuna existente entre as descobertas científicas e sua implementação nos programas de saúde.

“Percebemos que algumas chamadas de pesquisa em implementation science [ciência da implementação] da GACD recebiam projetos abaixo da expectativa, porque não estavam bem estruturados ou porque pareciam não entender muito bem o que é a pesquisa em implementação. Por isso, decidimos que precisávamos treinar jovens pesquisadores. Na Escola que organizamos, metade dos participantes é brasileiro, a outra metade, estrangeiro. A ideia é criar conexões. Quem sabe isso vai estimular os pesquisadores a ter uma melhor ideia sobre implementation science e possam aplicá-la para a GACD, ou para outros órgãos”, disse Fernando Cendes, coordenador da Escola.

Calcula-se que demore entre 15 e 20 anos até que o investimento usado em uma pesquisa científica seja transformado em políticas públicas baseadas em evidências. O dado é uma média. Em alguns países esse tempo pode ser mais longo.

Um exemplo comentado entre especialistas e pesquisadores na Escola é que a maioria da população sabe que a prática de exercício físico traz benefícios à saúde, principalmente na redução de riscos das chamadas doenças crônicas – como câncer, diabetes do tipo 2, doenças mentais, pulmonares e cardiovasculares –, no entanto, nem toda escola, estado ou município tem um programa consistente que atue nesse sentido.

“Às vezes a implementação da ciência em políticas públicas ocorre de modo natural, mas nem sempre é assim. Geralmente, leva muito tempo e esforço para que os resultados sejam usados para o desenvolvimento, implementação e avaliação de políticas públicas. Isso acaba, muitas vezes, não ocorrendo”, disse Brian Oldenburg, diretor do Collaborating Centre on Implementation Research for Prevention and Control of Noncommunicable Diseases da Organização Mundial de Saúde (OMS), um dos organizadores da Escola.

Oldenburg comentou que o desenvolvimento de metodologias e estratégias para reduzir lacunas entre a ciência e as políticas públicas tem crescido muito nos últimos 15 anos.

“Antes, as pessoas assumiam que, se os resultados das pesquisas fossem publicados em revistas de alto impacto, os formuladores de políticas públicas poderiam criar novos projetos enquanto tomavam café da manhã e liam seus jornais. Mas ocorre que muitas vezes eles nem mesmo leem jornal, portanto, não ficam cientes das evidências a serem implementadas em políticas públicas, a menos que haja uma oportunidade formal de interagir com pesquisadores”, disse Oldenburg à Agência Fapesp.

Tabaco e poluição

Edward Gregg, do Centers for Disease Control and Prevention, nos Estados Unidos, também palestrante da ESPCA, destacou o tabaco como um importante exemplo de ciência da implementação.

“Houve uma longa discussão sobre o tabaco, com idas e vindas, mas foi só quando se provou que ele era prejudicial à saúde e que seu combate deveria estar nas políticas públicas que, de fato, o consumo caiu. Tentaram taxar, proibir propaganda. Isso foi positivo, mas a redução se deu efetivamente a partir de política baseadas em evidências de que o cigarro faz mal à saúde”, disse. “Negligenciar a implementação de ciência custa vidas e dinheiro.”

Um exemplo desse resultado em qualidade de vida e economia para os cofres públicos pode ser observado em um projeto realizado no Peru, com o apoio da Global Alliance for Chronic Diseases.

“Verificou-se que ainda era comum no país o uso de fogão a lenha dentro das casas. No entanto, sabe-se que esse tipo de poluição chega a ser maior que viver na cidade mais poluída do mundo”, disse Cendes.

Casos de poluição interna estão relacionados a doenças pulmonares agudas e crônicas como asma, bronquite e inclusive doença pulmonar crônica obstrutiva. Nesse sentido, um grupo de pesquisadores mediu esse impacto entre moradores de casas com fogão a lenha.

“A conclusão foi que é melhor e mais barato, para o sistema de saúde pública, comprar e instalar fogões a gás encanado nessas casas. Os moradores não ficam doentes, o que reduz mortes e internações”, disse Cendes.

O pesquisador, que também é coordenador do Instituto Brasileiro de Neurociências e Neurotecnologia (BRAINN) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela Fapesp –, afirma que estudos como esse podem ser analisados e adaptados para serem implementados em outros países, como o Brasil.

Além de propor uma maior proximidade entre os resultados de pesquisas científicas e o legislativo, a área de ciência da implementação tem como objetivo monitorar e mensurar os resultados de políticas baseadas em evidências. “Por trás desses projetos tem que ter um grupo que saiba como fazer para adquirir dados cientificamente sólidos”, disse Cendes.

Para outra palestrante da Implementation Science Training School, Pilvikki Absetz, da Universidade do Leste da Finlândia, é preciso levar em conta modelagens e estratégias para tomar boas decisões sobre como planejar a implementação e como selecionar os métodos mais eficientes.

“Por exemplo, para que a implementação seja sustentável, para pôr evidências na prática, temos que pensar em que níveis as ações precisam ser tomadas. Se é no nível da comunidade, organizacional ou individual, indivíduos interagindo com outros”, disse.

Ananya Gupta destacou que a Escola a ajudou a acumular repertório sobre diferentes experiências no desenho de projetos de intervenções sobre estilo de vida. “No projeto de pesquisa que conduzo atualmente são muito visíveis, por exemplo, as diferenças no contexto do sistema de saúde na Índia e no Reino Unido”, disse.

Para ela, o fundamental em seu projeto será desenhar estratégias que levem em consideração esses diferentes contextos. “Sem uma boa modelagem, o resultado obtido em um laboratório ou em uma realidade britânica dificilmente poderá ser traduzido para a minha cidade [Nova Deli], por exemplo”, disse.

Além da Implementation Science Training School realizada na Unicamp, a Fapesp e a GACD estão promovendo mais dois eventos. No dia 12 de novembro começa o 10th GACD Implementation Science Workshop, com especialistas de vários países. No dia 14 de novembro, será realizado o 7th Annual Scientific Meeting da GACD.

Agência Fapesp