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Negacionismo na Pandemia - Resposta do Brasil à Covid-19 - Biólogo

Publicado em 22 junho 2020

Por Depoimento concedido a Fabrício Marques | Revista pesquisa FAPESP

Negacionismo na Pandemia: “O negacionismo comprometeu a resposta do Brasil à pandemia”. Elize Massard da Fonseca, especialista em saúde pública da Fundação Getulio Vargas, fala sobre o trabalho de uma rede internacional de pesquisadores criada para compreender as respostas de diferentes países à Covid-19 .

Negacionismo na Pandemia

22/6/2020 :: Depoimento concedido a Fabrício Marques / Pesquisa FAPESP. CC BY-ND 4.0

Meu 2020 estava todo planejado. Eu faria um intercâmbio na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, no segundo semestre. Por isso, concentrei no primeiro semestre todas as disciplinas que teria de lecionar ao longo do ano.

O perigo do desprezo à ciência

A Escola de Administração Pública de São Paulo da Fundação Getulio Vargas [Eaesp-FGV], onde trabalho, dá essa flexibilidade aos docentes. Veio a pandemia e ficou tudo meio caótico.

As aulas presenciais foram suspensas e, de uma hora para outra, estávamos mergulhados em treinamentos para aprender a usar ferramentas didáticas e dar aulas a distância.

Testes para Covid-19

Fiquei bastante ocupada preparando aulas e atendendo os alunos. Tenho um auxílio da FAPESP para um projeto de pesquisa sobre políticas para competitividade do setor farmacêutico na modalidade Jovens Pesquisadores que está no último ano de vigência, também com várias tarefas para concluir.

Atuando na pandemia

Foi quando uma jornalista que trabalha aqui na FGV me pediu para escrever sobre a resposta do Brasil à pandemia no blog do nosso Centro de Política e Economia do Setor Público. Eu não estava acompanhando as notícias e fui tomar contato com o assunto. Comecei a olhar com atenção e antevi um ótimo tema de pesquisa.

Eu me lembrei de um cientista político da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan, o Scott Greer, que conheço há muitos anos e com quem mantive parcerias. Ele tem vários trabalhos sobre políticas de saúde, principalmente na Europa.

Baixando a curva do coronavírus

Fui perguntar se estava fazendo algo sobre a pandemia, imaginando que estaria preparando alguma edição especial de artigos para a qual eu pudesse colaborar. Ele me disse que estava organizando um livro e buscava, naquele momento, criar uma rede internacional de pesquisadores para estudar a reação dos países à pandemia. Fizemos uma reunião e ele me convidou para ser uma das editoras desse livro.

Meu trabalho, além de escrever sobre o Brasil, um caso que desperta interesse mundial, é recrutar pesquisadores de outros países da América Latina que pudessem se incorporar a esse esforço. Já reunimos 30 pesquisadores que farão estudos de seus países.

Controlando a pandemia

Há situações muito interessantes. A África do Sul, que deu uma resposta fracassada à Aids no passado, conseguiu controlar a pandemia. A Índia também vem tendo sucesso. A intenção é entender o que esses países fizeram. Meu papel é colaborar na introdução e na conclusão do livro, bem como no capítulo sobre o Brasil.

A pandemia colocou à prova serviços e sistemas de saúde em todo o mundo. O objetivo desse esforço colaborativo é analisar e comparar as respostas de governos à epidemia do novo coronavírus e suas ações de enfrentamento. Não se trata apenas de monitorar as ações, pois há outros grupos no mundo fazendo isso. O foco é buscar explicações para compreender por que as respostas foram distintas em cada país analisado, para, quem sabe, evitar um desastre semelhante no futuro.

A FAPESP havia aberto uma chamada para projetos sobre a Covid-19 para os pesquisadores que já recebem auxílios. Apresentei um projeto propondo um estudo de campo sobre o Brasil e ele foi aprovado. O projeto tem três vertentes. A primeira é explorar a resposta do sistema e política de saúde ao longo do desenvolvimento da epidemia. A segunda é investigar as iniciativas de proteção social que têm sido adotadas de forma a viabilizar as ações de saúde pública. E a terceira é analisar, em uma perspectiva comparada, como e por que essas decisões foram adotadas, para ao final propor recomendações.

Um Vírus Desconhecido

Informações valiosas em tempo real

Ainda em março, organizei o trabalho de uma equipe de alunas, graças a um pequeno financiamento que tenho na FGV. Disse a elas: precisamos coletar todas as informações que estão saindo. A vantagem é conseguir informações primárias valiosas, em tempo real.

Já coletamos mais de 500 notícias, baixamos do YouTube todas as entrevistas coletivas do Ministério da Saúde, reunimos o posicionamento dos governadores – no futuro, isso estará disponível para quem quiser estudar a pandemia no Brasil. Para analisar todo esse material, conto com duas alunas de mestrado e um bolsista de Treinamento Técnico da FAPESP.

Já mapeamos algumas questões importantes. Há uma distinção clara entre países com governos autoritários e com governos democráticos. Os autoritários têm facilidade de impor medidas restritivas. Nos democráticos, isso cria uma série de controvérsias e é preciso construir a confiança na sociedade sobre a importância de restringir a liberdade e ficar em casa. Há mais dificuldade em adotar essas medidas, porque elas são baseadas em um isolamento social voluntário.