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Negacionismo em baixa

Publicado em 02 dezembro 2019

Por Liana Melo

Com o tempo se esgotando para enfrentar o aquecimento global, a Conferência do Clima começou ontem, em Madrid, com uma mensagem sombria. E uma pergunta do secretário-geral da ONU, Antònio Guterrez: “Queremos ser lembrados como a geração que atuou como avestruz?” No primeiro dia da COP25 ficou claro o tom da conferência, que termina no próximo dia 13: “Por sorte, hoje em dia, só um punhado de fanáticos nega as evidências”, discursou o premier espanhol, Pedro Sánchez, anfitrião do encontro. É neste ambiente de pressão por metas mais ambiciosas para enfrentar o aquecimento global que o Brasil fará sua estreia na COP25. A tese do negacionismo climático, do qual o governo Bolsonaro é um dos seus representantes, enfrentará resistência pesada, inclusive da presidente do Congresso dos Estados Unidos, Nancy Pelosi. Ela defendeu a “ciência, ciência, ciência” como contraponto à resistência climática.

É a partir de hoje, quando a COP25 começa a tomar mais corpo — só depois do dia 10 é que as negociações entram na fase mais crítica –, os delegados que desembarcaram em Madrid para discutir as pendências do Acordo de Paris enfrentarão uma greve, de 24 horas, promovida pelos transportes públicos. Não será fácil chegar no IFEMA Feria de Madrid, onde está ocorrendo a conferência, ainda que, por exigência judicial, os serviços não serão totalmente paralisados. O movimento deflagrado pelo Sindicato dos Trabalhadores de Transporte Público está previsto para durar 24 horas. Curiosamente, foram os protestos contra o aumento da passagem de metrô que deflagraram uma convulsão social, que levou o governo do Chile a cancelar a conferência em Santiago, que, originalmente, ocorreria no Brasil. Antes mesmo de tomar posse, o presidente Bolsonaro avisou que não tinha interesse em ser o anfitrião da conferência.

Em sintonia com os discursos dos chefes de estado feitos hoje, em Madrid, cientistas brasileiros se manifestaram contra declarações dadas pelo primeiro secretário do Ministério das Relações Exteriores, Paulo Cezar Rotella Braga. Às vésperas da COP, em uma reunião aberta promovida pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), Braga, que é um dos negociadores brasileiros da COP25 e está em Madrid, disse que “o governo brasileiro fez um esforço muito grande para reduzir as emissões até 2020 e a compensação não foi feita. Não teve aporte financeiro suficiente para ajudar e reconhecer o esforço do país no combate às mudanças do clima”.

A reação dos cientistas foi imediata. “O Brasil vai a essa COP sem condição de pleitear absolutamente nada. Talvez tenha mais sucesso quando tiver resultados específicos e ações críveis para apresentar, como fez em 2009 e resultou na criação do Fundo Amazônia”, criticou Thelma Krug, vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O Brasil vai a essa COP sem condição de pleitear absolutamente nada. Talvez tenha mais sucesso quando tiver resultados específicos e ações críveis para apresentar, como fez em 2009 e resultou na criação do Fundo Amazônia

Na abertura da COP25, Guterrez admitiu sua frustração com o ritmo lento com que avança a luta contra o aquecimento global, especialmente porque “existem ferramentas tecnológicas” para promover uma economia de baixo carbono. Ele defendeu o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e das usinas de carvão, a definição de um preço para as emissões de gases de efeito estufa e o compromisso dos países com a neutralidade climática em 2050. Na contramão da pressão internacional, ainda não há planos no país para abandonar as termelétricas a carvão.

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