Notícia

Gazeta Mercantil

Necessidades das pequenas empresas

Publicado em 10 outubro 2000

Por Tales Andreassi
A alta taxa de mortalidade das PME - Pequenas e Médias Empresas - nos primeiros anos de atividade sempre foi preocupante. Sabe-se que entre 50% e 80% das pequenas empresas encerram suas atividades antes de completar um ano de vida. Embora essas estatísticas sejam imprecisas, pelo fato de poucas empresas formalizarem seu fechamento, tais cifras não devem ser ignoradas. A razão dessas altas taxas pode estar em fatores ambientais, técnicos ou administrativos. Com relação ao ambiente, a falta de uma estrutura de apoio governamental que dê um ativo suporte às PME é seguramente um dos principais fatores. O problema começa com a necessidade de capital. Nos Estados Unidos, por exemplo, os investimentos em capital de risco chegam a US$ 50 bilhões, mais de quatro vezes o valor de cinco anos atrás. No Brasil, os investimentos em capital de risco ficam restritos a iniciativas isoladas, como o BNDESPar ou o Projeto Inovar, apoiado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), por exemplo. Aqui, as empresas são obrigadas a recorrer aos empréstimos bancários. Estes, além de possuírem taxas de juros superiores às encontradas em outros países, ainda exigem garantias que superam o valor do empréstimo. O crédito acaba sendo concedido a quem, de fato, não precisa. Outro fator que merece atenção é a sempre frágil economia brasileira. Mesmo que de uns anos para cá a economia tenha dado pequenos sinais de revitalização, as PME não têm o cacife necessário para superar crises longas. A recente crise asiática, cujos efeitos foram de certa forma rapidamente absorvidos pela economia brasileira, acabou levando muitas PME à falência, em função de suas deficiências internas de planejamento. Grande parte da mortalidade das PME pode também ser atribuída ao caráter técnico inerente à empresa. Para alguns setores de atividade, investir em melhorias de produto e processo é fundamental. Se em alguns setores mais tradicionais, como o alimentício, por exemplo, encontram-se produtos com algumas décadas de existência, em setores como o eletroeletrônico o nível de obsolescência é muito alto. Pesquisas da Associação Nacional de Pesquisa. Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpet) mostram que, em média, 37% do faturamento das empresas advém de produtos lançados no mercado há menos de cinco anos. Existem algumas alternativas que podem auxiliar a PME na questão da inovação, como, por exemplo, os programas cooperativos com universidades. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) tem programas específicos que viabilizam a parceria universidade-pequena empresa. Porém ainda são poucos os programas cooperativos dessa linha encontrados em outros Estados. Em países mais desenvolvidos, esse papel é desempenhado por institutos governamentais. Devem-se, porém, ressaltar algumas iniciativas isoladas que vêm produzindo resultados satisfatórios. Um exemplo é o Disque Tecnologia, um programa desenvolvido pela Universidade de São Paulo que procura resolver problemas técnicos de pequenos empresários com a indicação de especialistas oriundos dos quadros da própria universidade. Por fim, com relação à capacidade de gestão de seus proprietários como provável causa da mortalidade das PME, pode-se apontar primeiramente o perfil muitas vezes inadequado do pequeno empresário. Faz parte da cultura brasileira o mote "ser o próprio patrão", ou seja, os brasileiros sonham em ter seu negócio próprio. Isto faz com que pessoas que tenham um perfil totalmente incompatível com o espírito empreendedor abram empresas. Não basta ter simplesmente uma boa idéia para começar a montar um negócio. Como características do espírito empreendedor, podem-se apontar, entre outras, a liderança, a busca constante de novas oportunidades e a capacidade de assumir riscos. A elaboração de um plano de negócios viável e dotado de um planejamento eficiente que contemple o longo prazo, incluindo aí alternativas para épocas de crise, é fundamental para garantir o sucesso do empreendimento. O preparo administrativo dos proprietários é outro fator que deve ser levado em conta. Não existem disciplinas específicas sobre gestão das PME na maioria das escolas de administração brasileiras, sendo que as disciplinas ainda estão voltadas para os problemas e as técnicas aplicadas à grande empresa. Na tradicional Universidade de Harvard, 25% das matérias facultativas escolhidas pelos segundanistas são do setor de empreendimentos. Como pode ser constatado, as causas da mortalidade das PME são complexas. Mesmo em países desenvolvidos, que possuem programas consolidados de apoio às PME, o percentual de empresas que vão à falência nos primeiros anos de vida é alto. Para o caso brasileiro, que possui um caráter tão específico, esta é uma questão crucial, já que um alto percentual dos empregos é gerado pela pequena empresa e a grande empresa cada vez mais está reduzindo seu quadro de pessoal. Assim, é fundamental o estabelecimento de políticas públicas consistentes e de longo prazo, visando assegurar uma maior longevidade às PME. Este seguramente é um possível caminho para o País diminuir o impacto do desemprego, que tanto malefício acarreta à nossa sociedade.