Notícia

Revista PIB - Presença Internacional do Brasil

Necessária, mas insuficiente

Publicado em 01 maio 2008

A sustentabilidade é ferramenta indispensável na estratégia de internacionalização. Mas não é uma panacéia

Nunca se falou tanto em sustentabilidade. O temor provocado pelo aquecimento global catapultou o assunto para o centro do debate em todo o mundo. Créditos de carbono, neutralização dos gases do efeito estufa e degelo das calotas polares se transformaram em tópicos corriqueiros de conversas nos quatro cantos do planeta. O tema invadiu não só a agenda política e a vida do cidadão comum. Num sem-número de empresas têm-se repetido feito um mantra os conceitos de sustentabilidade criados pelo inglês John Elkington, fundador da conceituada consultoria SustainAbility. Para ele, nenhuma empresa é capaz de se perpetuar, hoje em dia, sem levar em consideração os aspectos ambientais, econômico—financeiros e sociais (com o tratamento adequado a questões como relações com empregados, repúdio ao trabalho infantil, atenção às comunidades com as quais se relaciona e apoio às iniciativas de inclusão), conjunto que ficou conhecido como tripple bottom line.

Não há fórmula simples nem receita para garantir que uma estratégia de negócios calcada na sustentabilidade seja mais bem-sucedida do que qualquer outra, mas parece não haver dúvidas de que o tripé sistematizado por Elkington está cada vez mais presente nas mesas de negociação no mundo corporativo. Para as empresas dos países emergentes como as brasileiras, sobretudo para as que estão tentando conquistar seu lugar ao sol no mercado global, a pergunta que fica é: afinal, ser sustentável vai ajudá-las a alavancar seus negócios lá fora? Ou, colocado de outra maneira: até que ponto não sei sustentável pode ser prejudicial?

De acordo com a revista inglesa The Economist, desde 2002 as economias emergentes têm ganhado cada vez mais peso no comércio mundial. O investimento vindo de países em desenvolvimento, que era de US$ 16 bilhões em 2002, somou US$ 120 bilhões em 2005. Não é à toa, portanto, que os olhos do mundo inteiro estejam voltados para as empresas de Brasil, Rússia, Índia e China, países que formam o acrônimo BRICs, cunhado pelo banco de investimentos americano Goldman Sachs. A medida que ganham musculatura e se tornam players de alguma relevância no cenário internacional, ameaçando a hegemonia das corporações tradicionais, elas atraem as atenções e a visão crítica de governos, mídia e dos ativistas do mundo desenvolvido, o que as obriga a olhar com cuidado para o impacto de suas ações na sociedade e no meio ambiente. De acordo com o economista americano Michael Porter, um dos mais renomados especialistas em gestão empresarial, esse novo cenário transformou a responsabilidade social empresarial numa questão estratégica vital para as companhias. “A vantagem competitiva está era, integrar as demandas da sociedade à estratégia e às operações”, escreveu Porter na revista Harvard Business Review.

A boa notícia é que no Brasil a questão da sustentabilidade parece ter entrado no radar das companhias. O número de empresas que integram o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bovespa, criado em 2005 para reunir ações de companhias com as melhores práticas sustentáveis, passou de 28 em 2006 para 32 neste ano, com um valor de mercado estimado em R$ 700 bilhões, equivalentes a 48,5% da capitalização total da bolsa brasileira. “Existem empresas mais avançadas do que outras, mas é um movimento que veio para ficar, não é moda”, afirma Roberta Simonetti, coordenadora do programa de sustentabilidade empresarial do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).

Essa opinião é reforçada pela edição de 2007 do Guia Exame de Sustentabilidade, da revista Exame, que também mostra o quanto o assunto vem ganhando espaço dentro das empresas. Das 140 que responderam ao questionário enviado pelo Guia, 63% têm um comitê de sustentabilidade. Mais: 72% delas divulgam anualmente seu relatório de sustentabilidade. Outra boa notícia é que 31% das participantes adotam um modelo segundo o qual a remuneração dos seus executivos está diretamente ligada aos resultados sociais e ambientais alcança dos por eles.

O questionário ainda revela que 46% das empresas vêem na sustentabilidade uma oportunidade para o lançamento de novos produtos e serviços. E o caso da líder do setor petroquímico na América Latina, a Braskem, do grupo Odebrecht, que se prepara para fabricar em escala industrial, a partir de 2010, o primei ro plástico produzido com matéria- prima renovável, resultado de um desenvolvimento de quase três décadas. A expectativa é que o produto, à base de etanol, tenha um custo de fabricação inferior ao do derivado de petróleo. Serão produzidas 200 mil toneladas ao ano, com previsão de chegar a 500 mil toneladas anuais em médio prazo. “Estados Unidos, Japão e vários países europeus já demonstraram interesse”, diz Roberto Simões, vice-presidente da Braskem, que assinou com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) um convênio de cooperação com duração de cinco anos para desenvolvimento de pesquisas em biopolímeros, com investimentos previstos da ordem de R$ 50 milhões.

O objetivo, de acordo com Simões, é não só incentivar cientistas a elaborar trabalhos na área de polímeros (plástico comum no dia-a-dia, presente em saquinhos de supermercado, embalagens e no revestimento de carros) a partir de matérias-primas renováveis, mas também alinhar a companhia à estratégia de melhoria da competitividade e de criação de valor por meio de tecnologia e inovação. “Fontes renováveis são a nossa maior preocupação”, diz Simões. “A demanda, por parte dos clientes, está cada vez mais ligada aos princípios da sustentabilidade.” Ele aposta no plástico verde para expandir os negócios da empresa no mercado externo. “Os clientes lá fora sempre perguntam sobre nossos índices de sustentabilidade”, afirma.

Garantia de qualidade

Um fator decisivo no processo de internacionalização de qualquer em presa é o acesso a recursos mais baratos lá fora para poder investir “Apesar de as companhias brasileiras estarem entre as mais internacionalizadas dos países em desenvolvimento, elas ainda não têm uma imagem global forte, nem para o bem, nem para o mal”, diz Jodie Thorpe, diretora do programa de economias emergentes da consultoria SustainAbi1ity “No caso delas, que operam num país onde a taxa de juros é muito alta, uma performance sustentável robusta ajuda a ter acesso ao capital de um número cada vez maior de investidores que vêem a sustentabilidade como uma garantia de qualidade.” Na opinião de Jodie, empresas que lidam diretamente com recursos naturais como petroquímicas, produtoras de petróleo e celulose são justamente as que sofrem maior pressão de investidores, clientes e consumidores para adotar práticas sustentáveis em razão do impacto que podem causar.

Que o diga a Suzano, que inaugurou recentemente a segunda fase de sua fábrica em Mucuri, na Bahia, e ampliou sua capacidade de produção em quase 60%, alcançando 3,1 milhões de toneladas anuais de celulose. Os clientes não apenas perguntam sobre as práticas sustentáveis da empresa, mas querem vê-las de perto. “O país mais complicado para negociar é a Alemanha”, diz André Dorf, diretor da unidade de negócios papel da Suzano. “Eles querem conhecer in loco o manejo sustentável das nossas florestas, o tratamento dos efluentes, como estão nossas emissões de carbono e a relação que a empresa estabelece com a comunidade.”

No primeiro dos quesitos, a empresa da família Feffer; de São Paulo, está bem posicionada: 100% dos 462 mil hectares das florestas da Suzano, espalhadas pelos estados de São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Maranhão, são certificados pelo Forest Stewardship Council (FSC), um programa de certificação florestal internacional independente. Nos demais quesitos, há ainda espaço para melhorias. De acordo com Dorf, para a empresa o conceito de sustentabilidade está intimamente ligado aos negócios. “O mercado alemão só compra celulose certificada”, lembra. “Se a Suzano não mantivesse práticas sustentáveis, certamente teríamos perdido diversos acordos comerciais.” Para os executivos do setor, como Dorf, está bem presente a decisão da Stapies, uma das maiores redes de papelaria americanas, que cancelou os contratos que tinha com a Asia Pulp and Paper (APP), fornecedora de papel de Cingapura. Motivo do descredenciamento? Suspeitas de que a APP desmata florestas nativas para produzir celulose e papel.

Listada há dois anos no ISE, da Bovespa, a Suzano é prova viva de que ser sustentável é, acima de tudo, um bom negócio, como propõe Jodie Thorpe, da consultoria SustainAbility. Entre julho de 2006 e dezembro de 2007, as ações da companhia se valorizaram cerca de 120%.

Tartarugas marinhas

Incluída no grupo de maior risco citado pela consultora, a Petrobras pretende até 2020 ser uma das cinco maiores empresas de energia integrada do mundo. A companhia está presente em países tão diversos como Angola, Argentina, Esta dos Unidos, Cingapura, Paquistão, Reino Unido, Irã, Japão e Turquia. Cada país apresenta um conjunto particular de demandas, de acordo com suas características”, diz Paulo Cezar Aquino, gerente executivo corporativo da área internacional da Petrobras. “E temos de estar atentos e nos adequar a elas?”

Uma das metas da companhia é evitar a emissão de 21,3 milhões de toneladas de CO² entre 2007 e 2012. Outra é investir em fontes renováveis de energia, que podem, segundo as contas da empresa, reduzir entre 7% e 15% o consumo de combustíveis fósseis pelo setor de transportes. Para isso, a Petrobras investe no processo de hidrogenação, que mistura o diesel produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras animais ao diesel de petróleo. A grande vantagem do HBio, como o projeto foi batizado, é que ele possibilita a introdução das energias renováveis na matriz de refino, utilizando para tanto o parque industrial já existente.

Além dos cuidados em relação às suas operações, a estatal, que já foi responsável por alguns incidentes ecológicos de repercussão, como o vazamento de óleo na Baía da Guanabara, no início de 2000, patrocina alguns programas ambientais bem-sucedidos, como o projeto Tamar, referência mundial na preservação de tartarugas marinhas. Fora do Brasil, a Petrobras também mantém programas sustentáveis. Na Colômbia, por exemplo, o projeto Vigias Socioambientais capacita líderes comunitários como guardiões do meio ambiente, para implementar projetos de descontaminação da água, saneamento básico e preservação de nascentes. O projeto já capacitou 2.300 colombianos.

Inicialmente centrado na questão ambiental, na década de 1970, o conceito de sustentabilidade passou a incorporar aspectos sociais como a promoção de relações justas de trabalho, a partir dos anos 1990. É dessa época a derrapada da Nike, a maior fabricante mundial de artigos esportivos, acusada de fazer vistas grossas ao emprego de mão-de-obra infantil por seus fornecedores de tênis e bolas esportivas na Ásia.

Governança

Mais recentemente, questões como a governança corporativa e a transparência financeira ganharam destaque. Afinal, depois de escândalos como o da americana Enron, que quebrou por causa de práticas contábeis duvidosas, nenhum investidor quer correr risco parecido.

Junto com desastres ambientais como o provocado pelo navio Exxon Valdez, que despejou 41 milhões de litros de petróleo na costa do Alasca em 1989, episódios como o da Nike e da Enron têm lugar garantido na galeria das grandes catástrofes da imagem corporativa. E costumam traduzir-se em pesados prejuízos para a participação de mercado e para o caixa das empresas envolvidas, ameaçando mesmo sua sobrevivência.

E difícil medir quanto uma empresa ou um setor inteiro de atividade têm a ganhar ao adotar uma prática de sustentabilidade conseqüente, tampouco se ela é um passa porte seguro para o sucesso — fosse assim, a Natura, uma das empresas pioneiras e mais admiradas nesse campo, no Brasil, não estaria há décadas patinando na implantação de sua estratégia de internacionalização.

Mas é fácil imaginar o que poderem perder sem a sustentabilidade ou se derem margem a suspeitas de que ‘ seus princípios. Prova disso é o estrago pelo documentário Mistura Mortal: o Pedágio Humano do Etanol, divulgado pelo Bloomber, o mais influente canal televisivo de negócios dos Estados Unidos, recheado de críticas às relações trabalhistas nos canaviais brasileiros.

Ao denunciar a existência de condições precárias de trabalho e o número elevado de mortes e de acidentes entre os cortadores de cana, o documentário causou um sério prejuízo ao etanol brasileiro, num momento em que esse combustível desponta como uma das grandes vantagens competitivas do país para concorrer na economia global.

Os percalços da natura

Sustentabilidade, no Brasil tem nome e sobrenome: Natura. As boas práticas de cidadania corporativa estão no DNA da maior fabricante nacional de cosméticos — cultivadas praticamente desde seu nascedouro, na década de 1970. Antes mesmo que o tema ganhasse espaço na agenda empresarial, a Natura já impunha cláusulas de veto ao trabalho infantil nos contratos com seus fornecedores. Seu trabalho com a comunidade da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, no Amapá, onde 30 famílias vivem da extração da castanha, granjeou-lhe a admiração da sociedade e amplos espaços na mídia.

No entanto, pelo menos até agora essa imagem de empresa sustentável não foi suficiente para pavimentar sua trajetória internacional. Desde 1994 na estrada, com a implantação de suas primeiras operações no Chile, a Natura ainda não reproduziu o sucesso obtido no mercado interno. As receitas provenientes do exterior patinam na casa dos 2% de seu faturamento total. Mais do que isso, os prejuízos decorrentes de seu processo de internacionalização, que parece não ter encontrado ainda um modelo apropriado, são apontados entre as causas do desempenho preocupante de 2007, ano em que seu valor de mercado caiu 45%, ao mesmo tempo em que assistia a concorrentes como a Avon ganhar musculatura e crescer em velocidade superior à sua no país.