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Jornal do Brasil online

Neandertais eram inteligentes e artistas

Publicado em 15 janeiro 2010

O consenso entre paleontólogos de que o homem de Neandertal tinha menor capacidade cognitiva do que os humanos modernos está sendo desafiado. Nova pesquisa indica que ele era mais inteligente do que se imaginava. Uma equipe de pesquisadores afirma ter encontrado fortes indícios de que o homem de Neandertal pintava o corpo e confeccionava adornos há 50 mil anos. A prática da ornamentação corporal é considerada pela ciência como evidência de comportamento moderno e de pensamento simbólico entre humanos - mas até agora não havia sido identificada em neandertais.

- Esta é a primeira evidência segura de que o comportamento dos neandertais foi organizado simbolicamente, isso cerca de dez mil anos antes dos primeiros registros de humanos modernos na Europa - diz o pesquisador João Zilhão, do Departamento de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Bristol, no Reino Unido.

Cosméticos

Conchas contendo resíduos de pigmentos foram encontradas em dois sítios arqueológicos em Múrcia, no sul da Espanha. Cientistas liderados pelo português João Zilhão analisaram as conchas coloridas e perfuradas que teriam sido penduradas no pescoço pelos neandertais há cerca de 50 mil anos. Os pesquisadores também encontraram amostras de pigmentos amarelo e vermelho que teriam sido usados como cosméticos.

Uma concha (Spondylus gaederopus) achada pelo grupo contém resíduos de uma massa pigmentosa avermelhada feita de lepidocrocita misturada com pedaços de hematita e de pirita (que tem aparência brilhante), indicando um uso que se esperaria em uma preparação cosmética.

Uma concha de molusco parece ter sido pintada de vermelho no exterior, para combinar com a coloração interna.

- A concha estava quebrada e claramente era algo que havia sido usado e descartado - diz Zilhão.

Segundo os pesquisadores, a escolha desse tipo de concha como recipiente para uma mistura consideravelmente complexa pode estar relacionada à forma exuberante e às tonalidades chamativas originais, como carmim e violeta, o que levou ao seu uso em uma variedade de contextos arqueológicos em diversas regiões do mundo.

Os autores do estudo identificaram o pigmento amarelo, que deve ter sido armazenado em uma bolsa feita de pele ou de outro material perecível e não encontrado, como natrojarosita, um minério de ferro usado como cosmético no Antigo Egito.

Há tempos tem se discutido se ossos decorados e dentes perfurados e moldados, encontrados em Châtelperron, na França, pertencentes à denominada cultura chatelperroniana, teriam sido ou não feitos pelos neandertais. Para Zilhão, o novo estudo indica que sim.

- As evidências encontradas nos sítios em Múrcia removem as últimas nuvens de incerteza com relação à modernidade do comportamento e da cognição dos últimos neandertais e, por consequência, mostram que não há mais motivos para continuar a questionar a autoria neandertal dos artefatos simbólicos.

Objetos e adornos como as conchas teriam sido usados para "dizer aos outros quem você é", afirmou Zilhão:

- Elas são como cédulas de identidade socialmente reconhecíveis. É exatamente assim que os mesmos tipos de objetos e descobertas são interpretados em contextos antigos dos humanos modernos. Humanos e neandertais se comportavam da mesma forma, até onde temos informações para avaliar.

Agências Fapesp e internacionais