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Navios da USP ficam encalhados por falta de verba e projeto

Publicado em 03 novembro 2015

São Paulo (SP) - O desafio de fazer oceanografia de ponta sem grandes navios na USP se agravou – e não tem data para melhorar. O histórico navio Professor W. Besnard, parado desde 2008 após um incêndio, vai virar sucata em breve.

Ao mesmo tempo, a embarcação de pesquisa Alpha Crucis, comprada em 2012 por R$ 23 milhões, como uma grande promessa da oceanografia latino-americana, está parada há quase dois anos. O mítico Besnard, que fez diversas travessias do perigoso estreito de Drake, no sul da América do Sul, em direção à periferia da Antártida, local da base brasileira em reconstrução, está ancorado num canto pouco movimentado do porto de Santos.

No ano passado, o Instituto Oceanográfico da USP aprovou a doação para o Uruguai do navio, que custa, parado, R$ 22 mil por mês. O preço do traslado e da manutenção mensal do barco, porém, fez com que o país vizinho abortasse a missão.

Nenhum dos planos imaginados para o navio que operou de 1967 a 2008, e fez cruzeiros memoráveis para quem participou deles, vingou. A USP firmou um convênio com a empresa que administra o porto de Santos para que o Besnard fosse transformado em museu, no próprio cais do Valongo – ao lado do que seria uma base de pesquisa da universidade.

Sem dinheiro no cofre, o projeto não saiu. A ideia de afundar o Besnard, para que ele virasse um recife artificial na costa paulista também esbarra na questão do custo e está descartada.

"Nós vamos desmontar e recuperar todos os objetos e estruturas de valor histórico do Besnard e colocar no nosso museu [na Cidade Universitária, em São Paulo]", afirmou à Folha o professor Frederico Brandini, atual diretor do Instituto Oceanográfico.

O cientista, que esteve na primeira viagem do Besnard à Antártida em 1982, afirma que o importante é preservar a memória do navio. "É igual quando alguém morre. O corpo a gente enterra."

Sobre o futuro, o diretor do Instituto Oceanográfico está otimista. Segundo Brandini, o Alpha Crucis deve estar de volta ao mar entre dezembro deste ano e janeiro de 2016. Comprado usado da Universidade do Havaí (EUA), ele está em um estaleiro do Ceará, que ganhou a licitação, para fazer o que em tese deveria ser uma vistoria de rotina.

Quando os trabalhos começaram, relata Brandini, novos problemas surgiram. "É igual em casa, quando você abre um cano às vezes não sabe direito o que tem lá." Os novos reparos, além da vistoria, vão custar mais R$ 600 mil, além dos R$ 2,6 milhões orçados inicialmente. Antes de ir de Seattle (EUA) a Santos (SP), o Alpha Crucis passou por uma reforma completa, paga pela USP e pela Fapesp, agência de fomento à pesquisa de São Paulo.

Desde que chegou, porém, em 2012, o navio ficou mais tempo parado do que em viagens oceanográficas. Tanto a crise financeira da USP como problemas burocráticos nas licitações para a nova vistoria colaboraram para aumentar o problema. Foram 13 cruzeiros até agora durante 147,5 dias no mar.

As campanhas geraram informações para vários projetos de pesquisa, segundo a direção do Instituto Oceanográfico. Brandini, no entanto, admite que há diversos atrasos em pesquisas científicas pelo fato de o navio estar fora de circulação.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo