Notícia

Jornal da Unesp

Natureza que cura

Publicado em 01 julho 2003

Há 16 anos, os biólogos Luiz Claudio Di Stasi e Clélia Akiko Hiruma-Lima, ambos do Instituto de Biociências (IB) da UNESP, campus de Botucatu, iniciaram, na região do município de Humaitá, na Amazônia, um estudo etnofarmacológico, ou seja, uma pesquisa que buscava aliar o conhecimento popular ao científico em busca de novos medicamentos farmacoterápicos e fitoterápicos. O resultado está agora registrado no livro Plantas medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. Com 604 páginas, a obra, publicada pela Editora UNESP, é um dos raros registros brasileiros sobre plantas desses dois ecossistemas, expostos a constantes ameaças por explorações predatórias. "O que resta da Mata Atlântica é pouco estudado", lembra Di Stasi. "De todo o nosso ecossistema, apenas 5% é bem conhecido", completa Clélia. Muito mais que informações sobre o uso de fitoterápicos, o livro traz estudos do potencial medicamentoso e do grau de toxicidade de 135 espécies de vegetais comumente utilizados pelas comunidades ribeirinhas do rio Madeira e de seus afluentes, na Amazônia, entre elas a aldeia dos índios Tenharins, e também pelas populações rurais e urbanas dos municípios de Eldorado, Jacupiranga e Sete Barras, no Vale do Ribeira, região da Mata Atlântica paulista. Reúne, ainda, informações preciosas de grande interesse para a indústria farmacêutica e para os habitantes locais, que vivem da extração e do comércio dessas plantas. "Além da melhor utilização das plantas em benefício da saúde humana, esse conhecimento é importante para a exploração sustentável dos ecossistemas", esclarece Di Stasi. (Veja quadro.) Quando Di Stasi e Clélia começaram a pesquisa, em 1987, a idéia era coletar plantas com propriedade analgésica para estudo em laboratório. A publicação de livros não estava nos planos. Mas diante do grande número de espécies encontradas e da riqueza dos depoimentos coletados entre os moradores das comunidades, os pesquisadores notaram a importância de preparar um material o mais completo possível e que pudesse ter ampla divulgação. Os primeiros estudos foram publicados em 1989, também pela Editora UNESP, no livro Plantas medicinais da Amazônia, onde estão catalogadas 59 espécies medicinais da região. "A atual edição é na verdade uma nova publicação, à qual se somaram os dados da primeira edição", explica Di Stasi, que também assina alguns desenhos de plantas que ilustram o livro. A publicação ainda tem o mérito de mostrar a possibilidade da convivência entre os rigores da academia e o empirismo do conhecimento popular, ao menos no que diz respeito aos fitoterápicos. "De uma forma geral, a academia não valoriza o conhecimento empírico", lamenta Di Stasi. Mas neste caso, o livro prova a eficácia da costura entre o saber do povo e o acadêmico. Cada uma das 135 espécies está descrita pelo seu nome científico e popular, pelas diferentes maneiras como é empregada na medicina tradicional, pelos dados botânicos e farmacológicos do gênero. A bióloga Clélia conta que, em Humaitá e no Vale do Ribeira, as abordagens à população sobre o uso medicinal das plantas encontradas eram realizadas de casa em casa. Os alvos eram as pessoas com maior conhecimento sobre as ervas, saberes que a própria população local atribui aos "raizeiros", às benzedeiras e aos índios. "Estamos vendo esses ecossistemas se acabarem sem serem catalogados, pois mesmo nessas comunidades só os mais antigos detêm esse conhecimento", avalia. De posse de algumas espécies já catalogadas pelos botânicos e com os relatos das aplicações populares, os pesquisadores partiram para o laboratório e se viram diante de algumas surpresas. É o caso, por exemplo, da espécie Croton cajucara, conhecida na região amazônica como sacaca e cajuçara. De acordo com Clélia, naquele local, o chá preparado com as folhas e cascas é largamente empregado contra dores de estômago, febres, problemas hepáticos, malária, úlcera, gastrite e também como um eficaz emagrecedor. Em laboratório, foi constatado, além do potencial para a cura de problemas estomacais e hepáticos, que em maior dosagem a planta exerce atividade hepatotóxica. "O efeito tóxico da planta para o fígado, na realidade, era o que fazia as pessoas emagrecerem, já que elas ficavam doentes", relata Clélia. Por se tratar de uma planta endêmica, só utilizada na região amazônica, os pesquisadores elaboraram alguns artigos científicos com os resultados de análises em laboratório e de aplicações em ratos. O intuito foi alertar a população sobre os efeitos tóxicos da Croton cajucara, responsável, inclusive, por alguns óbitos. "Proporcionamos informações não somente quanto à forma correta de utilização das ervas, mas também quanto ao preparo", esclarece Clélia. Posteriormente esse estudo resultou em teses de doutorado que comprovaram a atividade da planta como antiulcerogênico e também o seu efeito tóxico. "Na área de plantas medicinais a UNESP é uma das instituições de ensino brasileiras que mais publica em revistas científicas", comenta Di Stasi, ressaltando a importância das diversas pesquisas realizadas na Universidade a partir do conhecimento popular. Exemplos semelhantes ao da Croton cajucara, envolvendo o uso e a comercialização incorretos dos fitoterápicos também acontecem nas comunidades da Mata Atlântica, pondo em perigo a saúde da população. "Os usuários de ervas quase sempre desconhecem os efeitos nocivos das plantas", avalia Di Stasi. O docente cita o caso da espécie Wilbrandia ebracteata, comercializada largamente como se fosse a Cayaponia tayuiya, a taiuiá verdadeira. Da falsa taiuiá, ou Wilbrandia, a comunidade comercializava apenas o tubérculo, pelo seu potencial para curar problemas estomacais, dores e para o controle do diabetes. No entanto, a população desconhecia que a substância contida no tubérculo, quando empregada em grande quantidade, também poderia provocar problemas no fígado." Preocupado com o fato de que o comércio do tubérculo representava um sério risco de extinção para a espécie, Di Stasi e sua equipe estudaram os efeitos farmacológicos das folhas de Wilbrandia e comprovaram a presença de substâncias ativas no combate de úlceras, além de determinarem a ausência de toxicidade. "A pesquisa, além de garantir a eficácia e a segurança de uso das folhas desta espécie, permitiu uma exploração sustentável do produto sem risco de extinção da espécie e com benefícios complementares para a população que explora este produto", explica o docente. As propriedades terapêuticas das plantas medicinais encontradas em nossos ecossistemas são inesgotáveis, acreditam os pesquisadores da UNESP. As razões são várias. Uma delas é a interação do homem com o ambiente, marcada pelo dinamismo do conhecimento popular. "A cada viagem as comunidades faziam usos diferentes de uma mesma planta já estudada anteriormente", lembra. As plantas também reagem ao ambiente, produzindo seus sistemas de defesa e suas sobrevivências, o que faculta aos vegetais das matas tropicais serem quimicamente mais ricos do que seus semelhantes das florestas temperadas. Há ainda a interação entre as próprias plantas. Clélia relata o caso do estudo de duas espécies de hortelã. "Plantadas em pontos eqüidistantes, interagem entre si, dando origem a uma subespécie, com propriedades medicinais diferentes", afirma. De acordo com Di Stasi, a cada metro quadrado de floresta tropical há aproximadamente 50 espécies de plantas disputando o mesmo pedaço de terra. "A floresta interage para a sobrevivência da própria planta. O homem é que vai à floresta à procura de medicamento para seus males", diz. Ele argumenta que a farmacologia moderna é toda ela baseada em plantas medicinais e que é possível encontrar nelas resposta para quase todos os problemas de saúde. "No passado acreditava-se que a síntese de substâncias em laboratório era um processo mais econômico do que trabalhar na pesquisa de plantas medicinais", salienta o biólogo. Hoje, segundo os pesquisadores, as fórmulas para a síntese de substâncias em laboratório estão ficando cada vez mais complexas. Essa é a razão que poderá levar os pesquisadores de volta às florestas. Mas, segundo eles, para evitar a falência dos ecossistemas, a saída é buscar nas plantas novas fórmulas para a posterior síntese em laboratório. "Ninguém conseguiu fazer isso ainda no País", esclarece Di Stasi. "E, quando conseguir, é preciso engendrar mecanismos de comercialização para garantir o benefício de todas as partes envolvidas no processo, inclusive as comunidades", diz, enfatizando a importância do RedeBio da Fapesp. Os vaivens dos pesquisadores entre Botucatu e Humaitá guardam feitos memoráveis. Na época das primeiras viagens, a Universidade mantinha um campus avançado na região amazônica, onde alunos de diversos cursos, por meio de convênio com o Projeto Rondon, realizavam trabalho de extensão, dando atendimento multidisciplinar à população carente. Sem contar com financiamento externo, o único jeito de os biólogos realizarem seus projetos de pesquisas foi aproveitar os aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), que transportavam os estudantes da UNESP de São Paulo até Humaitá. De Humaitá até as aldeias, eram mais 120 km, em direção ao Norte, pela rodovia Transamazônica, a bordo dos veículos do Batalhão da Selva. "Nem todo mundo conseguia chegar ao destino", comenta Di Stasi, lembrando a dificuldade de se trafegar na estrada. "E quem chegava nem sempre conseguia a informação desejada", reforça Clélia. Para entrevistar as comunidades ribeirinhas do Rio Madeira, foram utilizados barcos, cedidos pelas lideranças locais. Na aldeia dos Tenharins, o trabalho foi um pouco mais difícil. "Até conquistar a confiança das lideranças indígenas, voltamos quatro vezes ao local e realizamos diversas entrevistas. Nosso compromisso foi divulgar apenas o permitido por elas, respeitando os interesses das comunidades." Os docentes do IB salientam que mais da metade dos acervos de plantas coletados nos dois ecossistemas florestais não pôde entrar no livro por ainda não terem sido catalogadas ou por não estarem floridas na época das expedições, já que a flor é a parte essencial para a identificação da planta. "Pelo menos cem espécies ainda não haviam sido catalogadas e só os botânicos podem fazê-lo", explica Di Stasi. As exsicatas - planta seca e prensada para conservar todas as características - das espécies amazônicas foram enviadas aos herbários do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do IB campus de Botucatu e ao IB campus de Rio Claro. Quanto às exsicatas das plantas pesquisadas na Mata Atlântica, parte delas está no IB de Botucatu e a outra, no herbário Barbosa Rodrigues, em Itajaí, em Santa Catarina. "Continuaremos estudando as plantas medicinais da Mata Atlântica e do Cerrado paulista", planeja Di Stasi. A pesquisa priorizará a padronização de produtos potenciais para a comercialização, como medicamentos fitoterápicos ou farmacoterápicos úteis ao combate de problemas do trato gastrointestinal, especialmente no tratamento de úlceras, diarréias, colite ulcerativa, doença de Crohn e câncer de cólon. "Em um intercâmbio que já dura vários anos com o pesquisador Maurício Sedrez dos Reis, da Universidade Federal de Santa Catarina, pretendemos estudar os mecanismos de exploração desses produtos, determinando parâmetros necessários para explorá-los de forma sustentável, garantindo assim melhor renda aos habitantes da floresta e de seu entorno, além da conseqüente preservação do ecossistema", conclui o docente do IB.