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"Nature" dedica sua capa ao Brasil

Publicado em 28 julho 2000

A renomada revista científica inglesa, em sua edição de 12 de julho, publicou como artigo de capa o texto sobre o seqüenciamento do genoma da Xylella fastidiosa, realizado por equipe brasileira sob a liderança de Andrew Simpson, com apoio da Fapesp. A "Nature" também focalizou o assunto no editorial "Seqüenciamento de genoma para todos", cuja tradução aqui divulgamos. O seqüenciamento bem-sucedido de um patogene de planta por pesquisadores brasileiros é uma realização política tanto quanto científica. Há um equivoco comum de que somente nações avançadas e industrializadas têm o potencial e o pessoal qualificado necessários para se praticar a ciência de ponta eficaz. Esta concepção foi aventada pelo número de pesquisadores de países em desenvolvimento que acham necessário obter seu treinamento de pesquisa no exterior - e decidem não voltar, alegando uma falta de oportunidade científica Mas isso foi desmentido por um artigo publicado nesta edição que descreve o resultado de um projeto levado por um consórcio de Centros de Pesquisa do Estado de São Paulo no Brasil para seqüenciar a bactéria Xylella fastidiosa. Esta bactéria causa uma doença que afeta frutas cítricas e outras safras importantes, resultando num prejuízo de muitos milhões de dólares por ano. Como a primeira seqüência pública de um patogene de planta free-living, o artigo representa um marco científico significativo. Mas também envia um claro sinal político, notadamente o desejo e a capacidade de países como o Brasil de jogar na liga mundial. O projeto de seqüenciamento foi escolhido deliberadamente pela sua principal agência financiadora, a Fapesp, para desempenhar um papei catalisador ajudando grupos de pesquisa a se prepararem eles mesmos para o desafio da era pós-genômica. Também se pretendeu enviar um sinal para os jovens cientistas do Brasil de que eles não precisam deixar o país para participar da ciência de nível mundial. Em ambos os aspectos parece que houve sucesso. É claro que o seqüenciamento do genoma da Bactéria e só o primeiro passo até o controle dos danos que ela causa. O próximo é aplicar a genômica funcional para entender como operam os genes da bactéria, abrindo caminhos para a possível intervenção, restringindo sua disseminação por insetos. Conseqüentemente, o conhecimento do genoma poderia fornecer a informação necessária para gerar variantes resistentes das safras afetadas. Isso levanta um outro conjunto de desafios - convencer o público brasileiro de que plantas transgênicas podem desempenhar um papel econômico importante e, ao mesmo tempo, dar passos firmes para evitar conseqüências sociais e ambientais adversas. Tecnicamente, muito disso jaz de certa forma no futuro. Mas o sucesso do projeto da X. fastidiosa já atraiu expressões significativas de interesse por projetos semelhantes da parte da comunidade de agricultores - uma proposta que está na ordem do dia é a de que os mesmos centros de seqüenciamento voltem sua atenção para as etiquetas de seqüência expressa do frango (ESTs). Também foi ressaltado o fenômeno bem-vindo e incomum de uma agência do mundo industrializado e avançado - neste caso o Departamento de Agricultura dos EUA, preocupado com o impacto de uma variante da X. fastidiosa nas safras cítricas da Califórnia - contratar a pesquisa de um país em desenvolvimento. Ambas as realizações endossam a propensão do Brasil a entrar na idade pós-genômica de mãos dadas com os cientistas de países mais ricos. (Tradução fornecida pela Fapesp)