Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Nas profundezas da compulsão

Publicado em 17 abril 2013

Por Marcela Ulhoa

Lavar as mãos o tempo todo, escovar os dentes incansavelmente, contar azulejos a cada passo, ser tomado pela mania de limpeza e de organização, ou desenvolver o vício de colecionar todos os tipos de objetos podem ser rituais indicativos do transtorno obsessivo-compulsivo, o TOC. Os portadores do distúrbio são acometidos por um padrão de pensamentos e comportamentos repetitivos, sem sentido lógico, desagradáveis e extremamente difíceis de evitar. “O TOC é um transtorno subdiagnosticado porque as pessoas ou ficam com vergonha de procurar ajuda ou não reconhecem que aquilo é algo patológico”, explica Marcelo Queiroz Hoexter, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Em esforço inédito para a psiquiatria, especialistas em TOC integrantes do Consórcio Brasileiro de Pesquisa em Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo (C-TOC) reuniram a maior amostra de pacientes com o distúrbio já realizada no mundo. O levantamento envolve entrevistas minuciosas de duração média de quatro horas, feitas com 1.001 pessoas com TOC e atendidas em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Pernambuco, na Bahia e no Rio Grande do Sul. O intuito é compreender melhor a origem do problema e desenvolver formas de tratamento cada vez mais eficazes. Os resultados iniciais foram publicados na última edição da Revista Fapesp.

A partir da análise das informações coletadas, os pesquisadores constataram que o TOC raramente é um problema que aparece sozinho. Segundo a pesquisa, apenas 8% das pessoas estudadas apresentam exclusivamente sintomas de obsessão e compulsão. Na maioria dos casos, o problema surge acompanhado de pelo menos um distúrbio psiquiátrico ao longo da vida. O mais recorrente foi a depressão, aparecendo em 68% dos participantes. Em segundo lugar, apareceram os transtornos de ansiedade, acometendo 63% dos pacientes. Já quase 35% apresentavam sinais de fobia social.

De acordo com Marcelo Queiroz Hoexter, um dos pesquisadores do C-TOC, as comorbidades já eram conhecidas, mas essa foi a primeira vez que foi realizado um levantamento extenso a respeito. As constatações dão valiosas pistas do por que nem sempre os tratamentos funcionam em casos mais graves. As duas formas de tratamento internacionalmente recomendadas para amenizar os sintomas de TOC são a terapia cognitivo-comportamental e o uso de antidepressivos. Em alguns países, como nos Estados Unidos, há a alternativa da neurocirurgia para pacientes refratários, casos em que nenhuma das duas formas mais brandas surtem efeito.

Acompanhamento

Uma das linhas de pesquisa que integra os esforços dos pesquisadores brasileiros está justamente na compreensão das respostas de intervenções terapêuticas. Ao acompanhar 158 pessoas com TOC por um período de dois anos, a pesquisadora da USP Roseli Shavitt pôde observar que, para os casos leves e moderados, o resultado do tratamento com medicação é semelhante ao efeito da psicoterapia. “Desde que seja um tratamento de primeira linha, o mais importante não é o tipo escolhido, mas mantê-lo por um prazo mais longo”, defende Shavitt. Inicialmente, os dois tratamentos são igualmente eficazes, mas precisam de uma continuidade para que o efeito positivo seja observado. Segundo a pesquisadora, o tratamento para TOC não é imediato, é comum que dure a vida toda.

Ainda sobre as respostas terapêuticas, Hoexter desenvolveu uma análise diferente e complementar à conduzida por Shavitt. Seguindo uma linha neurobiológica do transtorno, o pesquisador usou a técnica de ressonância magnética estrutural para fotografar e mapear a ação dos antidepressivos e da terapia cognitivo-comportamental no cérebro. A constatação final é de que os dois tratamentos modificam não só o funcionamento, mas a estrutura de algumas regiões cerebrais de pessoas com TOC. “Sabíamos que as duas modalidades de tratamento têm respostas muito parecidas e são igualmente eficientes, mas não entendíamos como essas intervenções mudam o cérebro, ou seja, qual é o mecanismo biológico por trás disso”, ressalta Hoexter.

Segundo o pesquisador, pelos exames de neuroimagem, também foi possível perceber que o TOC induz um aumento de consumo de energia em uma região do córtex-frontal. Após a administração de antidepressivos nos pacientes ou submetê-los à terapia cognitivo-comportamental, os médicos constataram a diminuição da hiperatividade dessa região do cérebro. Faltavam, no entanto, ainda estudos que avaliassem e comparassem o tamanho das estruturas cerebrais antes e depois do tratamento. Foi o que a equipe de Hoexter se propôs a fazer. “Pegamos uma amostra de pacientes com TOC que nunca tinham sido submetidos a nenhum tratamento e fizemos um exame de ressonância magnética do crânio antes de iniciar os procedimentos. Medimos uma série de volumes de diversas estruturas cerebrais”, conta o pesquisador.

Os cientistas, então, dividiram aleatoriamente os pacientes. Uma parte recebeu o antidepressivo fluoxetina e a outra foi submetida à terapia cognitivo-comportamental. Depois de 12 semanas, os voluntários passaram novamente pelo exame de ressonância magnética. Os cientistas compararam as medidas cerebrais antes e depois do tratamento. “A gente observou que tanto os pacientes que tomaram a fluoxetina quanto os que foram para a terapia apresentaram uma melhora muito similar do sintoma. A diferença é que aqueles que tomaram antidepressivo apresentaram um aumento do volume do putâmen, uma estrutura cerebral profunda que está muito implicada na patologia do TOC.”

Com isso, surge a hipótese de que a administração do medicamento provoca um aumento da plasticidade da região, que passa a ser mais eficiente na comunicação com o restante do cérebro, apresentando um aumento das conexões dos neurônios. Já os pacientes submetidos à terapia não mudaram a estrutura cerebral, apesar de terem melhorado os sintomas. “O resultado sugere que, apesar dos dois (tratamentos) serem eficazes, o mecanismo de ação no cérebro é diferente. Provavelmente, a terapia mexe em outras áreas que não fomos capazes de detectar ainda”, pondera Hoexter.

Depoimento

Excessos já na infância

Eu tinha 27 anos quando um episódio me marcou tanto que resolvi pedir ajuda. Eu estava dirigindo, voltando para casa de um churrasco no sábado. Durante o percurso, achei que tinha atropelado uma pessoa. Aquilo me deu uma ansiedade muito grande, eu caí na dúvida, na culpa e comecei a voltar pelos lugares em que eu tinha passado. Olhava o carro e não tinha marca. Fiquei quase uma semana sem dormir. Eu ia de carro para o trabalho, mas pegava um farol amarelo e já era motivo de muita tensão. Toda vez que saía de carro era muito estressante. Eu tinha várias outras manias, mas não me incomodavam muito. Depois de três meses desse episódio, eu estava passando de carro em uma ponte em São Paulo e fiquei durante três horas subindo e descendo a ponte. Foi quando eu falei para mim mesmo que estava ficando maluco e precisava de ajuda.

Fui a uma terapeuta e descobri que esse problema vinha desde a infância. Os meus primeiros TOCs eram ligados à organização e à higiene. Eu escovava os dentes de 20 a 25 vezes por dia porque tinha a impressão de que ia ter cárie. Tinha o hábito de acumular jornais, moedas, relógios, caixas de cigarro. Eu era acumulador, não conseguia me desfazer de nada. Quando eu fui diagnosticado, em 2007, logo depois conheci a Astoc (Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e descobri que não estava sozinho. A minha primeira melhora foi próxima ao Natal: eu cheguei em casa e me desfiz de todas as coisas que tinha guardado durante anos. Eu já tinha tido síndrome do pânico em 2001 e passado por uma depressão em 2002, só que o TOC me ocupava e eu não tinha noção disso. O TOC é uma doença silenciosa, você sofre, mas não compartilha com ninguém. Hoje, digo que estou superbem, faço terapia, tomo antidepressivo e sempre vou aos grupos de apoio. O ser humano é curado pela fala, faz bem para mim dar depoimento para o jornal. As pessoas se escondem, é difícil assumir, mas faz bem. (MU)

Caio Wilmers Manço, 35 anos, morador de São Paulo

Avaliação inédita

Uma série de estudos coordenados por pesquisadores brasileiros ajuda a compreender melhor o transtorno obsessivo-compulsivo e encontrar formas eficientes de tratamento. Os resultados foram publicados na edição mais recente da Revista Fapesp.

TOC

O transtorno obsessivo compulsivo (TOC) é um distúrbio psiquiátrico de ansiedade caracterizado pela presença de crises recorrentes de obsessões e compulsões. Trata-se de manias e rituais que são incontroláveis ou dificilmente controláveis.

É considerado o quarto diagnóstico psiquiátrico mais freqüente na população.

Em geral, os rituais se desenvolvem nas áreas da limpeza, checagem ou conferência, contagem, organização, simetria e colecionismo, e podem variar ao longo da evolução da doença.

CLASSIFICAÇÃO

Existem dois tipos de TOC:

a) Transtorno obsessivo-compulsivo subclínico: as obsessões e rituais se repetem com frequência, mas não atrapalham a vida da pessoa.

b) Transtorno obsessivo-compulsivo propriamente dito: as obsessões persistem até o exercício da compulsão que alivia a ansiedade.

CAUSAS

O TOC é consequência de um problema na interação de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais

Essa interação altera o funcionamento de circuitos que conectam áreas mais externas do cérebro (regiões do córtex ligadas ao processamento das emoções, e do planejamento, e ao controle das respostas de medo) a áreas internas (como os núcleos da base e o tálamo, que regulam a resposta ao ambiente)

Fatores psicológicos e histórico familiar também estão entre as possíveis causas desse distúrbio de ansiedade.

TRATAMENTOS COMPARADOS

1 – Foram selecionadas 38 pessoas com TOC que jamais haviam sido tratadas. Elas foram encaminhadas aleatoriamente para um grupo de terapia e outro de uso de antidepressivo. Os cientistas analisaram imagens cerebrais feias com ressonância magnética no início do estudo e depois de três meses e tratamento.

2 – Nas pessoas que tomaram a fluoxetina, o putâmen, estrutura no meio do cérebro ligada ao controle de movimentos grosseiros, teve o volume aumentado. O resultado sugere que a medicação provoca uma alteração morfológica que começa nas regiões mais profundas do cérebro e caminha para as mais superficiais, como o córtex.

3 – Já a terapia cognitivo comportamental teve efeito contrário: influenciou primeiro a remodelagem da região cortical, ligada a consciência e depois de áreas mais profundas.

4 – Nos casos leves e moderados, o resultado do tratamento com medicação é semelhante ao efeito da psicoterapia.

INTERVENÇÃO RADICAL

A mais extrema das opções de tratamento é uma cirurgia cerebral que interrompe a comunicação entre partes do circuito neural, envolvidas no problema. No Brasil, a intervenção só é feita de forma experimental.

Em uma pesquisa também da USP, 17 pessoas com o transtorno em alta gravidade – quando remédios e terapia não apresentam resultados – foram submetidas ao procedimento. Em metade delas, os sintomas foram controlados.

Fonte: Revista FAPESP e site do Drauzio Varella