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“Nas indústrias, há poucos que fazem uso da grande capacidade científica das universidades”, diz José Goldemberg

Publicado em 16 julho 2019

Por Janes Rocha – Jornal da Ciência

O Jornal da Ciência convidou todos os ex-ministros da Ciência e Tecnologia para fazer um diagnóstico da situação atual da área e sugerir soluções. Oito deles atenderam ao convite e cada um respondeu, por telefone ou e-mail, a três questões: Como vê a Ciência e a Tecnologia no Brasil hoje? Que estratégia sugere para a comunidade científica para atuar nesse cenário? e Que estratégia sugere para o desenvolvimento futuro?

Os oito depoimentos estão publicados na nova edição impressa do Jornal da Ciência que circula essa semana. O primeiro é do físico José Goldemberg, que exerceu o cargo em um tempo já distante, quando o Brasil saía de 21 anos de ditadura civil-militar e retomava a democracia. Ele foi ministro do governo Fernando Collor de Mello (15/03/1990 a 21/08/1991), quando o Ministério foi colocado na condição de Secretaria ligada à Presidência da República.

Leia abaixo a entrevista:

JC- Como vê a Ciência e a Tecnologia no Brasil hoje?

José Goldemberg- A julgar pelo número de publicações, formação de mestres e doutores o setor de C&T do Brasil vai bastante bem, principalmente nas universidades do Estado de São Paulo UFRJ, UFRGS, UFMG, Unifesp, UFPR, UFSC, Embrapa, Fiocruz. O problema é que 80% dos pesquisadores do país estão nas universidades públicas. Nos países industrializados como os Estados Unidos cerca de dois terços da atividade de C&T está nas empresas, enquanto no Brasil apenas um terço ocorre fora do sistema estatal. Nas empresas, particularmente nas indústrias, há poucos que fazem uso da grande capacidade científica que foi desenvolvida e existe nas universidades. Em outras palavras o sistema científico do país é essencialmente estatal e seu financiamento depende, portanto das variações que ocorrem na economia. Na crise econômica em que estamos há anos, a arrecadação de impostos diminuiu e daí os cortes orçamentários e contingenciamento em todos os setores. Número de publicações, contudo não é um indicador muito bom porque não mede a qualidade do trabalho. O impacto da publicação é um indicador melhor e nesse particular o país está na média mundial o que não diz muito. É obvio que a qualidade do trabalho científico do país precisaria aumentar.

JC – Que estratégia sugere para a comunidade científica para atuar nesse cenário?

Goldemberg- Reivindicar um tratamento privilegiado para o setor de ciência e tecnologia é visto pela área econômica como uma reivindicação corporativa. Todos os setores (saúde, transporte, segurança, etc.) usam os mesmos argumentos de que são prioritários e suas necessidades inadiáveis. Acho ingênua a ideia de que um forte sistema de C&T estatal impulsionaria a expansão da atividade industrial. Esta é a situação atual em que é o sistema estatal (universidades e institutos) produzem ciência aguardando que a sociedade use sua competência. Nos países industrializados a demanda por C&T é grande devido à competição e eles procuram cientistas nas universidades e institutos para encontrar solução para seus problemas. Enquanto o setor industrial não se expandir e se tornar mais competitivo ele não vai necessitar da ciência e tecnologia que está nas universidades. A Finep e a Embrapii financiam indústrias e o setor privado em geral no lado da demanda e uso de C&T, mas a FINEP durante muito tempo se concentrou em atividades na área de oferta financiando as universidades e institutos de pesquisa.

JC – Que estratégia sugere para o desenvolvimento futuro?

Goldemberg – A estratégia para o futuro, a meu ver, não deve ser demandas corporativas, mas negociar com o governo a garantia de um mínimo de recursos que seriam um piso garantido no orçamento como são os recursos da Fapesp e das universidades paulistas. Com isto os dirigentes poderiam planejar suas atividades e aprender a viver dentro de um orçamento que é previsível. O sucesso do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) deve muito a este sistema. As universidades estatais dificilmente seguiriam este modelo porque seus professores e pessoal de apoio são funcionários públicos. O sistema usado para financiar as universidades públicas do Estado de São Paulo que atribuiu a elas uma fração do ICMS e dá aos reitores a responsabilidade de gerir os recursos – um verdadeiro atestado de maioridade aos reitores – parece ser o melhor caminho.

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