Notícia

Jornal da USP

Nas fronteiras das ciências da Terra

Publicado em 16 julho 2012

Por Sylvia Miguel

Ferro, oxigênio, silício, níquel, enxofre e titânio formam uma combinação mágica de massas que constituem a Terra. Embora exista um consenso sobre a formação mineral do manto, ainda é remoto o conhecimento sobre as diversas camadas do planeta. Sem amostragens da composição química do interior da Terra, basicamente o que os geofísicos conhecem são as propriedades sismológicas mapeadas por sondas que permitem medir velocidade e densidade dessas regiões remotas. Porém, a partir de cálculos usando os primeiros princípios da física quântica aplicados às características físicas dos minerais, as informações sobre as propriedades do interior da Terra ficaram mais acuradas e confiáveis.


A técnica de cálculo desenvolvida por uma brasileira não só inaugurou um novo campo de pesquisa na área de física de minerais como ajudou os geofísicos a entender melhor as correntes de convecção que movimentam as placas tectônicas. Formada pela USP e especialista em Mecânica Quântica, a inventora da técnica, professora Renata Maria Matosinho Wentzcovitch, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, esteve na Universidade participando do ciclo Conferências USP, nos dias 2 e 3 de julho, realizado na Escola Politécnica da USP. O tema desta edição do evento foram as Ciências da Terra. Durante um intervalo do evento, a cientista conversou com a reportagem do Jornal da USP e descreveu um pouco mais sobre seu campo de estudo (leia o texto ao lado).


Além de Renata, outros cientistas de renome internacional apresentaram temas da fronteira do conhecimento nas áreas de oceanografia, geologia, geofísica, ciências atmosféricas, mudanças climáticas e as intersecções dessas áreas com a química, a biologia e a física. A programação buscou abordar os estudos mais recentes sobre a evolução do planeta. “A intenção foi promover o intercâmbio e debates de alto nível em temas ainda pouco conhecidos das ciências da Terra”, disse o professor Wilson Teixeira, do Instituto de Geociências (IGc) da USP.


No primeiro dia, a programação organizada pelo Instituto de Geociências, com promoção da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, reuniu especialistas nos chamados envelopes externos do planeta, como atmosfera, oceanos e biosfera. Participaram James Zachos, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, Scot Turnbull Martin, da Universidade Harvard, também nos Estados Unidos, e Maria Assunção Faus da Silva Dias, do IAG, entre outros. Nesse dia, o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, apresentou o programa de fomento à pesquisa voltado às mudanças climáticas.


Alguns dos resultados de pesquisas multidisciplinares realizadas no âmbito do Large Scale Biosphere Atmosphere Experiment in Amazônia (LBA), iniciativa internacional de pesquisa liderada pelo Brasil, foram mostrados pela professora Maria Assunção Faus da Silva Dias. “O efeito da ação humana alterando o clima local, que por sua vez se conecta dinamicamente ao clima global, é um resultado científico mais recente”, disse Maria Assunção. “Sabemos que desmatamentos pequenos aumentam a quantidade de chuva e grandes desmatamentos diminuem a chuva. Os aerossóis colocados na atmosfera pela queima da biomassa alteram a chuva de forma bastante complexa, às vezes diminuindo ou aumentando. Este, portanto, é ainda um tópico que deve ser aprofundado.”


Na segunda jornada de conferências, os palestrantes abordaram questões sobre as camadas mais profundas da Terra, incluindo litosfera, manto e núcleo terrestre, e suas conexões com a gênese de depósitos minerais e de petróleo. Além de Renata Wentzcovitch, participaram Walter Mooney, da United States Geological Survey, Francis Charles Alexandre Albarède, da Ecole Normale Supérieure de Lyon, Walter Roger Buck IV, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, Victor Alberto Ramos, da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, Joaquin Ruiz, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, e especialistas da Petrobras e da Vale do Rio Doce.