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Nas Asas da Engenharia Aeronáutica

Publicado em 01 abril 2013

Por André Siqueira

Aos 6 anos de idade, ela desmontou o televisor da família. Tivesse nascido em outro lar, talvez a bronca tivesse desestimulado seu interesse em conhecer por dentro os aparelhos da casa. Mas o pai, engenheiro civil e elétrico, sempre a incentivou – e, com isso, perdeu também uma máquina de escrever, um telefone, entre outros tantos eletrodomésticos. A compensação foi ver a filha deixar a cidade natal, Recife, para galgar posições em uma companhia na qual muitos engenheiros sonhariam trabalhar. Aos 36 anos, Nirvana Deck é diretora de Tecnologia da Boeing para a América do Sul.

Coube a ela liderar, do escritório da fabricante de aviões em Saint Louis, nos Estados Unidos, o primeiro projeto da Boeing Research & Technology Brazil, braço da companhia na área de pesquisa, criado no ano passado. Em parceria com a Fapesp, a Unicamp, a Embraer e outros institutos locais: um extenso estudo de viabilidade sobre o uso de biocombustíveis em aeronaves, cujo relatório final deverá ser apresentado nas próximas semanas. O trabalho avalia as várias opções de vegetais oleaginosos existentes no País que podem ser utilizados para produzir o querosene de aviação.

A trajetória de Nirvana até a Boeing tem alguns elementos dignos de contos de fadas, com direito a castelo, príncipe e carruagem. Aos 16 anos, ela partiu de Recife rumo aos EUA para um intercâmbio. Foi parar em uma cidade muito menor do que a capital nordestina, no interior do Estado de Missouri, no Meio-Leste americano. Voltou um ano depois, mas deixou por lá um namorado e alguns formulários de aplicação dirigidos a universidades.

Nirvana já sabia, há muito tempo, que queria ser engenheira, mas, no Brasil, não conseguiu realizar o sonho de estudar no Instituto de Tecnologia Aeronáutica, que à época ainda não aceitava inscrições de mulheres (leia boxe).

As excelentes notas na high school abriram-lhe as portas de várias universidades americanas, mas os pais de Nirvana preferiram que ela ficasse por perto, e a jovem começou a cursar Engenharia, na Universidade Estadual de Pernambuco. É quando entra na história o namorado Erick, que veio visitá-la no Brasil. Perante a insistência do casal para que Nirvana concluísse os estudos nos EUA, e do medo dos pais de permitir que a filha morasse sozinha em outro país, o rapaz de apenas 17 anos decidiu pedi-la em casamento. “Ele conquistou a família inteira”, conta Nirvana.

Durante o ano de preparativos, Nirvana decidiu ingressar no curso de Engenharia Mecânica da Washington University in St. Louis, na capital do Missouri. “Eu me senti como uma princesa quando cheguei ao aeroporto e soube que a universidade mandou uma limusine me buscar. E o campus era lindo, parecia um castelo”, lembra. Deslumbramento à parte, a engenheira se diz ainda mais impressionada com a excelente estrutura para os estudos e o ambiente propício à pesquisa.

A parte mais difícil, durante o curso, foi conciliar os estudos com a maternidade – seus dois filhos nasceram durante o curso. Foi uma escolha consciente, ela faz questão de frisar. “Não tinha família por perto, e nem babá, mas achei que ainda seria melhor engravidar antes de iniciar a carreira profissional”, afirma. Mesmo assim, recebeu o diploma com a distinção magna cum laude, reservada aos estudantes que atingem pontuação próxima à máxima no final do curso. “Sem filhos, teria obtido a maior distinção possível, summa cum laude”, afirma ela.

A homenagem abriu as portas do mercado de trabalho. O primeiro emprego foi em uma empresa pequena, o que permitiu a Nirvana atuar em várias áreas da Engenharia. Pouco depois, participou do processo seletivo da Boeing, disputando uma vaga com 317 profissionais. A empresa mantém em Saint Louis algumas linhas de produção, especialmente na área de defesa, nas instalações da antiga McDonnell Douglas, adquirida pela Boeing em 1996. “Na entrevista de emprego, fiz um tour pelas linhas do F-15 e do F-18, e achei a minha praia. É uma empresa que gosta de solucionar problemas, com um ambiente colaborativo”, conta, lembrando um dos mandamentos da empresa: there is no stupid question (em português, não existe pergunta estúpida).

Aprovada na seleção, Nirvana assumiu a função de engenheira ferramental, na montagem da asa do caça F-18. O jato é o mesmo que foi oferecido ao governo brasileiro na bilionária concorrência aberta para renovar a frota da Força Aérea – e ainda não concluída. A nacionalidade, então, fez com que a engenheira recebesse um primeiro convite da empresa para participar de um projeto no País. Mas ela preferiu permanecer na linha de montagem. “Embora eu trabalhasse no apoio à produção, sempre é possível propor melhoramentos em uma máquina como um caça”, diz.

Nirvana só começou a desenvolver uma atividade ligada a seu país natal no ano passado, depois que passou a integrar o time global de tecnologia da Boeing. Desde a criação da unidade de pesquisa brasileira, a engenheira participou de nove workshops no País, e se mantém em contato constante com pesquisadores brasileiros. O objetivo da empresa, explica ela, é ter acesso ao conhecimento acumulado localmente na área de biocombustíveis. “Uma mudança no combustível de aviação é um processo caro e em longo prazo. “Não queremos contar apenas uma matéria-prima”, explica a engenheira, acrescentando que algumas das espécies brasileiras já foram testadas.

O trabalho com as instituições de pesquisa brasileiras permitiu a Nirvana perceber alguns pontos fortes e fracos do País, no que se refere a inovação. “Temos um enorme potencial e há bons trabalhos em andamento. Mas, infelizmente, falta organização e, sobretudo, comunicação. Há professores trabalhando na mesma linha de pesquisa sem colaborar um com o outro, às vezes dentro do mesmo centro de pesquisa”, afirma. “Felizmente, parece que o governo entende isso e as universidades têm dado passos no contato entre si e com as empresas. Precisamos investir em tecnologia se quisermos fortalecer nossa economia.”

ITA vai dobrar de tamanho

Uma das principais escolas de engenharia do Brasil, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) prepara-se para passar pela maior mudança de sua história desde 1996, quando finalmente passou a aceitar mulheres em suas turmas. Com um orçamento de R$ 300 milhões, a ser gasto nos próximos cinco anos em ampliação da estrutura física, qualificação e contratação de docentes, a entidade deverá duplicar o ritmo de formação de profissionais nos próximos cinco anos. Atualmente, ingressam no ITA cerca de 150 alunos de engenharia a cada ano letivo.

Outros R$ 200 milhões serão investidos na construção do Centro de Inovação, uma estrutura que deverá abrigar outros laboratórios do ITA e será responsável por fechar parcerias com o setor privado. O principal objetivo dessa aproximação com as empresas, segundo o reitor da instituição, Carlos Pacheco, é colocar os alunos em contato direto com os desafios em médio e longo prazos do setor privado. “Esse convívio com o mercado, durante o curso, pode ajudar os alunos a decidir em que áreas eles desejam atuar como profissionais”, afirma.

De acordo com Pacheco, um dos focos da instituição, em sua nova fase, será a área aeroportuária. Um laboratório está em fase de implantação para permitir a realização de ensaios de projetos de controle de tráfego aéreo. Também para aumentar a aproximação do ITA com empresas e órgãos do governo ligados aos novos projetos aeroportuários, a escola irá promover, em 27 de junho, um evento – o AeroBrasil 2013 – que reunirá agentes públicos e privados para discutir soluções e boas práticas para o desenvolvimento do setor. O encontro será realizado em São Paulo, no auditório da Fecomércio.