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Naomar Monteiro de Almeida Filho: As doenças como objetos complexos

Publicado em 09 novembro 2020

Por Carlos Fioravanti | Revista Pesquisa FAPESP

Leia matéria de Carlos Fioravanti, publicada na revista Pesquisa Fapesp de novembro, com o Acadêmico Naomar Monteiro de Almeida Filho:

O epidemiologista baiano Naomar de Almeida Filho aproveitou a pandemia para avançar sua teoria geral da saúde, formulada em 2000 para examinar distúrbios mentais. Para ele, a pandemia da Covid-19, além dos elementos mais visíveis que a causam, envolve componentes ambientais e simbólicos, todos em interação contínua. “Nenhuma dimensão de análise, isoladamente, vai dar conta do todo”, diz. A versão mais recente de sua teoria saiu na revista científica Estudos Avançados de agosto deste ano.

Com 68 anos, casado, cinco filhos e seis netos, Almeida Filho nasceu em Buerarema, no sul da Bahia. Cresceu ali perto, em Itabuna, de onde saiu para estudar medicina em Salvador e epidemiologia nos Estados Unidos. Foi reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) de 2002 a 2010 e voltou à sua região de origem para implantar, de 2013 a 2017, a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Para reduzir os efeitos da exclusão territorial, implantou colégios universitários em oito cidades, nos quais os alunos começavam seus cursos antes de irem para um dos três campi principais.

Em 2019, ao se tornar professor visitante no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), começou a revezar entre Salvador e São Paulo. Como diz, tornou-se um soteropaulistano, neologismo que funde o gentílico soteropolitano, natural de Salvador – também chamada de Soterópolis, cidade do Salvador em grego –, e paulistano. Ele cumpre a quarentena na ilha de Itaparica, alternando caminhadas e corridas na praia com a participação em lives sobre a pandemia, universidades e as possibilidades de melhoria da educação no país.

O que é a teoria geral da saúde?

Essa teoria é talvez a finalização de minha carreira como epidemiologista. Chamei-a de holopatogênese porque busca uma compreensão da origem das doenças no conjunto de suas relações e efeitos, não só por meio de suas causas mais evidentes. Apresentei essas ideias em dois artigos na Revista de Saúde Pública, em 2013 e 2014, e apliquei-as inicialmente para entender a saúde mental. Agora a usei para tratar a pandemia como um objeto complexo em um artigo na Estudos Avançados. A teoria parte da concepção de multiplanos e interfaces hierárquicas, do filósofo argentino Juan Samaja [1941-2007], de quem fui amigo, complementada com a contribuição de pensadores latino-americanos como Milton Santos [geógrafo baiano, 1926-2001] e Néstor García Canclini [antropólogo argentino], além de Gilles Bibeau [antropólogo canadense]. A base é simples. Como qualquer doença expressa interações biológicas, ambientais, sociais e culturais, temos ocorrências simultâneas em vários planos: microestrutural, que trata das reações moleculares e celulares; microssistêmico, ligando metabolismo e tecido; subindividual, processos que ocorrem nos órgãos ou sistemas do corpo; individual, representado pela expressão médica; casos clínicos, para designar pessoas atingidas por uma doença; epidemiológico, que abarca populações sob risco de alguma doença; ecossocial, que examina as eventuais alterações ambientais ligadas à emergência de novas ou velhas doenças; e simbólico ou cultural. O desafio é articular planos, níveis, dimensões e interfaces.

O que essa abordagem mostrou sobre a pandemia?

Não se pode dizer numa pandemia que “isso causa aquilo”, porque nos sistemas complexos tudo se integra. Nenhuma dimensão de análise, isoladamente, vai dar conta do todo. Não se pode descrever a pandemia apenas pelo vírus ou pelos sinais clínicos da Covid-19. Uma pandemia é um evento singular e complexo, como furacões, tsunamis e guerras, que altera não só corpos humanos, mas também o tecido social, relações econômicas, meios de comunicação, a política. Para a compreensão de um fenômeno como esse, com tantas interfaces e tão mutantes, é preciso uma concepção mais holística. Em cada lugar, a pandemia tem comportamentos diferentes, porque as sociedades, as realidades e as reações institucionais são diferentes. Tudo isso deveria ser considerado nas formas de enfrentamento. Uma pandemia é uma oportunidade para novas formas de pensar e agir. Porque, por ser um evento crítico, a pandemia impõe a necessidade de um pensamento integrador, inter e transdisciplinar. Para um problema complexo, enfim, não há soluções simplificadoras.

Como vê a pandemia no Brasil?

Com muita preocupação. O Brasil vai entrar para a história como um dos países que pior lidaram com o problema. Há negacionismos, redundância de medidas, conflitos desnecessários e corrupção. Num primeiro momento, ainda no início de fevereiro, estabeleceram um centro de operações de emergência. Só que esse centro convocou apenas especialistas de pesquisa biológica ou clínica. Os epidemiologistas e sanitaristas, que têm conhecimento sobre as estratégias para enfrentar epidemias, não foram ouvidos ou até agora participam modestamente das decisões. Perdemos a chance de controlar a epidemia antes que se espalhasse. A Coreia do Sul e o Japão implantaram sistemas de vigilância epidemiológica muito eficientes, usando uma lógica simples: identificar precocemente os casos, mapear seus contatos e isolar a todos. Negligenciar medidas de isolamento e quarentena é uma forma de aplicar a ideia de “imunidade de rebanho”, muito criticada no campo epidemiológico até pela desumanidade nela implícita. Assim terminam promovendo uma seletividade social, atingindo a imunidade coletiva pelo sacrifício de velhos ou de quem já tinha outra doença, pobres e negros, que foram os que morreram mais no Brasil. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas.

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