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Arte Ref

Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto estreia este sábado, dia 21 de junho

Publicado em 20 junho 2014

Arte Ref

Com inspiração em Tchekhov e Cortázar, o espetáculo foi viabilizado pelo sistema de crowdfunding (ferramenta de financiamento coletivo), sem apoio de mecanismos de fomento à produção cultural. A nova montagem da diretora Silvana Garcia arrecadou recursos durante dois meses. Ao unir as histórias e criar seu novo texto Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto, a autora e diretora Silvana Garcia dá um tratamento dramático à narrativa do escritor argentino Júlio Cortázar (1914-1984) e traz para um patamar narrativo o drama do russo Anton Tchekhov (1860-1904).

O espetáculo – montado em processo coletivo com os atores Maria Tuca Fanchin, Sol Faganello e Leonardo Devitto – estreia sábado, dia 21 de junho, às 21 horas, na SP Escola de Teatro (rua Praça Roosevelt, 210). A obra – que tem iluminação de Beto Bruel (Prêmio Shell de Melhor Iluminador em 2001, 2005 e 2008) – resulta da junção do texto As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, com o conto Casa Tomada, do argentino Júlio Cortázar. Na encenação, as três personagens do autor russo são colocadas na condição do casal do conto do argentino.

O projeto, viabilizado por meio do sistema de crowdfunding pelo site Catarse, fica em cartaz aos sábados e domingos de 21 de junho até 27 de julho, e de 5 de agosto até dia 27 de agosto, às terças e quartas-feiras. A peça flerta com o realismo fantástico – presente nos contos de Cortázar – e se passa no final dos anos 50, em algum lugar onde desembarcaram emigrantes russos. O desejo de três irmãos (confinados em uma casa – Irina, Macha e Andrei) de ir a Moscou é freado por algo que os imobiliza. “Há nessas personagens um conformismo que as faz se adaptarem a todos os infortúnios. Ainda assim, alimentam a esperança e acreditam que haverá algo que valha a pena.

Em Cortázar, os dois irmãos abandonam a casa e não podemos imaginar o que seria deles, porque só existem enquanto estão ali dentro. Pensei muito nisso e conclui que também para eles não há saída”, diz a diretora. “O processo de isolamento acompanha a deterioração de suas relações – provocando um deslocamento da ação para um registro de irrealidade, humor e suspensão poética.” Silvana trouxe o texto do autor russo, escrito em 1900, para perto de nós e da data que Cortázar escreveu Casa Tomada, 1946, e situou a peça no fim da década de 50, em meio ao período da Guerra Fria, com seu clima de paranóia e a disposição de considerar tudo que vem de fora como ameaça.

“Não acho que isso esteja tão distante de nossa atualidade. Mudaram os protagonistas, mas podemos ainda testemunhar na grande imprensa, diariamente, aqui e lá fora, indícios dessa mesma aversão ao que nos é estranho e diferente.” Alguns elementos – como a corrida espacial, os filmes de ficção científica, característicos da época – também são tematicamente incorporados na peça. Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto, assim como As Três Irmãs, está dividida em movimentos que coincidem com as estações do ano. A peça começa no Verão e termina no Inverno. Há um momento no qual as personagens “realizam” um pouco dessas fantasias, fabricando neve de mentirinha, brincando com postais de lugares onde nunca foram, fabulando sobre um futuro que muito provavelmente não testemunharão. Mesmo sem nunca terem ido a Moscou, há muitas referências diretas a essa “nostalgia”. Moscou é apenas uma ideia, um desejo de felicidade, um lugar sonhado onde tudo poderia ser diferente.

O contato de Silvana com os dois textos, base para o projeto, não é recente. Em 2006, ela fez uma adaptação do conto Casa Tomada para o André Carreira, diretor e professor de teatro em Florianópolis. “Percebi naquele momento que gostaria de dirigir o conto, que eu tinha imagens muito fortes dele na cena. Por outro lado, sempre gostei da delicadeza e da complexidade das relações das personagens de Tchekhov, em especial em As três Irmãs. Não foi preciso muito para perceber que havia uma conexão interessante entre os dois textos. E a mistura dos dois já nasceu no meu imaginário como encenação, como ocupação da cena, com uma estrutura já esboçada”, diz a diretora. “Os textos têm um mesmo movimento; em ambos, as personagens estão constrangidas a um deslocamento que as obriga a abandonar o pouco que ainda têm. São forças, internas e externas, que as movem em direção a um lugar onde estarão condenadas a um cotidiano de confinamento. É também um lugar de alienação, de alheamento em relação ao mundo.” Dramaturgicamente, a diretora combinou elementos dramáticos com outros que escapam dessa classificação e ficam em um terreno intermediário, porque também não são explicitamente narrativos. “Procurei dar um tratamento dramático à narrativa de Cortázar e trouxe para um patamar narrativo o drama tchekhoviano. É um lugar muito interessante, que namora com a performatividade.”

O trabalho com os atores corresponde a essa concepção. Maria Tuca, Sol e Leonardo construíram figuras que são, de certa maneira, ambíguas, sobre as quais não temos certezas, mas impressões, porque às vezes elas nos escapam e vão para alguns lugares inesperados. Apesar de contar com dois textos de apoio para a dramaturgia, o processo de trabalho teve uma base de improviso e muito da criação dos atores foi transformada em texto e integra a dramaturgia da peça. Trechos da obra do Tchekhov ainda aparecem na boca dos atores em cena, mas uma boa parte do texto foi criada em improvisações, e organizada dramaturgicamente pela diretora. A iluminação de Beto Bruel guia o espetáculo, determina a passagem de tempo e o estado das personagens. A cenografia conta com um artista plástico/grafiteiro, Ciro Schu, que trouxe para a cena um elemento de desconstrução surrealista. Cada peça do cenário tem voz no espetáculo.

Com um trabalho simples – usando materiais e objetos usados – mas extremamente sofisticado, o artista assina seu primeiro trabalho como cenógrafo. E Maria Tuca, além de atuar na peça, mostra mais uma faceta, cuidando dos figurinos e da direção de arte do espetáculo. Ela realiza um trabalho afinado com a cenografia e com o conceito original do projeto. Formada em direção teatral e doutora em artes cênicas pela ECA/USP, Silvana Garcia integrou, durante quase duas décadas, um grupo de improvisação pelo movimento, com base em Rudolf Laban, pai da dança-teatro (1879-1958), sob orientação de Maria Duschenes, pioneira da dança moderna no Brasil e difusora do método Laban no País. De seu currículo também constam aulas de improvisação e diversos trabalhos como dramaturgista. Por algum tempo esteve mais próxima do cinema e, depois, voltou para o teatro, para os estudos de pós-graduação. Só recentemente aceitou dedicar-se à direção, quando criou e dirigiu o grupo lasnoias & cia., responsável pelos espetáculos Lesão cerebral (2007) e Há um crocodilo dentro de mim (2009). “Gosto de dizer que, finalmente, me sinto madura para dirigir. Espero que possamos oferecer aos espectadores de Moscou… uma vivência poética, sensível e inteligente”, termina a diretora.

SOBRE O CROWDFUNDING O crowdfunding, ou financiamento coletivo, consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo através da junção de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas no projeto. O termo é muitas vezes usado para descrever especificamente ações na com o objetivo de arrecadar dinheiro para artistas, jornalismo cidadão, pequenos negócios e start-ups, campanhas políticas, iniciativas de software livre, filantropia e ajuda a regiões atingidas por desastres, entre outros. É usual que seja estipulada uma meta de arrecadação que deve ser atingida dentro de um prazo para que o projeto seja viabilizado. Caso os recursos arrecadados, no fim do prazo estipulado, sejam inferiores à meta, o projeto não é financiado e o montante arrecadado volta para os doadores.

SOBRE A DIRETORA Teórica, ensaísta e professora da EAD – Escola de Arte dramática (ECA/USP) onde ministra aulas de teoria e dirige exercícios de interpretação. Pesquisadora atualmente dedicada a estudar o trabalho de grupos paulistas e a dramaturgia contemporânea brasileira. Como dramaturgista acumula algumas significativas realizações, como com os espetáculos: A Casa de Bernarda Alba, adaptação do texto de García Lorca, sob direção de William Pereira e Em Lugar Algum, adaptação do livro Tempo de Despertar, de Oliver Sacks, direção de Beth Lopes, entre outros. É autora dos livros Teatro da Militância (Perspectiva/Edusp, 1990) e de As Trombetas de Jericó. Teatro das Vanguardas Históricas (Hucitec/Fapesp, 1997). De sua produção editorial consta ainda a organização da edição de Odisséia do Teatro Brasileiro (Senac/Ágora, 2002). Sua produção ensaística registra contribuições a importantes revistas internacionais como:Yet there is method in’t.Ham-let. José Celso Martinez Corrêa, em Gestos. University of California/Irvine, 1995; Jó, su cuerpo y Diós, em Teatro al Sur, 1996; Production, Diffusion Et Public Des Spetacles à São Paulo, publicada em La Mediation Théâtrale, Bélgica, 1998; Das entranhas d´Os Sertões, o Oficina, em Latin American Theatre Review, University of Kansas, 2010. Viajes, peregrinaciones, memoria. Aspectos del teatro contemporâneo en Brasil. Gestos. University of California/Irvine, 2012.

FICHA TÉCNICA Dramaturgia e direção: Silvana Garcia Assistência de Direção: Bruno Gavranic. Elenco: Maria Tuca Fanchin, Sol Faganello e Leonardo Devitto.Direção de arte e figurinos: Maria Tuca Fanchin. Cenografia: Ciro Schu. Iluminação: Beto Bruel. Pesquisa de trilha sonora: Maria Tuca Fanchin. Preparação corporal: Diogo Granato. Consultoria vocal: Mônica Montenegro. Preparação de canto: Andrea Kaiser. Filmagem em Moscou: Nikolay Erofeev. Edição de vídeo: Sol Faganello. Operação de luz: Danielle Meireles. Cenotécnica: Jimmy Wong, Yuri Cumme e Diego Gonçalves. Produção: Núcleo Corpo Rastreado. Assistência de produção: Jackie Dolstoy e Marina Gomes. Fotografia: Roberto Setton Designer gráfico: Marina Kanzian e Luca Bacchiocchi.

Assessoria de imprensa: Arte Plural.

SERVIÇO Não Vejo Moscou Pela Janela do meu Quarto. Estreia: 21 de junho de 2014, na SP Escola de Teatro. Rua Praça Roosevelt, 210 – 01303-020 – São Paulo -SP. Telefone: (11) 3775-8600. Capacidade: 40 lugares. Classificação: 14 anos. Temporada: De 21 de junho até 27 de julho. Sábados, às 21h. Domingos, às 20h. Não haverá sessão nos dias 28 de junho e 12 e 13 de julho. De 5 de agosto a 27 de agosto. Terça e quarta às 21h. Ingressos: R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (meia-entrada). Duração: 70 minutos. Gostou? Compartilhe! Tweet TAGS: são paulo, SP Escola de Teatro, Teatro Não Vejo Moscou da Janela do Meu Quarto estreia este sábado, dia 21 de junho

SP Escola de Teatro - ()

Rua Praça Roosevelt, 210

(11) 3775-8600. Este evento ocorrerá entre os dias 21/06/2014 e 27/08/2014

Horário:

Preço: R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (meia-entrada).