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"Não vamos extrair todo o petróleo do pré-sal"

Publicado em 13 janeiro 2016

Por Carlos Dias

Aos 87 anos, José Goldemberg, atual presidente da Fapesp, um dos mais importantes órgãos de incentivo à pesquisa no Brasil, está cada vez mais ágil no raciocínio e afinado na verve. O ex-ministro da Educação de 1991 a 1993 e ex-reitor da Universidade de São Paulo, no fim da década de 1980, tem ideias e julgamentos sobre os principais temas que assolam o Brasil.

Sobre o pré-sal, diz que o Brasil cometeu erros crassos. Defende também que não tivemos um apagão energético devido à recessão. Alega que o País está atrasado na pesquisa no que chama "doenças de pobre", como a dengue e outras endemias. Nesta entrevista à DINHEIRO, Goldemberg também não poupa adjetivos para falar da expansão desmedida e cara das Pronatecs, uma das bandeiras da presidente Dilma Rousseff na campanha a reeleição.

DINHEIRO — O preço do barril do petróleo está no menor nível em 11 anos. O que isto significa para o mundo?

JOSÉ GOLDEMBERG — O que precisamos nos perguntar é por que o petróleo já foi tão caro, acima dos 140 dólares o barril. Isto acontecia porque o custo de produção dos grandes produtores, os membros da Opep, era muito baixo. Uma situação diferente da nossa, brasileira, com o pré-sal. Eu penso que o nível atual, em torno de 35 dólares o barril, é adequado e deve perdurar. É preciso lembrar que o preço caiu como forma de a Arábia Saudita, maior produtora do planeta, quebrar as empresas americanas que produzem petróleo e gás, o que não ocorreu. O detalhe é que, paralelamente, o consumo de petróleo no mundo industrializado está em queda, produz-se hoje 10 milhões a menos de barris diariamente que há uma década.

DINHEIRO — Qual a justificativa para esta queda de consumo e consequentemente nos preços do barril de petróleo?

GOLDEMBERG — Nos Estados Unidos existem 250 milhões de automóveis em circulação, para uma população de 320 milhões. O que vale dizer que até os bebês tem automóveis por lá. Na Europa e no Japão, a média é de 500 carros para cada mil habitantes. Moral da história: há uma saturação nesses mercados, com a observação de que houve um ganho enorme de eficiência energética dos carros, que consomem menos hoje. Imaginava-se que a queda no consumo de petróleo nos países industrializados fosse compensada pelo aumento das nações em desenvolvimento, como a China. E o que estamos assistindo é uma notória desaceleração da economia chinesa nos últimos anos. Isso sem contar que a tendência é o estímulo a outras formas de energia, como foi sacramentado na Conferência do Clima em Paris (COP-21).

DINHEIRO — Nesse cenário apontado, o que acontece com o pré-sal brasileiro?

GOLDEMBERG — Com o aumento da oferta, não vamos extrair todo o petróleo do pré-sal como se supunha. Vamos lembrar que os planos do governo federal eram de produzir cinco milhões de barris por dia. Hoje tiramos do pré-sal 700 mil barris, dos dois milhões que consumimos. Com a queda do preço será inevitável desativar investimentos do pré-sal, vamos provavelmente perder o que já investimos. O meu diagnóstico é que apostamos alto em uma matriz cara, o pré-sal, e fomos atropelados com a queda nos preços lá fora. E isto é trágico porque perdemos uma janela de oportunidade nessa matéria.

DINHEIRO — Que janela perdida foi esta?

GOLDEMBERG — Quando o programa do pré-sal foi formulado, o preço do barril era de 140 dólares. O que precisava ser feito, e não foi, era explorar rapidamente essas reservas. Fizemos o contrário: decidiu-se optar pela produção nacional na construção de plataformas, o que nos atrasou tremendamente. O correto seria atrair rapidamente as empresas de exploração internacionais, para retirar esse petróleo e vendê-lo quando o preço estava lá em cima. Não fizemos isto, a Petrobras ficou com a maior fatia da exploração do pré-sal e se endividou absurdamente. Deu-se à Petrobrás tarefas muito maiores do que ela poderia fazer.

DINHEIRO — Se o senhor estivesse sentado na cadeira do presidente da Petrobras, o que faria?

GOLDEMBERG — (risos) Sempre fazem esta brincadeira comigo. Mas não agora com esta idade. Uma vez me perguntaram o que eu faria se fosse ministro da Educação, e depois eu virei ministro. Dito isto, o que se está fazendo é correto, isto é, vender ativos e reduzir o tamanho da Petrobras e se concentrar na tarefa que ainda pode dar algum resultado, que é a exploração.

DINHEIRO— O último relatório do Banco Central, feito com base nas estimativas do mercado, aponta para uma redução da economia brasileira ao redor de 3% em 2016. É possível dizer que sem essa retração da economia teríamos problemas com a oferta de energia no País?

GOLDEMBERG — O único motivo pelo qual não temos um apagão energético é porque a economia está se retraindo. Se estivéssemos crescendo aos níveis que o governo apregoava antes das eleições, algo em torno de 4 a 5% ao ano, eu tenho certeza que estaríamos hoje completamente no escuro. Isto porque a nossa principal fonte de energia é a hidrelétrica, cujos principais projetos estão atrasados e feitos todos inadequadamente.

DINHEIRO — Por que são projetos inadequados?

GOLDEMBERG — Porque foram construídos no que chamamos de 'fio d'água", sem reservatório de água. Portanto, quando há seca, como as que temos agora, essas hidrelétricas deixam de produzir. Trata-se de um erro estrutural de projeto. A hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, foi concebida sem reservatório. Claro que fazer com reservatório custa mais, porém, em contrapartida, você pode produzir energia durante o período seco.

DINHEIRO — Qual a sua avaliação dos resultados da Conferência do Clima, a COP-21? Houve avanços?

GOLDEMBERG — Há 25 anos levantou-se no mundo científico o problema de elevação da temperatura do planeta, cujas consequências são indesejáveis. O que se tentou nesse tempo todo, até a COP-21, foram coisas ambiciosas e que não funcionaram. No acordo de Protocolo de Kyoto, do Japão, houve uma tentativa de cima para baixo, obrigando os países a reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Não deu certo. A diferença é que agora, em Paris, as nações tomaram uma decisão mais adulta, em que cada participante informa o que pode ser feito em seu território. Houve um avanço da diplomacia e de compreensão do problema.

DINHEIRO — Vive-se hoje no Brasil uma queda forte nos investimentos em pesquisa e tecnologia em razão da crise econômica. Como está o caso da Fapesp?

GOLDEMBERG — Perdemos 5% do orçamento com a crise. Tínhamos um orçamento de R$ 1,1bilhão em 2015, e perdemos cerca de R$ 50 milhões para 2016. O impacto nas atividades fins será menor porque usamos reservas, de aproximadamente R$ 800 milhões, que a Fapesp tinha em caixa. Mas nossa situação é distinta de outras agências federais que não dispõem de reservas. No caso dos chamados órgãos federais de fomento, como o CNPq e a Finep, o corte é inevitável. O Programa Sem Fronteiras, por causa dos cortes, praticamente não existe em 2016. O País vai mal nessa área de pesquisa.

DINHEIRO — Em seu discurso de posse na Fapesp, em agosto de 2015, o senhor cita que é preciso investir em pesquisa em vacinas contra a malária e a dengue. Vive-se hoje uma epidemia de dengue. O que foi feito de lá para cá?

GOLDEMBERG - Pesquisa em doença de pobre está muito mais devagar do que pesquisa em doença de rico. Estamos de certa forma correndo atrás do rabo do cachorro, lembrando que pesquisa demora tempo, como é o caso de vacinas. Lembre-se que uma dessas pesquisas de vacina, da dengue, foi realizada com recursos da Fapesp pelo Instituto Butantã, e está inclusive em fase avançada de testes.

DINHEIRO — Mas a picada do mosquito da dengue não espera esse tempo todo, não?

GOLDEMBERG — Sim, e isto é um reflexo de que pesquisa de pobre nunca teve a atenção necessária. Mas se der certo essa vacina brasileira da dengue, haverá uma repercussão no mundo todo, não tenho dúvidas. Precisamos dar um salto nessa área. E independente desse caso, precisamos criar uma cultura da pesquisa no País, não podemos somente ficar exportando minério de ferro a vida toda.

DINHEIRO — Em educação, pesquisa e tecnologia, o que o Brasil tem feito de correto e de errado?

GOLDEMBERG — Em ciência e tecnologia, até essa crise recente dos últimos três anos, estávamos em uma curva ascendente. Depois disso, tudo foi atingido. É um milagre que a Fapesp tenha conseguido se preservar. Em relação à educação, o problema é mais complexo. O governo federal expandiu demais o número de universidades federais e incentivou, por exemplo, o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), onde a qualidade ficou em segundo plano. Fui uma voz radical contra isto.

DINHEIRO — Qual é o problema nessa expansão do Pronatec?

GOLDEMBERG — Gastou-se uma quantia enorme e o número de escolas técnicas reais, que surgiram, foram poucas. Houve expansão de uma tal forma desses cursos que não foi possível se manter um nível mínimo educacional adequado. Expandimos a oferta e pioramos a qualidade. O resultado é que o sistema hoje custa muito mais caro, é mais difícil mantê-lo. Há muita gente que argumenta que o correto seria investir não nessas escolas, mas, sim, no ensino médio.