Chegamos à metade de 2020 e “a última vez que vi um 1º tempo tão ruim, estava 5 x 1 para a Alemanha.” Não sei quem disse nem lembro onde vi isso na internet, mas sei que o placar negativo ainda vai aumentar no jogo da COVID-19.
Mesmo que se invente uma vacina eficaz, levará tempo distribuí-la para todo mundo, em todo o mundo. O adoecimento e a mortandade devem continuar e todo cuidado é pouco. Karina Toledo publicou hoje (16/07) na Agência FAPESP um artigo de suma importância, intitulado “Especialistas apontam caminhos para o combate à pandemia no segundo semestre“.
Os próximos meses serão cruciais em todos os sentidos, com ou sem a descoberta da vacina. As recomendações dos especialistas, à falta de condições políticas para um lockdown como deveria ser, apontam para quatro decisões do poder público que são imperiosas para atravessarmos com mais segurança o 2º semestre pandêmico de 2020:
Investir pesadamente em estratégias de vigilância em saúde que possibilitem identificar e isolar rapidamente pessoas com sintomas de COVID-19 e seus contatos próximos.
Manter as escolas fechadas pelo menos até o fim deste ano.
Fazer campanhas para conscientizar a população sobre a necessidade de respeitar medidas de proteção, como uso de máscaras e distanciamento social, até que se tenha uma vacina eficaz.
Parar de minimizar a importância da pandemia ou de transmitir a ideia de que o pior já passou.
Essa foi a conclusão do webinar realizado na terça-feira passada (14/07) pela Agência FAPESP e Canal Butantan com cientistas, pesquisadores e gestores de saúde, que você pode rever aqui: “Quatro meses de pandemia da COVID-19 no Brasil: balanço e perspectivas para o futuro”.
[O gráfico abaixo] é da equipe COVID-19 Brasil, formada por “cientistas independentes de várias instituições brasileiras de pesquisa, bastante motivados em contribuir para o controle do surto de coronavírus que se instalou no BRASIL, a partir do monitoramento em tempo real dos dados fornecidos por fontes oficiais sobre a propagação do vírus no país.”
O quadro revela o que parece ser um platô em julho, induzindo a falsa sensação de que estamos prestes a ver uma inflexão da curva epidêmica no Estado de São Paulo. Mas Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan, alerta:
“A realidade é que o número de novos casos ainda deve continuar aumentando pelo menos até outubro, considerando o nível de isolamento atual – entre 45% e 50%. A queda só deve ocorrer de fato a partir de novembro e isso se não houver alguma mudança na tendência”.
No Estado de São Paulo, a curva de óbitos ainda é muito alta e parece ter se estabilizado em torno de 300 por dia, o que deve se prolongar até o início de 2021. Eduardo Massad, professor e pesquisador da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirmou à Agência FAPESP no artigo da Karina Toledo :
“Alguns dirigentes têm usado o platô como argumento para relaxar as medidas de isolamento social. Mas, na realidade, o platô é a assinatura do fracasso das políticas de contenção. Toda curva epidêmica que se preze tem de atingir o pico e começar a cair. Mas, como há evidências de que a adesão ao isolamento está diminuindo, muito provavelmente a curva de novos casos vai se manter. Na cidade de São Paulo, por exemplo, ela deve se estabilizar em 17 mil novas infecções por dia até, possivelmente, novembro”.
Acredito que existe um fator crucial além da descoberta de uma vacina e das medidas de proteção recomendadas. Não sabemos ainda responder se a imunidade contra a Covid-19 é duradoura. Porque tudo o que não queremos é que os milhões de indivíduos que já foram contaminados e sobreviveram voltem a constar de uma lista de reinfectados, novamente dependentes de tratamentos hospitalares e sujeitos a óbitos.
Hoje também um artigo de Lara Pinheiro no G1, Imunidade contra a Covid-19 pode ser duradoura, sugere estudo publicado na Nature, me serviu de alento e deu esperança:
A pesquisa constatou que células T, responsáveis por parte da resposta imune do corpo, ainda ‘guardam’ marcadores para a Sars, da pandemia de 2003, o que aponta para uma possível imunidade a longo prazo também para o novo coronavírus (Sars-CoV-2).
Oremos! Amém.
PS: por fim, para quem não conhece, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) como ela própria se define, é…
“… uma das principais agências de fomento à pesquisa científica e tecnológica do país. Com autonomia garantida por lei, a FAPESP está ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Com um orçamento anual correspondente a 1% do total da receita tributária do Estado, a FAPESP apoia a pesquisa e financia a investigação, o intercâmbio e a divulgação da ciência e da tecnologia produzida em São Paulo.”