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Opera Mundi

"Não se faz uma sociedade moderna sem Ciências Humanas"

Publicado em 03 maio 2019

Por Deutsche Welle

A crise da ciência brasileira não passou despercebida para um dos seus principais parceiros: a Alemanha. Em São Paulo para o encontro anual do Conselho de Pesquisa Global (GRC), o presidente da Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), Peter Strohschneider, afirma que o futuro das parcerias ainda não está claro.

Para o cientista alemão, o apoio a todas as áreas do conhecimento, inclusive Ciências Humanas, é a chave do sucesso de um país. "É impossível pensar no desenvolvimento de uma sociedade moderna sem as Ciências Humanas. Digo isso de forma muito categórica", afirma, em entrevista àDW Brasil.

DW: A ciência brasileira enfrenta uma crise grave. Nesse cenário, as cooperações com Alemanha passam a correr risco?

Peter Strohschneider:Eu ainda não consigo fazer essa avaliação. Posso observar, claro, que a situação de agências parceiras ligadas ao Ministério da Educação é um pouco menos preocupante que a situação daquelas ligadas ao Ministério de Ciência.

Dos nossos parceiros aqui em São Paulo nós tivemos a garantia de que o que estava previsto será cumprido, que não precisamos nos preocupar. No nível federal é um pouco diferente.

Mas tenho a impressão de que - e isso é algo para ser observado em muitos lugares do mundo -, quando a politica científica nacional passa por dificuldades, como acontece agora no Brasil, a cooperação internacional ganha mais peso e vira uma espécie de fator estabilizante para as agências nacionais.

A DFG mantém muitas colaborações com o Brasil. Como o senhor avalia a qualidade dessa cooperação?

Muito positivo. Temos em São Paulo um escritório da DFG que representa toda a América Latina. Mas é claro que o Brasil tem uma relevância não apenas na questão do financiamento, mas também na qualidade. Também devo mencionar a questão da relação de confiança, do tom amigável.

Estamos muito conscientes de que a situação das agências de fomento difere bastante em nível federal e regional. Em São Paulo, por exemplo, a capacidade para fazer pesquisa, a atratividade e a prontidão para cooperações internacionais tornam o estado mais representativo que outros.

Aqui em São Paulo temos tido reuniões muito produtivas com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Temos feito planejamentos que, certamente, serão executados em pouco tempo. E isso é uma contribuição importante para fortalecer a qualidade e intensidade da nossa cooperação.

Nesta reunião anual do Conselho Global de Pesquisa, vocês discutem como lidar com a expectativa da sociedade que espera um retorno econômico rápido da pesquisa na economia. Por que esse tema é urgente?

Estamos confrontando questões como: o que significa quando a sociedade e a politica esperam que a pesquisa contribua diretamente e em curto prazo para o desenvolvimento econômico e social? Como, dentro do sistema de financiamento de ciência, nós lidamos com isso, com essa expectativa crescente?

O tema existe praticamente desde que existe ciência, em torno do debate se a ciência é definida pela sua função da busca pela verdade ou por sua utilidade. Esse é uma falsa dicotomia. Ninguém quer produzir um conhecimento inútil.

Nós estamos tentando analisar essa questão no encontro anual e analisar o que significa isso para as agências de fomento e suas colaborações.

A Alemanha é um dos países no mundo que mais investe em pesquisa. Qual o impacto desse investimento na economia do país?

A pesquisa é de importância extrema não apenas para a sociedade, mas também para a economia. Por ano, cerca de 80 bilhões de euros são investidos em pesquisa na Alemanha. Desse total, cerca de dois terços são investimentos privados para pesquisa e desenvolvimento industrial. Um terço é investimento público nas universidades, centros de pesquisa.

Isso tem um significado muito relevante para esse país de tecnologia de ponta que é a Alemanha. E falo não apenas das áreas de engenharia, mas também em áreas como biotecnologia, inteligência artificial. São investimentos que seguem para setores considerados importantes para a economia, mas também para sociedade - são tecnologias que oferecem não apenas grandes oportunidades econômicas, mas também têm papéis importantes para a sociedade, para sua regulação, para questões socioculturais.

Investimentos que seguem também para as Ciências Humanas? Estamos vendo no Brasil um questionamento sobre a importância dessa área do conhecimento.

Eu ouvi sobre esse debate. Eu estou convencido sobre a importância das Humanidades - não apenas porque eu venho dessa área. Ciências Humanas têm um papel fundamental no desenvolvimento de uma sociedade moderna. É impossível pensar no desenvolvimento de uma sociedade sem as Ciências Humanas. Digo isso de forma muito categórica.

A discussão sobre gênero também está na pauta. Na avaliação do senhor, ainda existe muita desigualdade entre cientistas homens e mulheres?

Sim, a desigualdade é visível. É uma desigualdade diferente dependendo da área do conhecimento, do país. Em países escandinavos, por exemplo, o cenário é mais avançado que na Alemanha. Por outro lado, os países europeus estão um pouco mais avançados que os países árabes. Mas podemos dizer que, ainda, as mulheres estão sub-representadas na ciência, o que é um prejuízo não apenas para as mulheres, mas também para a ciência.

Essa sub-representação também depende do nível hierárquico na ciência: quanto mais alto o cargo, menor a representação feminina. Existe ainda a questão das disciplinas específicas - a situação na área de literatura, por exemplo, é muito diferente da eletrotécnica.