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Revista UM - Universo Masculino

Não está na hora de fazer seu check-up?

Publicado em 01 setembro 2009

Tudo bem que durante gerações nós homens fomos criados com vista a sermos supermáquinas, imunes a defeitos e quebras fora de hora. No entanto, a prática moderna prova que não é bem assim. Ainda mais quando a pressão, o estresse e a tensão do cotidiano, principalmente no âmbito corporativo, se transformaram em um terrível obstáculo à saúde masculina E, para não ser pego de surpresa, o melhor é prevenir. Como? Fazendo um check-up. O leitor já pensou que já estaria na hora de fazer o seu?

Tradicionalmente, os homens cuidam menos da saúde do que as mulheres. E isso é comprovado por números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). De acordo com esse levantamento, os indivíduos do sexo masculino vão menos ao médico (5496 contra 71% das mulheres). Consequentemente, procuram menos os serviços para exames de rotina e prevenção (28%, para eles; 40% entre elas).

Diante destas estatísticas, não é um espanto concluir que a população masculina acaba morrendo mais cedo. O que, de fato, é uma triste realidade: homens são a maioria dos óbitos desde os primeiros anos de vida. A diferença aumenta na adolescência e na juventude, quando ficam mais expostos à violência.

Dessa forma, é necessário se antecipar e fazer as manutenções necessárias e ficar atento quanto aos sinais que indicam esgotamento físico e mental. Afinal, é preciso dar um tempo nas atividades cotidianas e olhar um pouco mais para si. "Em geral, a partir dos 40 anos, é importante que o homem comece a se preocupar mais com a sua saúde. O ideal é ir a um clínico geral, pois é nessa idade que doenças como diabetes, hipertensão, as cardiopatias mais comuns, começam a se manifestai-", explica o urologista Nelson Gattas, do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos, de São Paulo.

Segundo o médico, essa preocupação para um check-up detalhado por volta dos 40 anos foi uma necessidade imposta pelas descobertas médicas. "Antigamente, o que a gente fazia era um exame detalhado quando o cidadão chegava aos 50 anos. Mas os avanços na área da urologia, por exemplo, permitiram a investigação mais precoce do antígeno que aponta a existência do câncer de próstata", ressalta. Atualmente, já é possível o diagnóstico do problema em pacientes com 40 anos. Dessa forma, ao chegar à quarta década, é necessário que o homem vença o preconceito e agende sua visita a um especialista, que estará apto a investigar outros problemas, como uma hiperplasia benigna da próstata ou mesmo um câncer de pênis, que é mais raro, mas não improvável.

Mas não é preciso esperar chegar aos 40 para começar a pensar na sua saúde. A partir da segunda década de vida, já é preciso verificar níveis de colesterol, niglicérides e glicemia (para descartar diabetes). Aos 30 anos, mesmo aqueles que não demonstram problemas com a visão, devem fazer sua visita ao oftalmologista. Além disso, a preocupação com bons hábitos não tem tempo para começar. Sendo assim, praticar atividades físicas, controlar o peso e não fumar já são bons mecanismos favoráveis ao bem-estar, principalmente ao coração.

Você tem medo de quê?

O cientista social Romeu Gomes, do Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fez uma pesquisa qualitativa com 28 homens - oito deles com ensino superior, dez com baixa escolaridade e dez médicos urologistas, que auxiliaram 110 estudo. O foco principal era a prevenção do câncer de próstata. Mas a conclusão que se chegou é que, independente da formação ou da faixa social, o homem, tradicionalmente, não é educado para se cuidar, o que explica sua baixa frequência nos consultórios médicos. "A perspectiva cultural e moral, que está fortemente atrelada ao imaginário social, foi o fator mais marcante em todas as entrevistas realizadas. Embora os dois grupos analisados tivessem perfis diferentes em termos de experiências de vida, eles lançaram mão dos mesmos estereótipos", disse Gomes em entrevista para a Agência Fapesp.

Para qualquer um desses grupos, o trabalho é o grande obstáculo para a sua ida ao médico. E, quando vai, não encontra lugares voltados exatamente para ele, mas espaços feitos para a mulher, a criança e o idoso. Aliás, não apenas os centros de saúde são "femininos" - os consultórios particulares também. Passada a entrada do prédio, geralmente, só se encontra um ambiente voltado para o público feminino. Até as revistas disponíveis na sala de espera são para leitoras. E, por fim, o homem guarda temor reforçado no ditado "quem procura acha".

O psiquiatra Luiz Cuschnir, supervisor do serviço de psiquiatria do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC) e coordenador do Gender Group (Grupos de gênero), também do HC, coloca o foco na construção da masculinidade. O problema, avalia, já vem desde quando o homem ainda se encontra no útero. Ao descobrir o sexo da criança, os pais já configuram uma imagem da criança e a atitude que terão em relação a ela, pregando desde cedo o mito de herói. "O homem não precisa ficar doente fisicamente para precisar de assistência. Ele precisaria de cuidados prévios para poder lidar com a frustração, a impulsividade e a agressividade", afirma Cuschnir. A dica está dada. Portanto, é melhor tirar a capa de super-herói, aceitar sua vulnerabilidade e se cuidar. Sua saúde agradece.