Notícia

O Diário (Mogi das Cruzes)

Não é só material escolar

Publicado em 08 fevereiro 2007

Nas ultimas semanas, os telejornais tem oferecido reportagens sobre o material escolar, dicas para realizar boas compras, a importância de comparar preços, bem como orientações legais diante de exigências realizadas por algumas escolas particulares.
Como pano de fundo dessas reportagens visualizamos pais responsáveis, preocupados com a formação de seus "filhos" biológicos, adotivos ou do coração.
Contudo, devemos ressaltar que essa responsabilidade não se encerra quando a criança entra no prédio da escola.
A escola é um espaço de formação no qual o fundamental é que os pais participem do cotidiano escolar não somente acompanhando a lição de casa; desenvolvendo nos filhos o habito do estudo, mas também, atuando na gestão escolar, monitorando a qualidade de ensino e contribuindo para a melhoria da escola como um todo.
Numa pesquisa realizada pelo Núcleo de Ciências Sociais Aplicadas da UMC, com financiamento da FAPESP, constatamos que nas escolas estaduais do Alto Tietê, como em boa parte das escolas públicas do Brasil, existe uma forte resistência, por parte dos pais em participar das atividades da escola.
Entrevistada, uma diretora de escola sintetizou muito bem este sentir: Os pais são assim, eles põem as crianças na escola, passou do portão para dentro é problema da escola. Isso é complicado. É preciso, talvez um esclarecimento maior às pessoas. Enquanto estiverem lá, do portão para fora, não vai haver mudança.
Faz parte das obrigações dos responsáveis dos estudantes ultrapassar as barreiras dos portões e se apropriar da escola, temos que romper a cultura de ficarmos como meros expectadores do lado de fora do portão.
Estamos falando da escola enquanto espaço publico, cujo dono e a comunidade A escola é pública porque é de todos os cidadãos, principalmente dos moradores da comunidade onde esta inserida.
Não estamos falando de ser voluntários ou Amigos da Escola. O voluntário e aquele cidadão que decide colaborar de forma espontânea e livre, obviamente com seriedade e compromisso mas sem nenhum tipo de obrigação Neste caso especifico estamos falando da obrigação que têm os pais por zelar pela formação de seus filhos participando dos espaços criados para este fim como são os Conselhos de Escola e a Associação de Pais è Mestres.
Ainda é muito forte a idéia de que o funcionamento da escola é de responsabilidade exclusiva do Estado. Contudo, se por um lado esta afirmativa tem muito de verdade, por outro, devemos deixar claro que a responsabilidade não é única e exclusiva do governo.
Não é só comprar material didático e botar o filho na escola. Os pais ou responsáveis pelos estudantes devem participar. A escola não é um depósito de crianças e adolescentes. O mesmo vale para os pais que matriculam os filhos em escolas particulares. A formação dos filhos não pode nem deve ser delegada e transferida para a escola e professores. O compromisso da família é fundamental.
A escola pública no Brasil somente vai melhorar quando houver efetivo engajamento dos pais, não numa lógica de confronto, mas sim num espírito comunitário, de diálogo e construção conjunta, fato que não elimina o confronto, a reivindicação e luta por direitos.
Uma escola pública, gratuita e de qualidade é um direito social e não privilegio de poucos.

Adolfo Ignácio Calderón, doutor em Ciências Sociais, é coordenador do Núcleo de Ciências Sociais Aplicadas da UMC. E-mail calderon@umc.br